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Resistência com os discos
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Vida & Arte

Resistência com os discos

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Diante das mudanças nos formatos de vendas, a loja de discos "Passa Disco", localizada em Recife, fechou suas portas recentemente após quase 21 anos de história.

Fundada por Fábio Cabral, conhecido como Fábio Passadisco, um agrônomo e jardineiro, além de entusiasta da música, a loja se destacou como um ponto de encontro e espaço cultural que promovia shows e lançamentos de discos e livros de artistas.

Apesar de ter se consolidado com um público fiel ao longo dos anos, e com um selo que produz e vende discos, o fechamento da loja reflete as mudanças no mercado fonográfico. Fábio explicou que, desde o início, a "Passa Disco" enfrentou a concorrência da pirataria e, posteriormente, o avanço de formatos digitais como MP3 e o streaming.

Mesmo assim, ele conseguiu manter um público que buscava pelo formato físico e seguiu com a loja ativa. No entanto, a falta de lançamentos de CDs após a pandemia foi um agravante.

“Sem mercadoria para vender, não tinha como manter a loja. Já houve ano em que Pernambuco teve 227 lançamentos de CDs. Em 2024, só tivemos dois”, comentou Fábio.

Outra dificuldade que o fundador da loja também enfrentou está relacionado à ascensão dos vinis, que hoje são distribuídos legalmente por poucas e grandes gravadoras, que já têm vendas diretas ao consumidor.

“Os lojistas não têm acesso aos vinis novos. Mesmo se vendessem para mim, o preço seria praticamente o mesmo que o consumidor paga direto. Não há como competir”, explicou.

Apesar do fechamento, a "Passa Disco" continua sua presença no digital. O proprietário afirma que pretende vender o restante do acervo pelo Instagram. A loja sempre teve um foco maior na produção independente, fato que ele aponta como uma alternativa para manter a continuidade da marca.

O impacto dessa transição digital no consumo de música vai além das estratégias e organização econômica das lojas. Segundo Fábio, a ausência do formato físico afeta também a experiência cultural.

"Quando você compra um disco, tem a capa, o encarte, as fotos do trabalho. Tudo isso agrega ao artista e à obra. No digital, a imagem se apaga”, aponta.

Cabral também destaca a importância de preservar a cultura dos álbuns e discos físicos.“É fundamental para preservar a memória da MPB, esses registros têm sua importância é um documento para a história do Brasil. No streaming tudo pode ser perdido ou esquecido”, comenta.

Ele menciona ainda que a criação artística também mudou, com uma tendência a singles soltos e temporários, ao invés de álbuns conceituais. “Antes, o artista fazia um álbum temático, como um tributo ao Sertão, por exemplo. Hoje, lança-se uma música para tentar a sorte nas redes sociais”, conclui.

 

 

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