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É trend: a volta do crochê na moda
Vida & Arte

É trend: a volta do crochê na moda

Fio e agulha vão se entrelaçando e o resultado são peças únicas, cheias da riqueza manual de artesãos. Antes mais restrito ao regionalismo na moda, o crochê ganha as passarelas e olhares internacionais. É tendência
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A milenar técnica do crochê, tão comum em nosso artesanato, vive alta na moda​ (Bolsa Caatinga, de Catarina Mina) (Foto: Divulgação/Catarina Mina)
Foto: Divulgação/Catarina Mina A milenar técnica do crochê, tão comum em nosso artesanato, vive alta na moda​ (Bolsa Caatinga, de Catarina Mina)

O crochê, tal qual conhecemos, é uma arte milenar. Data do século XVI, segundo relatos sobre a história, que considera, entre as teorias aceitas por pesquisadores, a de que nasceu no mundo árabe. Também se conta que veio da China. De lá, se espalhou. O próprio termo — “crochê” —, escrito e associado de diferentes formas aos costumes pelo globo, fala sobre suas raízes. Múltiplas. Está por toda a parte, sendo sinônimo, aonde quer que seja elaborado, de cultura e tradição. Além de uma base importante para o artesanato, voltado ainda à casa e decoração, está na moda, onde, volta e meia, decreta o mundo fashion, global, local. É tendência!

Agora, a alta do crochê é o reflexo, enxerga Celina Hissa (Catarina Mina), do novo, a partir dos aprendizados. Tem a ver, relaciona a designer, com o “momento pós-pandêmico”. Um tempo, em sua observação, que se abre tanto ao “construir” e ao “faça você mesmo”, como às novas percepções apreendidas com essa jornada, priorizando menos o industrializado e mais o feito à mão. “O crochê também traz muito essa possibilidade de mistura de cores, formas, então ele vem com esse toque de alegria; acredito que tem muito a cara do Brasil”, destaca.

De desfiles internacionais, como os da Prada e da Chloé, a uma rápida visualização no feed do Instagram, lá estão os modelos produzidos com a técnica, sintetizando a fala também de Celina, sobre a busca do calor do aspecto rústico e “handmade”, explorado em visuais de moda para o momento. Se voltarmos ao último mês de julho, dá de cara direto com a bolsa tote de crochê da grife italiana Prada. Virou sensação, assim como os chapéus e os biquínis de crochê exibidos por celebridades nos últimos meses. A verdade é que o crochê não sai de moda. Ele é permanente. O conceito aparece em várias marcas, como na de David Lee, que reafirma seu propósito com na técnica.

“O crochê, esse fazer manual tão nosso”, que o apresenta ao mercado, em seus principais modelos, traduzindo sua leitura sobre a técnica, foi seu ponto de partida, explica, para a criação da marca, seu primeiro e segundo nome. “Gosto de pensar que tramo outros futuros pra esse material e também para o masculino na moda”.

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Em paralelo, tem a Alix, de Alix Pinho, que leva a técnica longe, para Tulum e Nova York. O processo de feitura das peças, recentemente vestida por Marina Ruy Barbosa para posar para uma campanha de moda nacional, é todo cearense. Dominou o Instagram.

Também é por lá, uma grande “vitrine” para o setor da moda, impulsionando novos empreendedores a divulgarem seus trabalhos manuais, que topa com uma lista de iniciativas locais, ganhando força para passos maiores. Acontece, agora, com a Acqua Brazil, de Kyany Lima, “jornalista por formação, empreendedora de coração”, se assume, apaixonada pelo crochê. Este DNA, não muda, mas a marca terá outro nome, avisa.

Acqua Brazil
Foto: Ismael Matias/Divulgação/Acqua Brazil
Acqua Brazil

No catálogo de opções com a arte manual, o que imaginar para vestir. A ideia de revender o crochê, explica, nasceu durante o começo da pandemia. “Hoje trabalhamos com biquínis de crochê, com vestuário, tanto modelos mais simples, conjuntinhos e vestidos longos que são bem mais trabalhados.” A produção também é cearense, afirma. “Atualmente trabalhamos com oito oficinas de produção”, que totaliza oito artesãs. “Todas elas aprenderam a arte ainda criança com a mãe, que aprendeu com a mãe”, sabe a história, para poder repassar. “Alguma tem o crochê como renda principal, e outra como um complemento de renda.”, diz também Kyany.

