Uma sabedoria transmitida por gerações. Na cultura indígena, mais que uma necessidade de sobrevivência básica, é isso que está por trás da alimentação. "Não é um alimento que a gente encontra em qualquer mercearia, em qualquer comércio da cidade grande", afirma a secretária dos Povos Indígenas, Juliana Alves.
Procurada por Mateus Tremembé, jovem liderança indígena e pesquisador da cultura alimentar do seu povo, a Secretaria dos Povos Indígenas do Ceará (Sepince) se uniu ao Mercado Alimenta CE para realizar um evento de celebração à cultura alimentar indígena. No próximo sábado, 19, o pedido de jovens indígenas cearenses, representados por Mateus Tremembé, se concretiza com o Mbur Tapi'oka - Festival de Cultura Alimentar Indígena.
Galinha caipira, bolo de macaxeira, tapiocas e doce de jerimum são alguns dos itens da exposição. Eles são comuns ao nosso cotidiano, afinal, a base da cozinha brasileira tem influência indígena. O segredo está no preparo e na relação que esses povos têm com a produção e comercialização do alimento.
"Mbur" é uma palavra que vem do Guarani e remete ao sagrado. "Tapi'oka" representa a própria base alimentar, o derivado da mandioca que é símbolo de sustento e partilha. De acordo com o Mercado Alimenta CE, a junção das duas palavras comunica a ideia de liderança ancestral e alimento sagrado.
Juliana Alves, a secretária dos Povos Indígenas e Cacika do povo Jenipapo-Kanindé, relembra os tempos em que os pescadores do seu território pegavam mais de 30 quilos de peixe na Lagoa da Encantada, "sempre com uma reverência muito grande a quem é dono das águas, por exemplo a Mãe d'Água, que é da água doce". Ela ressalta o pedido de permissão às águas e à mata antes da pesca e da caça na relação de reverência e cuidado dos povos indígenas com os alimentos.
Um dos expositores do Festival de Cultura Alimentar Indígena é Ezequiel Nascimento, da Barra do Mundaú, em Itapipoca. Os Tremembé da Barra do Mundaú, um entre os 15 povos do Ceará presentes no evento, vão levar à exposição um risoto de camarão preparado por Dona Dica, como é conhecida a também indígena tremembé Raimunda Vidal dos Santos.
De acordo com Ezequiel, a diferença entre esse risoto e aquele que nós podemos encontrar em qualquer restaurante por aí é o uso do coco natural de raspagem, que confere um sabor diferente ao prato, e o refogado é feito somente com as verduras, sem óleo. Eles costumam fazer assim: descascar o coco e refogar com verduras e legumes. Depois, acrescentar o camarão e o óleo de coco, deixando o risoto com uma úmido.
Para Marina Araujo, gestora do Mercado Alimenta CE e chef de cozinha, a "noção sagrada do alimento" é a principal contribuição que a cultura alimentar indígena pode trazer para os centros urbanos. Segundo ela, essa cultura é uma expressão tipicamente brasileira, permeada pela vivência, pela troca entre gerações e pelas características do ambiente. E ela fala isso com base em uma pesquisa que o equipamento começou há quase dois anos.
O festival é um evento de culminância desse período de visitas e trocas feitas com comunidades e lideranças indígenas em seus territórios. A primeira edição do Festival de Cultura Alimentar Indígena Cearense também marca a aproximação do Mercado Alimenta CE, equipamento gerido pelo Instituto Mirante, com a Secretaria dos Povos Indígenas.
"Nosso orçamento é muito minúsculo diante das necessidades que esses povos têm", diz Juliana Alves, a secretária da Sepince e cacika do povo Jenipapo-Kanindé. Frente a esse cenário, ela pontua a importância de haver uma parceria com o Mercado Alimenta CE e com outros equipamentos do Estado para promover ações relacionadas aos povos indígenas cearenses.
Com vistas à produção de um livro e uma exposição fotográfica, a pesquisa teve início em 2023, com dois territórios indígenas cearenses, conforme a secretária da Sepince. Em 2024, o equipamento começou a se articular com a Pasta para contemplar mais territórios dentro do Ceará. "A presença da cultura alimentar é muito viva diariamente dentro dos territórios indígenas", diz Juliana Alves.
Nesse processo de estender a busca, Mateus Tremembé e outros jovens indígenas ativos na cultura alimentar entraram em cena para pedir o apoio da Sepince e do Mercado Alimenta CE em um festival de gastronomia indígena realizado por eles, que ocorreu no município de Crato. Dessa vez, o festival é organizado pela primeira vez pelo próprio Mercado Alimenta CE e pelo Governo do Estado.
Ezequiel Nascimento que, além de expositor do evento, é secretário do Conselho Indígena Tremembé de Itapipoca, conta que o evento pode possibilitar reconhecimento à importância da cultura alimentar dos povos e visibilidade em nível estadual. Para ele, a iniciativa é uma chancela do Governo do Estado e dos parceiros à "gastronomia da cultura alimentar indígena como uma forma sustentável e de renda econômica, até porque o espaço também é para a comercialização".
"Cada território indígena, cada etnia indígena tem um modo de vida, um modo de produção, um modo de fazer cultura alimentar diferente, de acordo com a sua região, seja na praia, na serra ou no sertão", enfatiza Ezequiel. Nesse sentido, Juliana Alves também destaca o evento como uma forma de "reeducar a sociedade cearense no que diz respeito ao olhar para esses povos".
Além da feira gastronômica, a exposição também conta com artesanatos e iguarias produzidas em cada um dos territórios. Representando o povo Tremembé da Barra do Mundaú, Ezequiel Nascimento estará no evento levando óleo de batiputá, cocada, ovos caipira, colorau, pamonha e pé de moleque.
A programação, que começa às 14 horas e se estende até a noite, começa com rodas de conversa e segue com feiras gastronômicas, de empórios e agroecológicas. As apresentações culturais acontecem a partir de 18h30min, com os rituais Toró e Toré e Coco Anacé, e finaliza com os shows de forró de Marcelo Di Holanda e Mateus Farias. A exposição "Amí - Alimento e memória dos povos indígenas do Ceará", do coletivo Lab Cinema Lutas, também estreia no dia 19, no Mercado Alimenta CE.
Mbur Tapi'oka - Festival de Cultura Alimentar Indígena