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Fenearte: artesãos usam material reciclável para produzir obras de arte
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Fenearte: artesãos usam material reciclável para produzir obras de arte

Conheça outros artesãos que trabalham com reaproveitamento de material reciclável para produzir obras de arte
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A marca Refazenda trabalha diretamente com sustentabilidade e produz peças a partir de retalhos e materiais reciclados. A marca foi criada por Magna Coeli há 35 anos.
A marca Refazenda trabalha diretamente com sustentabilidade e produz peças a partir de retalhos e materiais reciclados. A marca foi criada por Magna Coeli há 35 anos.

Refazenda

"A gente acredita em quem se preocupa com o mundo. Em que faz agora para as gerações futuras", assim começa o manifesto da marca de moda autoral Refazenda, criada por Magna Coeli há 35 anos.

Refazenda carrega o "DNA de sustentabilidade" e nasceu com a proposta de mudar a "moda e mundo", promovendo transformações de consumo. "Tudo o que hoje se fala sobre sustentabilidade e ecologia já era um anseio muito presente em mim lá atrás", contextualiza Magna.

A modista é filha de um alfaiate com uma costureira e nasceu na Paraíba, mas já mora há 50 anos em Pernambuco, onde a marca é consolidada: "Essa ideia de reciclar e aumentar a longevidade dos produtos é muito forte no nosso trabalho. Em 2018, inclusive, participamos do relatório mundial do meio ambiente da ONU, que reconheceu a nossa marca como uma das mais longevas".

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"Existe uma diferença grande entre um produto desejável e um 'produto coitadinho'. O 'produto coitadinho' resolve a questão ambiental, mas não desperta desejo. A nossa proposta é fazer algo que gere desejo e que consiga competir com os produtos mais sofisticados — e mais poluentes — do mercado", destaca Magna, que afirma produzir praticamente zero lixo com a sua marca, ao aproveitar desde seus próprios retalhos até materiais que serão descartados.

Ela acrescenta: "usamos resíduos da construção civil, restos de persiana, canudos… Aliás, o canudo já é um vilão há muito tempo, e a gente já solucionou a questão do ciclo dele. E o melhor: fabricamos produtos com longevidade, que podem durar mais de 35 anos. Queremos continuar contando essa história até os 70, fazendo diferente".

Sobre sua produção primária, que antecede os retalhos e suposto lixo, ela conta que trabalha somente com materiais que consegue se certificar da origem. "Quando produzimos uma peça, temos em mente que no Brasil não existe fornecimento de matéria-prima com origem certificada. No mundo, isso ainda é raro. Então, trabalhamos com tecidos de fibra natural e com origem rastreável — sempre com nota fiscal, sabemos de onde vem e como foi fabricado", relata.

"Quando esse material chega até nós, temos a obrigação de não gerar lixo. Essa é a nossa missão. Produzimos em pequena escala, mas com o compromisso de que aquilo não vai virar resíduo. E se virar, vamos dar um destino, pois o resíduo é, acima de tudo, uma questão de design. Às vezes, resolver o que fazer com o resíduo é mais importante do que fabricar roupa", agrega a modista, que se orgulha do resultado que apresentou na 25ª edição da Feira Nacional de Negócios de Artesanato (Fenearte).

"O mais interessante é que, muitas vezes, os produtos que nascem da solução do resíduo são mais valiosos do que as próprias roupas. É o caso dessa linha que estamos mostrando aqui — toda ela vem de um processo de redesign", finaliza.

Peças da marca
Peças da marca "Treli" são feitas com material biodegradáveis

Treli

Érika Andrade é a pessoa por trás da Treli, marca autoral de acessórios sustentáveis que participou da Fenearte deste ano com o espaço do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sabrae).

Treli nasceu em 2021 com a proposta de criar acessórios que expressam arte e tecnologia, com matéria-prima biodegradável. Os brincos e colares são produzidos com uma impressora 3D e material de reciclagem, upcycling ou de filamento de P.L.A. (ácido polilático, produzido a partir de fontes naturais como milho, cana-de-açúcar e café).