A empresária, além de exercer este papel, é disseminadora da valorização do crochê, neste sentido. Uma coleção, 100% crochê, para o Revéillon já foi fotografada. “Esse ano vamos trabalhar as peças com aplicações, tanto esse modelo com as mandalas, como as de aplicações em square que estão super em alta.”, detalha. Além da novidade, tem as peças mais pedidas. O conjuntinho de crochê, com short, é o primeiro que menciona, além da saia longa tingida naturalmente em arco-íris — é trend! “Também temos peças mais detalhadas, que leva mais tempo para produção. Até 25 dias úteis.” lembra-nos a cearense do negócio que, algumas vezes, trata-se não só de ter algo para habitar a pele, sim, saborear o tempo.

Artesã Aldenice, de Várzea Alegre — CE
Artesã Aldenice, de Várzea Alegre — CE

Quem faz

A senhora da foto. Aldenice. É assim conhecida, só pelo primeiro nome. Nele, carrega uma história. É a matriarca, líder de um grupo de artesãs em Várzea Alegre. Trabalha com a Catarina Mina (de Celina Hissa). Uma história que vem de anos, “mais de dez”, lembra. Aldenice também se lembra de quando começou na arte que é o crochê. “Aos dez anos”. Me contou por telefone, uma voz satisfeita do outro lado da linha. Receptiva para falar “do que mais gosta” e se sente feliz, puxou um entrelace da memória: “minha primeira agulha, ganhei da minha tia”. Até hoje não parou de crochetar. É o verbo da vida de Aldenice, que se vê, disse, imbricada por mais tempo fazendo. Aos 62 anos hoje, ainda é o crochetar “a coisa que mais gosto, que me acalma, me deixa mais leve”. Pelas suas mãos se enroscam outras linhas, capazes de arrancar um elogio, após transformadas. Seu negócio, conta, são com bolsas. Passa a semana dedicada na entrega. “Só essa semana umas 400”, produzidas por ela e o grupo que ajuda coordenar. A associação, no município cearense, é formado, “por umas 32 mulheres mais dois homens”. É gente. Gente que se encontra nessa arte do crochê para ser bem mais que um “hobby” ou uma diversão, ganha-pão. “A gente sempre está ensinando a elas, jovem, que queiram aprender”, estimula repassando o legado e paixão envolvida. O tempo de entrega é o tempo que se leva para um modelo ficar pronto. “Quatro, cinco horas, dependendo do tamanho da peça”. Em situação de urgência, para atender a pedidos, a convocatória reúne “umas 15 ou 18 pessoas na minha área”, no caso, detalha, “na minha casa”. Aldenice é portas-abertas em se tratando de crochê. Para ela, o mais gratificante, “é quando a gente vê o trabalho concluído”. Não tem preço. (Mas tem nome. Se foi feito por ela: prazer, Aldenice).

Feito à Mão Crocheteria
Feito à Mão Crocheteria

Casual e chique: "a cara do verão"

Na foto, é Bia Oliveira, de 30 anos, fisioterapeuta e empreendedora. Veste um dos looks confeccionado à mão por Rosana, artesã, mãe da Thyfanny Frota, estudante. É ela quem ajuda Rosana a divulgar o “novo” trabalho, feito da sala da sua casa. É em uma cadeira, relata Thyfanny, de frente para a TV, que a mãe cria os modelos, de biquíni a peças casuais e mais elaboradas. A ideia, segundo a filha, se estabeleceu com o cenário de pandemia. Sem a loja de Rosana, a habilidade para o crochê acabou se sobressaindo, sendo além de rentável. Mãe e filha assumem marca juntas. O nome tem tudo a ver: Feito à Mão Crocheteria (@feito_amaocrocheteria). “Desde pequena, ela fazia peças de crochê. Tudo muito simples. Aí, na pandemia, ela teve que fechar uma lojinha de roupas que ela tinha e eu sempre soube que ela ama fazer crochê, na época, estava muito na moda aqueles conjuntinhos de top e faixa de crochê aí dei a ideia e ela começou a fazer.” O Instagram foi passo seguinte. “Hoje, a gente trabalha desta forma.” Produção em casa, divulgação e venda on-line. Quem veste, adora, certifica cliente. “Adoro crochê, acho casual e chique, a cara do verão”, diz Bia.

@dandaracouto_ veste sutiã 'crochet sol' + 'calcinha lacinho crochet sol'
@dandaracouto_ veste sutiã 'crochet sol' + 'calcinha lacinho crochet sol'

Na vitrine

Escolha sua referência. A tendência, de longe, é passageira. Presença carimbada no boletim
da moda, está mais para anfitriã, global e local, respeitada, fun (divertida), clássica, multicolorida, monocromática, ancestral. Sua técnica, um leque, do básico ao mais difícil, é acompanhada por gerações. Também guarda um tesouro, o saber, que a tradição preserva, impulsionando novas culturas inseridas neste fazer e repassar memória.

