Aviso: o texto abaixo antecipa fatos importantes da narrativa do filme "A melhor mãe do mundo". São descritas cenas de violência psicológica, sexual e patrimonial.
Qual é a melhor mãe do mundo? Diante de tantas candidatas eleitas pelos seus próprios filhos, parece impossível eleger somente uma pessoa. O que se aprende com o novo filme de Anna Muylaert é que "A Melhor Mãe do Mundo" é aquela que faz o seu melhor (quase) todo dia.
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No longa, conhecemos Gal (Shirley Cruz), uma mulher que trabalha como catadora de materiais recicláveis, possui dois filhos e um marido abusivo. É possível ver na protagonista uma figura que enfrenta a própria condição social para sobreviver diariamente.
A saga começa na delegacia, quando, pela primeira vez, ela decide denunciar a violência doméstica que sofre. A delegada (Katiuscia Canoro) pede que Gal confirme - "não terá mais volta" - e ela concorda, assim começa a nova jornada de sua vida, a "aventura".
Ela busca por sua filha Rihanna e pelo caçula Benin na casa de Leandro (Seu Jorge), o marido. Junto a eles, a protagonista promete embarcar em uma aventura, com acampamento, passeio e até comidas de restaurante. O pequeno fica entusiasmado, mas a mais velha desconfia.
A intenção é alcançar, por meio de sua carroça, a cidade vizinha, onde passaria um tempo na casa da prima (Luedji Luna). Até chegar lá, no entanto, manter a fantasia da aventura se torna cada vez mais difícil: catar latinhas vira desafio de irmãos, comer quentinha doada se torna almoço especial e tomar banho na fonte de rua se transforma em um mergulho divertido.
Muitas cenas de "A Melhor Mãe do Mundo" causam um nó na garganta logo no começo, sensação esta que vira um embaralho de sentimentos ao perceber como Gal irá revertê-los. Há, pela metade do filme, uma situação em que os filhos reclamam de fome para a catadora, fazendo com que a mãe furte um biscoito recheado do mercado para alimentá-los.
"Eu quero um almoço de verdade", diz Rihanna, respondida pelo irmão: "Nossa, você não se contenta com nada". Gal defende que aquele é o lanche favorito deles e que ela está realizando um desejo dos filhos.
Durante todo o longa-metragem, cachorros "vira-latas" são retratados como elementos da paisagem, uma alegoria à marginalização sofrida por Gal e seus filhos durante a "aventura nas ruas". Tratados como verdadeiros "humanos de rua", a protagonista frequentemente tem sua dignidade ferida, sendo humilhada no seu trabalho e por "amigos" que sugerem favores sexuais em troca de ajuda financeira.
Ao chegar na casa da prima Valdete, ela reconhece um cenário familiar: uma mulher envolvida em um relacionamento abusivo, com um único provedor: o homem. Como amiga, Val tenta aconselhar a protagonista e a sugere aguentar a violência física e moral de Leandro para ter "um teto para morar". A catadora, no entanto, defende que essa não precisa ser a sua realidade.
Ainda assim, o filme é repleto de esperança, representado simbolicamente pelo time do Corinthians. No desespero, o amor dos filhos torcedores é como uma almofada na queda. Durante a fuga, a promessa de levar os filhos para o jogo do "timão" é o sustento emocional. E, quando tudo dá errado, é exatamente assistir a uma partida do time que enche o coração de novos cenários.
Na trama, Gal é negativamente surpreendida com a chegada de Leandro ao seu "refúgio". Assim, parece que o ciclo terá um reinício, pois a protagonista cai nas promessas de mudança do marido, que logo aproveita-se da situação para abusá-la, se embriaga e trata-a violentamente.
O sofrimento da catadora é reprimido por ela mesma, que tenta seguir em frente para não transmitir a dor aos filhos. Mas, quando ela ouve um comentário de Leandro acerca da puberdade da filha, Gal toma consciência de que precisaria fazer o que sua mãe não fez: romper o ciclo de violência.
Assim, a protagonista toma seu ato de maior coragem: ela vai embora novamente, mas, desta vez, sem saber qual o seu destino. Com a carroça quebrada e sem ter como carregar os filhos, ela desmorona. "Você não é assim", a filha diz. "E como eu sou", pergunta Gal.
Com medo do futuro, ela decide seguir primeiro o que já nasceu como o respiro de alívio do filme: o Corinthians. Gal pede uma carona e chega até o estádio do "timão" com os filhos, simbolizando uma retomada à esperança. Depois, ela decide se abrigar em uma ocupação de um prédio abandonado, local que acessa convidada por uma amiga que fez nas ruas. O lugar é mobiliado, preservado e dispõe de comida para os moradores ainda sem renda.
O filme surpreende pela facilidade de criar um "final feliz" em meio ao momento mais desesperador da vida daquela família. Mas, como já disse a novelista Glória Perez, "pobre de quem não sabe voar" — o longa nasce com uma esperança e dificilmente deixaria em aberto a possibilidade de um alívio no peito. Às vezes, é preciso acreditar.
A Melhor Mãe do Mundo
Quando:
quinta-feira, 7 de agosto
Salas e horários:
Ingresso.com