"Antes da Treli, eu trabalhava com ouro e prata. Mas algo que sempre me incomodou foi não saber a procedência desses materiais. Além disso, desde minha formação em arquitetura, eu sempre trabalhei muito com o digital — desenhava à mão, passava para o computador para ajustar proporções — e havia peças que eu não conseguia executar manualmente. Foi aí que comecei a estudar impressão 3D voltada para joalheria", apresenta Érika.

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Ela continua: "durante esse processo, conheci o PLA e fiquei encantada por ele ser biodegradável. É um material que, se colocado na compostagem, se decompõe em cerca de 30 a 60 dias. Isso me agradou muito, primeiro pela questão ambiental e, depois, pela possibilidade de produzir peças que eu não conseguia fazer manualmente. Desde então, a marca tem esse DNA sustentável. Utilizamos somente recursos ecológicos". Na Treli, as embalagens também são feitas com materiais reciclados.

As obras do mestre Getúlio Damado são produzidas inteiramente a partir de materiais recicláveis. O trêm de Santa Teresa é um importante símbolo para a arte do mestre da cultura.
As obras do mestre Getúlio Damado são produzidas inteiramente a partir de materiais recicláveis. O trêm de Santa Teresa é um importante símbolo para a arte do mestre da cultura.

Chamego Bonzolandia

Nascido na cidade de Espera Feliz, Minas Gerais, Getúlio Damado é mestre da cultura no Rio de Janeiro, onde está seu ateliê "Chamego Bonzolandia" e estampa o lema "O amor é lindo e é de graça". E é com a paixão que tem pelo artesanato que ele trabalha diretamente com materiais tidos como lixo na sociedade.

"Trabalho com tudo aquilo que as pessoas jogam fora: frascos de desodorante, embalagens de água sanitária, de produtos de limpeza, tudo que possa imaginar. O importante é que o material aceite prego ou cola. Se der para fixar, eu aproveito", resume Getúlio, que fazia suas obras ao vivo durante a entrevista.

Seu filho e companheiro de produção, Victor, brinca sobre a necessidade criativa do mestre: "esse artista tem 40 anos de profissão oficialmente e dá para contar nos dedos quantas vezes ele parou de bater o martelo. Aqui na Fenearte, ele já tinha ficado três dias e meio sem produzir nada, mas começou a entrar em abstinência, ficar estressado. Ele precisou criar, bater o martelo, fazer arte".

O ateliê Chamego Bonzolandia fica localizado no bairro Santa Teresa, em Rio de Janeiro, onde o público pode acessar facilmente a produção e resultado do trabalho de Getúlio e seu filho. O local está diretamente relacionado com a razão pela qual começou a criar peças de artesanatos.

"O bonde de Santa Teresa tem um valor afetivo muito grande para mim. Quando cheguei ao Rio de Janeiro, em 1970, e conheci Santa Teresa, tudo mudou. Toda vez que eu arrumava uma namoradinha, o primeiro passeio era de bonde. Isso ficou muito marcado na minha memória. Antes de ter um ateliê em Santa Teresa, eu tinha uma oficina de funilaria. E aí, num momento de pausa, lendo jornal, vi o bonde passar e pensei: 'Vou fazer um bonde para deixar no meu ateliê'. Era para ser só isso, mas virou um sucesso. Deu um samba danado… e tô sambando até hoje", narra o mestre, com emoção.

Com identidade visual marcada por um coração vermelho, Chamego Bonzolandia também explora a natureza como tema de suas obras. "Sou um defensor da natureza por meio do meu trabalho. Falo de ecologia, meio ambiente e hoje me dedico a isso", complementa.

  • Onde: R. Leopoldo Fróes, 15 - Santa Teresa, Rio de Janeiro - RJ
  • Mais informações e encomendas: @bonzolandia_damado
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