Nos corredodores do Pavilhão Ibirapuera, durante a abertura da SP-Arte, o discurso dos galeristas e dos compradores estava afinado para um só ponto: a produção artística está cada vez mais visceral, humana, orgânica. O evento - que reúne mais de 200 expositores nacionais e internacionais em São Paulo - funciona como um grande termômetro para o mercado das artes brasileiras. É considerada a maior feira do segmento na América Latina, com a marca de 21 edições realizadas até 2025 e movimentando milhões de reais (e de doláres) até o próximo domingo, 6.
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Enquanto as inteligências artificiais utilizam litros de água para produzir imagens estáticas - gerando trends como a compartilhada à exaustão nas últimas semanas a partir de produção do Studio Ghibli - o mercado brasileiro de arte se movimenta a partir de outras dinâmicas. Iniciada na última quarta-feira, 2, a SP-Arte incorpora um movimento cada vez mais pautado no manual e no material. A movimentação, conforme explica a idealizadora da feira, Fernanda Feitosa, é algo que transpassa os últimos anos.
Para os galeristas ouvidos pelo O POVO durante visita à SP-Arte, a pauta do uso das chamadas IAs para produção de obras é algo que, em certo nível, está sendo vencido - a partir do entendimento de que o humano é insuperável. "O grande atrativo da arte é a questão do fazer humano, da feitura, da habilidade, da sensibilidade. E o trabalho que é executado pelo artista traz muito mais dessa carga do que uma criação da IA. Não que a IA não vá existir, mas acho que ela nunca vai conseguir tirar todo o brilho gerado pelo contato das pessoas com uma obra", pontua o cearense Leonardo Leal - que, em Fortaleza, mantém galeria homônima localizada na Aldeota.
Mesmo dentro de uma feira, há objetivos claramente comerciais e existem colecionadores garimpando peças raras. Leonardo explica que é possível encontrar apreciadores emocionados ao realizar o encontro com determinadas obras. "Isso é uma coisa que o trabalho físico consegue e acho muito difícil a IA tocar as pessoas da mesma forma", pontua o galerista.
Participando da SP-Arte desde 2021, ele leva para a visibilidade do evento artistas locais como Gustavo Diógenes, Célio Gurgel, Cadeh Juaçaba e Arrudas. Alguns, segundo Leonardo, tiveram as obras adquiridas pelos colecionadores paulistas antes mesmo da primeira meia hora de feira ser finalizada. Ao O POVO, a idealizadora Fernanda Feitosa explica que o mercado brasileiro tem um sistema próprio e, apesar do mercado internacional de arte estar em retração, o Brasil persiste nas compras e vendas constantes.
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"Nos tempos que nós estamos vivendo, as pessoas não compram as coisas correndo. Há um 'slow buy', mas que não se traduz em um mercado morno", pontua Fernanda - lembrando que as feiras de arte são responsáveis por, pelo menos, 30% da movimentação anual para o mercado. "Elas são o grande momento", aponta. Leonardo explica que, para além das medições de faturamento, há toda uma rede de conexões estabelecidas ao estar em um evento de grande porte. "Há exposição dos nossos artistas ao longo do ano, vai gerando conexão com colecionadores que acabam virando clientes", elucida o galerista.
O primeiro dia de feira, conforme explica Max Perlingeiro - que, em Fortaleza, mantém a Galeria Multiarte na Aldeota - é o ápice da comercialização e da mobilização de colecionadores. No evento, ele chega com a marca Pinakotheke, que traduz participação de Rio de Janeiro, de São Paulo e de Fortaleza. No conjunto exposto, feito a partir de curadoria, um recorte da arte brasileira - englobando obras de Antonio Badeira e Lygia Clark. "A velha e boa arte resistiu e vai resistir para sempre. Nos anos 1970 e 1980, as pessoas diziam que a pintura iria acabar. E a pintura está aí até hoje. Ninguém resiste a uma boa pintura, um bom desenho ou uma boa escultura", pontua Max.
*A jornalista viajou a convite do evento.