Na orla do Mucuripe, uma capela resiste ao tempo e às mudanças na sociedade que forçam
a seguir pequena e única entre as ampliações do asfalto e construções prediais que surgem ao redor. Com os primeiros muros datados do século 1800, a Igreja de São Pedro dos Pescadores se mantém firme e discreta aos olhos daqueles que passeiam pela Avenida Beira Mar, próximo ao Mercado dos Peixes.
Entre passos de corredores, caminhadas de moradores da região e movimentação de pescadores, a capela é uma das poucas - e resistentes - construções que contam a história da Capital. O local, então, virou razão e personagem principal do “Luzes do Tempo”, realizado pela equipe do Laboratório de Experiência Digital (Led) da Universidade Federal do Ceará (UFC).
“Pensamos em histórias interessantes da Cidade que poucas pessoas conheciam para apresentar de forma diferente, contando sobre o passado de forma lúdica e que gere interesse por quem passe pela região. O projeto tem essa raiz de contar uma história, mas também trazer reflexões sobre o passado, abordando a identidade dos pescadores e debatendo sobre a especulação imobiliária local”, explica Diego Ricca, professor do curso de Design da UFC.
Coordenador do Led-RX, projeto do Laboratório com foco em realidades expandidas, Diego comenta que o “Luzes do Tempo” se desenvolve a partir do conceito do uso da tecnologia para aproximar as pessoas.
“O princípio orientador fundamental foi cativar as pessoas com o ‘Mucuripe fantástico’ em celebração do nosso patrimônio e, através desse vínculo, não apenas educar sobre a história dele na Cidade, mas também levá-las a refletir sobre como ele perdura na dinâmica urbana de Fortaleza”, diz Tiago Sarmento, aluno de Arquitetura e Urbanismo da UFC.
Na função de diretor de arte, o estudante comenta que a “troca de saberes” entre os participantes foi essencial para o resultado positivo do projeto. “Todas as etapas foram feitas de forma colaborativa e multidisciplinar, o que tornou mais interessante e significativa a troca de experiências e saberes”, afirma Tiago.
Desenvolvido durante dois anos, o projeto foi concebido por uma equipe de 12 pessoas formada por alunos e professores da UFC – entre designers, arquitetos e desenvolvedores – e realizado a partir de financiamentos obtidos pelos editais da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Fortaleza (IX Edital das Artes) e da Unity Engine (Higher XP Innovation Grant).
Também chamado de “experiência” ou “interação”, Diego argumenta que o “Luzes do Tempo” pode ser considerado um “jogo de realidade aumentada” devido aos elementos utilizados para prender a atenção do usuário. “São três capítulos, mas não há uma narrativa. Ao acessar o QR code, o usuário é convidado a achar elementos ‘perdidos’ que contam histórias ao serem clicados. Há esculturas, casas, jangadas, prédios…”, diz Diego.
Para além da experiência virtual, o “Luzes do Tempo” conta com um mobiliário montado em frente à igreja, desenvolvido por Diego Ricca e o artista cearense Narcélio Grud. No número 4600 da avenida turística, os passantes têm a oportunidade de dar uma pausa na agitação e ler sobre a história da então vila de pescadores antes de mirar a câmera do celular para o QR code.
O “Luzes do Tempo” traz obras do artista cearense Raimundo Cela (1890-1954), reforçando a conexão com o passado para contar a história presente. “A gente optou por tentar, realmente, ver como era a vila do Mucuripe antes da pavimentação. O Raimundo fez em suas produções uma grande pesquisa, com desenhos e pinturas, que mostravam a tradição, o cotidiano e era isso o que estávamos querendo homenagear”, detalha Diego, doutor em Design pela Universidade de São Paulo (USP).
Na interação, o projeto traz representações da Igreja de São Pedro dos Pescadores, as casas e a natureza da época, até as construções atuais. “O design e arquitetura não são contra o desenvolvimento, porém, ao mesmo tempo, não podemos ser contrários à memória”, conclui.
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Mire a câmera do celular para o QR Code e confira o "Luzes do Tempo"
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