Refazenda
"A gente acredita em quem se preocupa com o mundo. Em que faz agora para as gerações futuras", assim começa o manifesto da marca de moda autoral Refazenda, criada por Magna Coeli há 35 anos.
Refazenda carrega o "DNA de sustentabilidade" e nasceu com a proposta de mudar a "moda e mundo", promovendo transformações de consumo. "Tudo o que hoje se fala sobre sustentabilidade e ecologia já era um anseio muito presente em mim lá atrás", contextualiza Magna.
A modista é filha de um alfaiate com uma costureira e nasceu na Paraíba, mas já mora há 50 anos em Pernambuco, onde a marca é consolidada: "Essa ideia de reciclar e aumentar a longevidade dos produtos é muito forte no nosso trabalho. Em 2018, inclusive, participamos do relatório mundial do meio ambiente da ONU, que reconheceu a nossa marca como uma das mais longevas".
(Foto: Felipe Eugenio)A marca Refazenda trabalha diretamente com sustentabilidade e produz peças a partir de retalhos e materiais reciclados. A marca foi criada por Magna Coeli há 35 anos.
"Existe uma diferença grande entre um produto desejável e um 'produto coitadinho'. O 'produto coitadinho' resolve a questão ambiental, mas não desperta desejo. A nossa proposta é fazer algo que gere desejo e que consiga competir com os produtos mais sofisticados — e mais poluentes — do mercado", destaca Magna, que afirma produzir praticamente zero lixo com a sua marca, ao aproveitar desde seus próprios retalhos até materiais que serão descartados.
Ela acrescenta: "usamos resíduos da construção civil, restos de persiana, canudos… Aliás, o canudo já é um vilão há muito tempo, e a gente já solucionou a questão do ciclo dele. E o melhor: fabricamos produtos com longevidade, que podem durar mais de 35 anos. Queremos continuar contando essa história até os 70, fazendo diferente".
Sobre sua produção primária, que antecede os retalhos e suposto lixo, ela conta que trabalha somente com materiais que consegue se certificar da origem. "Quando produzimos uma peça, temos em mente que no Brasil não existe fornecimento de matéria-prima com origem certificada. No mundo, isso ainda é raro. Então, trabalhamos com tecidos de fibra natural e com origem rastreável — sempre com nota fiscal, sabemos de onde vem e como foi fabricado", relata.
"Quando esse material chega até nós, temos a obrigação de não gerar lixo. Essa é a nossa missão. Produzimos em pequena escala, mas com o compromisso de que aquilo não vai virar resíduo. E se virar, vamos dar um destino, pois o resíduo é, acima de tudo, uma questão de design. Às vezes, resolver o que fazer com o resíduo é mais importante do que fabricar roupa", agrega a modista, que se orgulha do resultado que apresentou na 25ª edição da Feira Nacional de Negócios de Artesanato (Fenearte).
"O mais interessante é que, muitas vezes, os produtos que nascem da solução do resíduo são mais valiosos do que as próprias roupas. É o caso dessa linha que estamos mostrando aqui — toda ela vem de um processo de redesign", finaliza.
Treli
Érika Andrade é a pessoa por trás da Treli, marca autoral de acessórios sustentáveis que participou da Fenearte deste ano com o espaço do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sabrae).
Treli nasceu em 2021 com a proposta de criar acessórios que expressam arte e tecnologia, com matéria-prima biodegradável. Os brincos e colares são produzidos com uma impressora 3D e material de reciclagem, upcycling ou de filamento de P.L.A. (ácido polilático, produzido a partir de fontes naturais como milho, cana-de-açúcar e café).
"Antes da Treli, eu trabalhava com ouro e prata. Mas algo que sempre me incomodou foi não saber a procedência desses materiais. Além disso, desde minha formação em arquitetura, eu sempre trabalhei muito com o digital — desenhava à mão, passava para o computador para ajustar proporções — e havia peças que eu não conseguia executar manualmente. Foi aí que comecei a estudar impressão 3D voltada para joalheria", apresenta Érika.
Ela continua: "durante esse processo, conheci o PLA e fiquei encantada por ele ser biodegradável. É um material que, se colocado na compostagem, se decompõe em cerca de 30 a 60 dias. Isso me agradou muito, primeiro pela questão ambiental e, depois, pela possibilidade de produzir peças que eu não conseguia fazer manualmente. Desde então, a marca tem esse DNA sustentável. Utilizamos somente recursos ecológicos". Na Treli, as embalagens também são feitas com materiais reciclados.
Chamego Bonzolandia
Nascido na cidade de Espera Feliz, Minas Gerais, Getúlio Damado é mestre da cultura no Rio de Janeiro, onde está seu ateliê "Chamego Bonzolandia" e estampa o lema "O amor é lindo e é de graça". E é com a paixão que tem pelo artesanato que ele trabalha diretamente com materiais tidos como lixo na sociedade.
"Trabalho com tudo aquilo que as pessoas jogam fora: frascos de desodorante, embalagens de água sanitária, de produtos de limpeza, tudo que possa imaginar. O importante é que o material aceite prego ou cola. Se der para fixar, eu aproveito", resume Getúlio, que fazia suas obras ao vivo durante a entrevista.
Seu filho e companheiro de produção, Victor, brinca sobre a necessidade criativa do mestre: "esse artista tem 40 anos de profissão oficialmente e dá para contar nos dedos quantas vezes ele parou de bater o martelo. Aqui na Fenearte, ele já tinha ficado três dias e meio sem produzir nada, mas começou a entrar em abstinência, ficar estressado. Ele precisou criar, bater o martelo, fazer arte".
O ateliê Chamego Bonzolandia fica localizado no bairro Santa Teresa, em Rio de Janeiro, onde o público pode acessar facilmente a produção e resultado do trabalho de Getúlio e seu filho. O local está diretamente relacionado com a razão pela qual começou a criar peças de artesanatos.
"O bonde de Santa Teresa tem um valor afetivo muito grande para mim. Quando cheguei ao Rio de Janeiro, em 1970, e conheci Santa Teresa, tudo mudou. Toda vez que eu arrumava uma namoradinha, o primeiro passeio era de bonde. Isso ficou muito marcado na minha memória. Antes de ter um ateliê em Santa Teresa, eu tinha uma oficina de funilaria. E aí, num momento de pausa, lendo jornal, vi o bonde passar e pensei: 'Vou fazer um bonde para deixar no meu ateliê'. Era para ser só isso, mas virou um sucesso. Deu um samba danado… e tô sambando até hoje", narra o mestre, com emoção.
Com identidade visual marcada por um coração vermelho, Chamego Bonzolandia também explora a natureza como tema de suas obras. "Sou um defensor da natureza por meio do meu trabalho. Falo de ecologia, meio ambiente e hoje me dedico a isso", complementa.