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Documentário "A Jangada de Welles" estreia nos cinemas brasileiros

Filme retrata passagem do cineasta Orson Welles pelo Ceará após a travessia da jangada São Pedro
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Cineasta Orson Welles em passagem pelo Ceará (Foto: Chico Albuquerque)
Foto: Chico Albuquerque Cineasta Orson Welles em passagem pelo Ceará

Em junho de 1941, o cineasta norte-americano Orson Welles vivenciava o estrelato com a estreia de "Cidadão Kane", tendo seu trabalho visto como inovação na linguagem cinematográfica. Em setembro do mesmo ano, numa realidade distante dos Estados Unidos, a tripulação de Mestre Jerônimo, Mestre Tatá e Manuel Preto, comandada por Manuel Jacaré, partiu de Fortaleza rumo ao Rio de Janeiro, a bordo da jangada São Pedro. A travessia de 61 dias foi feita com o objetivo de chegar ao presidente Getúlio Vargas, a fim de reivindicar os direitos trabalhistas dos jangadeiros.

As possibilidades de um encontro entre os dois percursos eram improváveis, mas a união aconteceu a partir da publicação da revista TIME, "Four Men On a Raft" ("Quatro Homens em uma Jangada", em tradução livre para o português). A matéria destacava a viagem considerada heroica e chamou a atenção de Welles, que viria ao Brasil no ano seguinte para gravar registros do Carnaval para o longa-metragem "It's All True". A saga dos pescadores, então, se tornou enredo para as grandes telas.

A experiência de Orson no Brasil em 1942, precisamente entre a praia de Iracema e o Mucuripe, é retratada no documentário "A Jangada de Welles", dirigido por Firmino Holanda e Petrus Cariry. O filme estreia nos cinemas nacionais hoje, 23, após ser exibido em mostras e festivais de mais de 10 países. "Por coincidência, lançamos o filme em junho, exatamente 80 anos depois de Orson Welles vir a Fortaleza para iniciar as filmagens do episódio jangadeiro. Nosso filme traz elementos históricos e geográficos (trazidos por professores como Berenice Abreu e Eustógio Correia), depoimentos de parentes dos heróis da "São Pedro" ou de quem testemunhou a presença de Welles na cidade (caso do saudoso crítico L.G Miranda Leão)", detalha Firmino em entrevista exclusiva.

O diretor, professor e crítico de cinema já tinha percorrido o fato no livro "Orson Welles no Ceará" (2001), no qual traça paralelos com o estilo do cineasta norte-americano. Sem o "aparato de estúdio hollywoodiano" para desenvolver o recurso de "câmera baixa", Firmino aponta que Welles aprendeu a improvisar durante o período em terras cearenses. "Com pouco dinheiro e equipe reduzida, dirigindo não-atores, embebeu-se do modo de produção brasileiro. Cavava buraco na areia da praia para colocar a câmera suficientemente baixa e obter o referido efeito. Mas ele era também influenciado pelo cinema de (Serguei) Eisenstein e de (Robert) Flaherty, seja em aspectos plásticos ou no uso desses não-atores, vindos da comunidade praiana de Iracema e Mucuripe", explica.

Ao lado de Petrus, Firmino também havia mergulhado na vida de Manuel Jacaré para fazer o média-metragem "Cidadão Jacaré" (2005), projeto do Programa de Fomento à Produção e Teledifusão do Documentário Brasileiro (DOCTV). Ali, ambos começaram a construir o acervo de arquivos que seria utilizado no documentário. Neste longa, constam imagens restauradas do fotógrafo Chico Albuquerque, além de películas de cinejornais antigos, material magnético de televisões, manchetes de jornais e revistas da época, gravações de canções sobre jangadas cedidas pelo historiador Nirez e documentos obtidos em pesquisas no Instituto Histórico do Ceará.

A produção, portanto, costura inúmeras narrativas. Uma delas é a que está por trás da figura de Manuel Olímpio Meira, nome completo de Jacaré. Líder nato e comunicativo, o pescador aprendeu a ler e a escrever para defender seus direitos. "Seus colegas da jangada "São Pedro" eram homens de coragem e tão valorosos quanto ele, claro", reforça o diretor. Jacaré faleceu acidentalmente durante as filmagens de "It's All True" no Rio de Janeiro.

Após a trágica morte, Welles firmou o compromisso de continuar com o projeto do longa, que não chegou a ser finalizado. Entretanto, seus registros preservaram aspectos culturais e históricos da comunidade do Mucuripe em meio à ditadura do Estado Novo. Firmino acrescenta que o documentário também toca no racismo, no papel dos EUA "se afirmando" como nação hegemônica e na história do cinema. "Há varias linhas de interesse dentro de "A Jangada de Welles", agrega o pesquisador.

Confira a entrevista com Firmino Holanda na íntegra: 

O POVO: Firmino, o senhor já tinha percorrido a trajetória de Orson Welles no livro "Orson Welles no Ceará" (2001). Quais são as características do trabalho do cineasta norte-americano?

