Quando olhamos para alguém, vemos a pessoa ou o reflexo dos nossos próprios padrões? Essa pergunta abre caminho para a experiência proposta em "Avatara", exposição do fotógrafo francês Denis Rouvre em cartaz no Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS) até 11 de novembro.
São 20 retratos expostos no Anexo e uma projeção audiovisual na Sala Imersiva, onde depoimentos em vídeo ampliam a experiência do público.
O corpo, tradicionalmente moldado por expectativas sociais, aparece aqui como manifesto. Nas imagens, pessoas que fizeram modificações extremas — bifurcação lingual, implantes, tatuagens nos olhos e no rosto, remoções — não como excentricidade, mas como afirmação radical de identidade.
"Essas pessoas se lançam numa aventura sem retorno. Para mim, 'Avatara' fala de morrer para renascer, de se obrigar a se reinventar", afirma Rouvre, conhecido mundialmente por seus retratos em fundo preto.
Para o fotógrafo, o projeto nasce do desejo de se aproximar de quem desafia o que é considerado aceitável. "Sempre busquei aqueles que vivem à margem, que inventam seus próprios meios de existir. Chamo-os de heróis contemporâneos, porque são eles que nos levam a novos territórios de reflexão", explica.
Ao longo das sessões, além do registro visual, Rouvre colheu relatos que, segundo ele, sustentam as imagens. "A fotografia vem apoiar a palavra, e não o contrário. O mais importante é a narrativa, porque é ali que a emoção se revela", determina.
Existência Urgente
A curadoria, conduzida por Bruno Ko, enfatiza essa combinação entre choque e contemplação.
"Além de ver, o público também pode 'escutar' essas pessoas. Inserimos frases pelo espaço expositivo que falam de alegria, pertencimento e satisfação com o próprio corpo", conta o curador da exposição.
A intenção é mostrar que, para quem é retratado, não se trata de transgressão, mas de beleza e autenticidade.
Distribuída em diferentes espaços do MIS, a exposição também inclui um documentário de 50 minutos no Cineminha, aprofundando as histórias de cada personagem.
Para o curador, a proposta é expandir o olhar sobre o que entendemos por diferença. "Avatara não fala apenas de modificação corporal, mas de nossa capacidade de aceitar o outro. A sociedade sempre tende a julgar aquilo que foge do padrão. Aqui, o convite é para desenvolver uma postura mais aberta e receptiva", explica Bruno Ko.
Entre os retratados, nomes como Orc Infernall, Diabon Praddo, Mystica e Rabisco marcaram de forma especial o fotógrafo.
"Esses encontros foram essenciais porque eles compartilharam sua intimidade comigo. A intimidade é o que nos permite crescer, compreender e até alcançar uma certa sabedoria diante da morte", diz Rouvre.
A provocação central da mostra é inverter o jogo do olhar. Os retratos encaram o visitante e devolvem a pergunta: quem é, afinal, observado? "Não se trata de pedir compaixão ou entendimento, mas de dar ao público a liberdade de refletir sobre seus próprios limites de aceitação", explica Bruno Ko.
Com carreira reconhecida internacionalmente, premiado por instituições como o World Press Photo e o Sony World Photography, Denis Rouvre se distancia de seu trabalho com celebridades para mergulhar em territórios humanos menos visíveis.
"Fotografar famosos foi um laboratório. Mas foi em Avatara que encontrei uma liberdade maior. Essas pessoas não carregam a expectativa do público, elas carregam a urgência de existir", afirma.
No fim, a mensagem é direta: parar de olhar para os outros para aprender a olhar para si.
"Acredito que a diferença cria riqueza. Ser diferente exige resistência, mas também nos dá multiplicidade. O recado de Avatara é simples: tentem ser vocês mesmos e reconheçam o outro pelo que ele é. Se aceitarmos quem está fora do modelo social, estaremos mais próximos de aceitar todas as outras formas de vida", resume Rouvre.
Exposição Avatara