"Nada, senão o instante, me conhece/ Minha mesma lembrança é nada, e sinto/ Que quem sou e quem fui/ São sonhos diferentes". As anotações traduzem o tom nostálgico e questionador de um homem formado em Medicina, nascido às 16h5min de 19 de setembro de 1887, na cidade do Porto, em Portugal. A criação em colégio jesuíta possibilitou formação clássica, com entendimento do latim e do grego, num estudo - e forma de viver - pautado na disciplina. O porte físico na fase adulta denunciava uma pessoa magra, de estatura média, com postura curvada, moreno e sem barba. A aparência era condizente com o modo de enxergar a vida: sem muito espaço para aquilo que foge do possível.
INSTAGRAM | Confira noticias, críticas e outros conteúdos no @vidaearteopovo
O nascimento, entretanto, é apenas uma das datas relevantes na história. Sob a alcunha de Ricardo Reis, a figura foi a primeira personalidade a se revelar para o criador, o escritor português Fernando Pessoa (1888 - 1935), embora não tenha sido o primeiro heterônimo (ver mais informações no quadro ao lado) escrito: "Nasceu dentro da minha alma no dia 29 de janeiro de 1912, pelas 11 horas da noite", disse em carta destinada a Adolfo Casais Monteiro em 1935. A atividade na poesia viria iniciar somente em 1924, na revista Athena, após mais de três décadas de existência.
Esta produção literária ganha novo desdobramento em 2025, ano em que a morte de Pessoa completa 90 anos neste domingo, 30. A efeméride é celebrada com a publicação de textos inéditos no livro "Obra completa de Ricardo Reis", divulgada pela Tinta-da-China Brasil. Editado por Jerónimo Pizarro e Jorge Uribe, o livro traz, pela primeira vez, toda a poesia e prosa do ensaísta.
"A edição nasce de uma convicção que me acompanha há muitos anos: a de que os heterônimos de Pessoa ainda não foram verdadeiramente editados de forma sistemática, crítica e filológica", explica Jerónimo, também professor, crítico e tradutor. O colombiano, responsável por mais de 30 títulos de e sobre Fernando Pessoa, revela que sempre foi fascinado pelo contraste entre a "aparente serenidade clássica" da voz de Ricardo e a realidade transposta nos papéis, textos que derrubam o que chama de "perenidade estoica" e revelam sentimentos comuns como hesitações e medos. "Trabalhar Reis é confrontar o mito da estabilidade com o laboratório vivo da escrita pessoana - e esse desafio foi decisivo para avançar com esta edição".
O volume é lançado com o que o editor define como três princípios: integridade, transparência editorial e legibilidade, em material que possa ser acessível ao público de língua portuguesa e permaneça fiel aos arquivos originais. Para alcançar o objetivo, foram necessários anos de reexame de materiais que vão desde manuscritos quase ilegíveis, escritos a lápis, até datiloscritos corrigidos pelo próprio autor. "Com Jorge Uribe, reconstituímos cronologias possíveis, identificamos versões alternativas e montamos um corpus que permitisse integrar textos acabados, esboços e fragmentos", detalha.
Os documentos, parcialmente cedidos ao O POVO e ilustrados nas páginas, confidenciam que Ricardo tem um íntimo mais maleável do que era presumido. Como o mais próximo do inventor, guarda a ponderação existencial e segue com certa racionalização dos sentimentos. Mas a obra completa o apresenta "muito mais desassossegado e até mais contraditório", conforme designa Pizarro. Também compartilha descoberta acerca da construção estilística do heterônimo, comprovando que a evolução é formada de maneira progressiva. O livro, imerso na sagacidade do monarquista exilado voluntariamente no Brasil, mostra a personalidade de forma "mais humana, menos monolítico e mais participante do drama pessoano".
A organização das odes, além dos textos filosóficos e críticos, subverteu até a percepção de um dos principais estudiosos da obra pessoana. "Eu próprio tinha uma imagem muito 'clássica' de Reis, talvez influenciado pela tradição crítica que o vê como o mais disciplinado dos heterônimos. Hoje vejo-o como um dos mais artificiosos", opina Jerónimo. "Reis não é o poeta da imobilidade; é o poeta da busca por uma imobilidade possível. Essa mudança levou-me também a relativizar a dicotomia entre ‘vida’ e ‘obra’: Reis vive sobretudo nos papéis inacabados, nas margens, nos rabiscos. E essa precariedade, afinal, é o que o torna um dos heterônimos mais intrigantes".
O POVO - Dentro da sua pesquisa sobre Fernando Pessoa, o que lhe motivou a mergulhar na obra completa do heterônimo Ricardo Reis nesta nova publicação?