Firmino Holanda: No livro me detenho mesmo no episódio “Quatro Homens Numa Jangada” (do inacabado "It’s All True"), montado por terceiros, baseados em apontamentos de Welles e nas imagens captadas por ele. Por vezes, faço paralelos com o estilo do cineasta de “Cidadão Kane”, citando seu uso de “câmera baixa”, um recurso estilístico de fotografia que ele aqui tanto repetiu, no caso, em cenas externas sem o aparato de estúdio hollywoodiano. No Ceará, com pouco dinheiro e equipe reduzida, dirigindo não-atores, embebeu-se do modo de produção brasileiro, aprendeu a improvisar. Cavava buraco na areia da praia para colocar a câmera suficientemente baixa e obter o referido efeito. Mas ele era também influenciado pelo cinema de Eisenstein e de Flaherty, seja em aspectos plásticos ou no uso desses não-atores, vindos da comunidade praiana de Iracema e Mucuripe. Com seu gênio, extraiu-lhes o melhor. Aí, antecipou algo do neorrealismo, que despontaria na Itália pouco depois.

OP: Essa nova parceria com Petrus aconteceu após "Cidadão Jacaré", que aborda a história de Manuel Jacaré. Quando e como vocês decidiram, então, iniciar a produção de "A Jangada de Welles"?

Firmino: Para fazer o média “Cidadão Jacaré” (2005), eu ganhei o edital Doc.TV e chamei Petrus Cariry para dividir direção e montagem comigo, já sendo ele também o fotógrafo. Em “A Jangada de Welles”, deu-se o inverso. Ele conquistara um prêmio para rodar um longa e sentiu vontade de desenvolver aspectos do mesmo tema, agora com mais recursos para dispor de arquivos brasileiros e de fora, melhorando a qualidade das imagens, etc. Aí, ele me convidou para me juntar ao projeto, o que foi natural, pois sempre trabalhamos juntos nas suas e nas minhas produções, inclusive ficcionais.

OP: "A Jangada de Welles" traça uma narrativa a partir da passagem de Orson pelo Ceará. Como se deu a ligação entre o cineasta e o Estado?

Firmino: O Estado, no caso, seria o Estado brasileiro, pois na época o Ceará as unidades da federação não tinham autonomia. Não havia governadores, mas interventores, pois vivia-se a ditadura do Estado Novo. O chefe nacional era Getúlio Vargas. Foi quando o governo norte-americano, em nome da Política da Boa Vizinhança (a alicerçar as relações dos EUA com as nações latino-americanas, durante a Segunda Guerra) propôs o filme de Welles. Os ianques se entenderam com o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) da ditadura e tocaram o projeto de “It’s All True”, um longa de episódios (o dos jangadeiros cearenses e o do carnaval carioca, além de outro rodado no México). Não tenho notícias do poder público cearense ajudando nos trabalhos. Welles, de fato, contou com ajuda da Aba Film (que cedeu uma câmera filmadora, além de Chico Albuquerque ter feito foto still no filme), com ajuda do empresário Fernando Pinto (do Jangada Clube) e sobretudo das comunidades praianas de Iracema e Mucuripe.

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OP: Outro destaque é o papel de Jacaré na luta pelos direitos dos jangadeiros. Qual foi a relevância do cearense dentro do contexto de 1941, quando ele fez a travessia até o Rio de Janeiro?

Firmino: Manuel Olímpio Meira, o “Jacaré”, era um líder nato. Tinha o dom da palavra, o que foi reforçado ao aprender a ler e escrever, nas horas vagas, junto à professora Lyrisse Porto, lá na praia de Iracema. Tinha carisma e conquistou a simpatia de Welles. Seus colegas da jangada “São Pedro” eram homens de coragem e tão valorosos quanto ele, é claro. Afinal fizeram a grande travessia marítima (que aliás não foi a primeira e nem a última do gênero). O valor heroico e de liderança de Jacaré gerava desconfiança junto à polícia política, que vigiava seus passos no Rio de Janeiro. Mas, como estrategicamente ele e os colegas fizeram aquela aventura midiática, tornaram-se famosos e criaram assim uma capa de proteção. Cabia à ditadura aturá-los e atender seus pedidos por direitos trabalhistas. Restava ao regime exaltar o heroísmo deles e tentar lucrar às suas custas, alimentando a sua ideologia nacionalista. Antes de Welles, fez-se aqui um curta do DIP, onde Dorival Caymmi representa um jangadeiro que morre no mar. O filme exalta este pescador-mártir e os benefícios que Vargas então tivera de destinar à sua categoria. Esta obra também é tratada em “A Jangada de Welles”.

OP: Consequentemente, o projeto também apresenta os paralelos históricos do Mucuripe. Quais aspectos desse território fortalezense vocês buscaram retratar?

