Toda história tem um começo. Esta matéria, que está sendo lida em folha de jornal ou plataforma online, também tem. Num olhar anterior à reunião de pauta que a definiu e até ao próprio nascimento do Jornal O POVO, está o surgimento da imprensa cearense, datado há mais de 200 anos.
Em 1º de abril de 1824, foi criado o primeiro jornal cearense, o Diário do Governo do Ceará, que era usado como ferramenta de divulgação dos interesses dos poderes políticos. Conforme explica Maria Érica, doutora em Comunicação Social, a história da comunicação no Estado se assemelha ao que aconteceu com todos os veículos no Brasil.
“As gazetas da época eram instrumentos do partidarismo reinante”, diz a especialista, que cita estudos do pesquisador Nelson Werneck Sodré sobre o impacto que os jornais da época tiveram sobre as lutas políticas em seu contexto de surgimento.
Não à toa, o jornalismo cearense surgiu durante a Confederação do Equador no Brasil, movimento que tinha como mote a insatisfação com o autoritarismo do imperador Dom Pedro I e a consequente crise socioeconômica. Na época, apesar de declarada a independência nacional, a Nação ainda vivia sob controle e influência da coroa portuguesa.
A revolução começou em Pernambuco e se espalhou pelo Maranhão, Rio Grande do Norte, Piauí, Pernambuco e Ceará. O movimento e “segredos” desse período são explicados no documentário “Nordeste Insurgente”, produção do O POVO+, a plataforma de streaming do Grupo de Comunicação O POVO.
“A imprensa no Brasil nasceu sob a égide do poder estabelecido. E no Ceará não seria diferente. Na época, os ideais dos confederados se espraiavam pelas províncias do norte, a partir de Pernambuco, de onde veio a máquina para imprimir o primeiro jornal do Ceará. O Diário do Governo do Ceará surgiu como um órgão oficial, transformando-se, posteriormente, em curto espaço de tempo, no porta-voz da Confederação”, detalha o historiador e jornalista Nilton Melo Almeida.
Nesse contexto, as publicações da imprensa cearense acompanharam interesses de líderes da província do Ceará. O Diário do Governo do Ceará teve como autor Gonçalo Inácio de Loiola de Albuquerque e Melo, conhecido como Padre Mororó, lembrado por Nilton como “principal sujeito dessa história e mártir da Confederação do Equador no Ceará”, assim como o também reconhecido Tristão Araripe.
A difusão de ideias de revolução, no entanto, não demorou muito na imprensa cearense. O historiador conta que a Confederação do Equador foi “esmagada pelas tropas leais ao governo” em apenas dois meses e seus líderes foram executados.
“Não havia ambiente para a propagação de ‘ideias revolucionárias’ por meio de jornais, incipientes e sob a vigilância do governo imperial. O próprio Diário do Governo do Ceará sucumbiu em novembro de 1824, surgindo posteriormente ‘O Cearense’, com o instigante lema ‘a opinião é quem avigora ou desorganiza a ordem social’. Na verdade, era um jornal para a publicação de atos administrativos dos presidentes da província”, destaca Nilton.
Érica esclarece que, depois do surgimento do Diário do Governo do Ceará, em 1824, o Estado cresceu consideravelmente em número de jornais. Até 1839, outros 15 veículos surgiram; de 1840 a 1849, novas 23 gazetas; de 1850 a 1859, mais 20; e, de 1860 a 1869, 116. “Esse número, entre 1880 e 1889, chegou a 175. Foi um número crescente e significativo que só teve queda a partir de 1920”, diz.
Sobre as razões que levaram ao surgimento da imprensa no Ceará, Érica relembra com frase dita por Demócrito Rocha: “Foi a política que gerou o jornalismo cearense”.
Ela cita, como exemplo, o domínio da oligarquia Nogueira Accioly no Estado (1896-1912), que tinha como jornal do governo A República, que “agredia os elementos da oposição”; e o Jornal Unitário, de João Brígido, que era combatido pelo governo local. “A imprensa sempre esteve vinculada com o poder político”, resume.
Atualmente, a narrativa é diferente e o período de surgimento da imprensa é questionado enquanto em relação ao compromisso jornalístico, já que era usado como ferramenta de uma minoria no poder político. Essa constatação foi feita, inclusive, reconhecida por comunicadores do período.
Nilton lembra, nesse sentido, do jornalista Geraldo Nobre, que advertiu que “em seu julgamento não se encontram maiores nem melhores referências ao fato de haver redigido o ‘Diário’, talvez porque este se limitou praticamente a divulgar o expediente da Secretaria do Governo, da qual o seu redator era, aliás, o titular”.
Nordeste Insurgente