Outra peça que é trend: o chapéu de crochê. Além de Paulinha, cearense, usou Dua Lipa, cantora britânica
Foto: Reprodução/Instagram @paulinhasampaio
Outra peça que é trend: o chapéu de crochê. Além de Paulinha, cearense, usou Dua Lipa, cantora britânica

Novos designs
Foto: Reprodução/Instagram @crochetaria
Novos designs

"A arte do crochê foi entrelaçada no cesto de palha de Carnaúba e os detalhes de couro vegano dão o toque moderno e enriquecedor ao seu design.", detalha descrição no site
Foto: Reprodução/Insatrgam @gonzalodoceara
"A arte do crochê foi entrelaçada no cesto de palha de Carnaúba e os detalhes de couro vegano dão o toque moderno e enriquecedor ao seu design.", detalha descrição no site

Olhar da "Minga"

O nome é abreviação de Domingas da Costa. Empreendedora, que descobriu no crochê um ofício. É dela o Fino Crochê (@fino__croche) no Instagram. "Sou natural de Guiné-Bissau (um dos países da África Ocidental). Moro no Brasil há 15 anos", se apresenta. "Em meio à pandemia, quando tudo estava muito incerto, foi então que surgiu a ideia de fazer crochê (com incentivo de uma amiga), fui criando meu público, fazendo vendas e foi quando surgiu uma venda para fora do Ceará, e hoje enviamos para todo Brasil!", relata. "Cada peça é feita com muito amor e dedicação", finaliza. De artigos de moda, faz bolsas.

Bolsa tote em ráfia
Bolsa tote em ráfia

Superhit

Quem viu? No último mês de julho, a bolsa tote em crochê da Prada, desenvolvida pela grife
italiana em cores variadas, deu o que falar. Avaliada em mais de R$ 6 mil, dividiu opiniões na
internet, para uma versão mais em conta — e semelhante — do que a criada por Miuccia. Apesar da polêmica, respingada em outros modelos, aproveitando, recorrente ao que propõe de handmade — não citaremos as sandálias... se tornou o hit da temporada. Turma dos trendsetters (na moda, termo para identificar “criadores de tendência”) trataram logo de ter a sua. À época, fotografaram com sua versão da bag, a atriz brasileira — e assumida fashionista — Isis Valverde, e a influenciadora digital, stylist e empresária de moda radicada em Paris Maria Bernad.

Vestido Isabella na cor framboesa -
Vestido Isabella na cor framboesa - "100 % feito à mão, 100% feito no Ceará"

DICAS como cuidar

Passo a passo é ensinado pela designer de moda Gabriela Fiuza no Instagram da marca mantida por ela na plataforma.

1 - Lavar a peça em um recipiente onde possa deixá-la de molho. Também optar por um sabão “neutro” para roupas delicadas, para roupa branca, escolheu um sabão — líquido — também de coloração branca. Exemplo se amplia à “regrinha” básica. “Não vamos misturar as cores”, claras com claras, coloridas com coloridas, e pretas com pretas.

2 - Diluir o sabão na água antes de colocar a peça no recipiente (indica uma bacia). Aguardar 30 minutos para então enxaguá-la. Não recomenda despejar mais sabão do que o ideal para a quantidade de itens a serem lavados. Como a trama é bem fechada, observa, isso pode render, além de vários enxágues, para Gabriela, desnecessários, uma textura não desejada ao secá-la, “de sabão”. Para uma mini saia, calculou 1/4 da capacidade da tampa do produto.

3 - Também é importante, na hora de retirar o sabão, não torcer, sim, espremer, “para não danificar a trama”. “Para estender, a gente coloca a peça pelo avesso e estende horizontalmente”, nada de pregadores, apoiou-a em um varal de chão.

Explicação completa, em vídeo, no perfil da marca.

Também encontra

AM BRAZIL by Amanda Medrado
@ambrazilbrand
Mais informações: (11) 97896-0023

Cearensy por Synara Leal
@cearensy
Mais informações: (85) 98850-0093

CeArt Ceará
@ceartceara
Mais informações: (85) 99407-4260

Rebeca Sampaio
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Siará Crochê
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Studio Orla
@studioorla
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Teia
@loja.teia
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Urdi por Jamille Queiroz
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