Firmino: Sobretudo é mostrado como um espaço de pobreza. Desmistificamos aquela visão romantizada da vida dos jangadeiros, onde se diz que “é doce morrer no mar” (como cantava o citado Caymmi). Isso é explicitado no caso do Zé do Foto, que fotografava os inúmeros “anjinhos” do lugar, vítimas de fome e doenças. Em depoimento de Blanchard Girão, o jornalista nos diz que era comum ver uma ou mais dessas imagens expostas nas nas casas do lugar, onde crianças tiveram suas vidas ceifadas. Welles aqui chocou-se com o cenário de miséria. Ele também vira isso nas favelas (prevendo que, no futuro, aquilo geraria questão social grave). Mas no filme nosso sobra espaço também para a beleza de um cenário que, àquela época ainda não era tomado pela especulação imobiliária, que afastaria os jangadeiros para mais distante da praia. O filme traz até cenas de ação policial despejando moradores pobres no bairro Vicente Pizon, ocorrida há alguns anos.

OP: "A Jangada de Welles" reúne arquivos de imagens, áudios e notícias. Como vocês desenvolveram o processo de pesquisa? Quais foram os critérios de seleção para os documentos que fazem parte do filme?

Firmino: Nossa experiência com “Cidadão Jacaré” já apontava para os arquivos brasileiros a serem buscados. Além do mais, dispomos de arquivo próprio com horas de entrevistas gerados na produção deste média. Colhemos também mais depoimentos para o novo filme. No final, entrou de tudo nesse “samburá” de imagens, das mais diversas bitolas de cinema e de formato de vídeo. Usamos "fotos still" de Chico Albuquerque feitas para o filme de Welles, já devidamente restauradas; trabalhamos com outros arquivos fotográficos e de audiovisual, não só películas de cinejornais antigos, mas também material magnético de televisões; muitas manchetes de jornais e de revistas da época (compramos até um exemplar da “Time”, de 1941, com a matéria sobre a travessia cearense) etc. O grande Nirez, como sempre, nos forneceu muitas fotos e gravações de canções sobre jangadas. Pesquisamos também no Instituto Histórico do Ceará, o que precisa sempre ser lembrado.

OP: Depois de ser exibido em mostras e festivais, o longa entra em circuito nacional em junho. O que o senhor espera com essa nova exibição ao público brasileiro?

Firmino: Por coincidência, lançamos o filme em junho, exatamente 80 anos depois de Orson Welles vir a Fortaleza para iniciar as filmagens do episódio jangadeiro. Aqui ficou algumas semanas trabalhando, nos legando a beleza de suas imagens. Esperamos que o público extraia do filme nossa ideia de refletir sobre o significado disso, percebendo o quanto os problemas do passado de nosso povo pobre ainda persistem. Outra questão sempre atual, tocada no filme, é o racismo, que marcou as reações aos trabalhos de Welles ao aproximar-se do samba carioca. No mais, vemos o papel do EUA, se afirmando na época como nação hegemônica, enquanto a Europa era desmontada pelo nazifascismo, pelo qual o ditador Vargas tinha simpatias. Nosso filme traz elementos históricos e geográficos (trazidos por professores como Berenice Abreu e Eustógio Correia), depoimentos de parentes dos heróis da “São Pedro” ou de quem testemunhou a presença de Welles na cidade (caso do saudoso crítico L.G.Miranda Leão). Também elabora diálogo com a própria história do cinema, no caso, já tendo sido até objeto de discussão junto a estudiosos da obra “wellesiana” de Rogério Sganzerla. Quero dizer que há várias linhas de interesse dentro de “A Jangada de Welles”, para além das memórias da Fortaleza antiga, tão presente em suas imagens.

OP: Com sua experiência como crítico, professor e pesquisador, como você enxerga o atual momento do cinema cearense?

Firmino: É um momento muito positivo, com produção crescente (apesar da crise econômica), com variedade de gêneros. Contamos também com o Cine Ceará que, anualmente, demonstra o que se anda fazendo por aqui, seja na mostra nacional/internacional, seja na Mostra Olhar do Ceará, exclusiva dos diretores locais. Além disso, dispomos de dois cursos de graduação em audiovisual e cinema (UFC e Unifor), e cursos da Casa Amarela Eusélio Oliveira, Vila das Artes e Porto Iracema. Não é pouco. Para pessoas de minha geração forjados no Super-8 e, depois, nos primeiros equipamentos de vídeo mais acessíveis etc, houve um salto enorme nesse sentido do conhecimento e da prática. Nos anos 1970/80 só havia os cursos de iniciação ministrados pelo Eusélio Oliveira, no velho Cinema Universitário (a atual Casa Amarela, que hoje traz seu nome). Depois, veio a Casa do Cinema, do José Nelson, que durou alguns anos. Tudo isso, antes do Instituto Dragão do Mar, que deu novo impulso às coisas. Mas isso é outro assunto difícil de resumir aqui.

"A Jangada de Welles" em Fortaleza

Quando: a partir de hoje, 23

Onde: Shopping Benfica (Rua Carapinima, 2200, Benfica) e Cinema do Dragão do Mar (Rua Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema)

Quanto: Ingressos entre R$ 5 (meia) e R$ 32 (inteira)

 

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