Jerónimo Pizarro - A edição da Obra Completa de Ricardo Reis nasce de uma convicção que me acompanha há muitos anos: a de que os heterónimos de Pessoa ainda não foram verdadeiramente editados de forma sistemática, crítica e filológica. A obra de Reis, em particular, dispersa em manuscritos, datiloscritos, jornais e cadernos, precisava urgentemente de uma visão de conjunto que permitisse perceber melhor o heterónimo. Além disso, sempre me fascinou o contraste entre a aparente serenidade clássica da sua voz e a realidade material dos papéis, que revelam hesitações, variantes e dúvidas que desmentem a ideia de uma “perenidade estoica” incontaminada. Trabalhar Reis é confrontar o mito da estabilidade com o laboratório vivo da escrita pessoana – e esse desafio foi decisivo para avançar com esta edição.
OP - Gostaria que você explicasse um pouco mais sobre o processo para compilar a obra de Ricardo Reis. De que maneira foi feita a pesquisa e como você, ao lado de Jorge Uribe, decidiram os critérios de seleção para o produto final?
Jerónimo - O processo exigiu vários anos de trabalho filológico e de reexame de materiais do espólio pessoano – desde manuscritos quase ilegíveis, muitas vezes escritos a lápis, até datiloscritos corrigidos pelo próprio Pessoa. Com Jorge Uribe, reconstituímos cronologias possíveis, identificámos versões alternativas e montámos um corpus que permitisse integrar textos acabados, esboços e fragmentos. Os critérios de seleção assentaram em três princípios: integridade – reunir tudo o que possa ser atribuído com segurança ao heterónimo; transparência editorial – indicar as variantes relevantes e aqueles elementos decisivos para compreender o processo de escrita; e legibilidade – apresentar uma obra completa que seja, ao mesmo tempo, fiel ao arquivo e acessível ao público de língua portuguesa.
OP - Como a publicação de "Obra Completa de Ricardo Reis" modifica as informações que existiam sobre o heterônimo? Quais são as principais descobertas sobre ele?
Jerónimo - A principal mudança é que finalmente dispomos de um mapa completo da produção de Reis. Descobrimos, por exemplo, que a imagem do poeta “olímpico” e sempre igual a si mesmo não resiste à análise dos manuscritos. Há um Reis muito mais desassossegado e até mais contraditório do que se supunha. Outra descoberta importante é a evolução estilística que antes ficava oculta: Reis não nasce pronto; ele vai-se construindo progressivamente. Também recuperámos poemas que estavam esquecidos ou mal atribuídos, e reorganizámos um conjunto de textos em prosa que permitem compreender melhor a sua visão política e moral. Esta edição mostra um Reis mais humano, menos monolítico e mais participante do drama pessoano.
OP - O livro aprofunda a relação de Ricardo com o Brasil? Se sim, de qual forma?
Jerónimo - Sim, e de forma mais intensa do que se pensava. Pessoa projetava para Reis uma espécie de “destino brasileiro”: é possível acompanhar nos papéis a ideia de que o heterónimo poderia ter emigrado para o Brasil e ali continuado a sua vida discreta de médico e moralista. Há apontamentos, esboços biográficos e até uma referência geográfica que sugerem esse deslocamento imaginário. Além disso, a circulação de poemas ricardianos no Brasil ao longo do século XX teve um peso enorme na recepção do heterónimo. A edição recupera documentos que mostram como a crítica brasileira foi decisiva para consolidar a figura de Reis como poeta clássico moderno. Assim, o Brasil é tanto um cenário biográfico imaginado quanto um espaço real de leitura e interpretação.
OP - O que as pesquisas dos heterônimos continuam a revelar sobre Fernando Pessoa?
Jerónimo - Revelam sobretudo que Fernando Pessoa é um autor em permanente construção e reescrita. Cada heterónimo obriga-nos a repensar o que entendemos por “autor” e por “obra”. Reis, como Caeiro ou Campos, é uma peça de um sistema identitário que não se fecha. Quanto mais estudamos os heterónimos, mais percebemos que uma genialidade de Pessoa reside na capacidade de criar consciências literárias autónomas. A pesquisa mostra também que o arquivo é um espaço vivo: sempre que revisito os papéis pessoanos encontro algo que muda uma teoria ou ilumina uma hipótese antiga. Pessoa continua a ser inesgotável (entre outros motivos) porque escreveu de forma fragmentária, ensaiando versões sobre versões.
OP - Como a pesquisa mudou sua própria concepção do heterônimo Ricardo Reis?
Jerónimo - Eu próprio tinha uma imagem muito “clássica” de Reis, talvez influenciado pela tradição crítica que o vê como o mais disciplinado dos heterónimos. Hoje vejo-o como um dos mais artificiosos. O aparente equilíbrio dos poemas é fruto de um labor intenso, cheio de rasuras, tentativas e reformulações. Reis não é o poeta da imobilidade; é o poeta da busca por uma imobilidade impossível. Essa mudança levou-me também a relativizar a dicotomia entre “vida” e “obra”: Reis vive sobretudo nos papéis inacabados, nas margens, nos rabiscos. E essa precariedade é, afinal, o que o torna um dos heterónimos mais intrigantes.
OP - Você é um dos principais nomes à frente de novas publicações – especialmente críticas – de Fernando Pessoa. Quais são os métodos possíveis para que o mercado editorial e o meio acadêmico continuem colocando Pessoa em diálogo com novas gerações?
Jerónimo - Diria que são três os caminhos fundamentais. 1. Edições filológicas claras e acessíveis – para que o público possa ler Pessoa sem perder de vista o contexto em que cada texto foi produzido. O rigor não deve afastar o leitor; pelo contrário, deve abrir portas. 2. Traduções e edições internacionais – o diálogo com outras línguas e culturas renova sempre o modo como lemos Pessoa. A edição brasileira de Reis é parte essencial dessa expansão. 3. Uso pedagógico e criativo – aproximar Pessoa de debates contemporâneos (identidade, performatividade, arquivo, fragmentação, redes sociais) torna-o extremamente atual para as novas gerações. Pessoa dialoga bem com leitores jovens porque já era um autor do “século XXI”: múltiplo, inquieto, experimental. É preciso apenas criar mediações que tornem visível essa modernidade radical.
"Obra completa de Ricardo Reis"
"Vivem em nós inúmeros"
O último poema de Ricardo Reis, datado de 1935 e intitulado "The happy sun is shining", aponta uma síntese, se é que é possível, da literatura de Fernando Pessoa: "Vivem em nós inúmeros". Talvez esta seja a maneira mais efetiva de estreitamento com o ortônimo (termo utilizado pelo português para se referir às próprias autorias), escritor que se versou em outros.
Filho de Joaquim de Seabra Pessoa e Maria Madalena Pinheiro Nogueira, Fernando nasceu em Lisboa e acumulou uma série de reviravoltas pessoais antes de atingir a maioridade. A juventude o aproximou das letras e ciências ocultas, assim como dos textos teatrais, eróticos, críticos e filosóficos. Até que, em março de 1914, viveu o que descreveu como "uma espécie de êxtase" de natureza inexplicável.
Em pé, como usual, escreveu mais de 30 poemas a fio. "Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim", descreve em carta a Casais Monteiro, anteriormente mencionada nesta matéria. É neste ímpeto que surgem os heterônimos Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis, antecessores de dezenas de facetas que compõem um universo único.
"Ele é um autor cuja literatura, embora esteja dentro de muitos gêneros, é inclassificável", elabora o escritor e crítico literário Renato Pessoa. O também professor explica que o pensador criou "o maior caso de heteronomia da literatura ocidental" a partir de um "multímodo" de formas estéticas. "Ele é também outros, e fala com outras formas. A escolha de certas palavras, de certos modos de dizer algo, não se confundem de um heterônimo a outro", complementa.
Cada uma dessas figuras têm a própria personalidade, viés político e estética. Muitos, inclusive, possuem horóscopos e fotografias. Numa obra que questiona "as fronteiras da identidade", Pessoa vai contra a estética do idealismo e abre "um construto contra a rigidez do que é uno". De acordo com Renato, é "uma antítese adversária da identidade burguesa centrada na devoção de uma identidade universal e fixa".
Ao passo em que vivia momentos críticos na política de Portugal, beirando a consolidação de uma ditadura de extrema-direita, Fernando conduziu a escrita na subjetividade e traçou movimentos que permeavam complexidades humanas, a exemplo da dicotomia entre razão/emoção e vida/morte. Para o filósofo, ensaísta e filólogo português Nuno Ribeiro, o conterrâneo levou a fragmentação e pluralidade ao extremo.
Nas centenas de personas que seguem sendo desvendadas após a morte do escritor, o ponto de convergência acontece no conceito de "drama em gente", concebido pelo autor de "O Livro do Desassossego" para dar conta das múltiplas relações entre os diferentes "eus" existentes no espaço literário criado.
"É como se as diferentes personagens se autonomizassem do todo unitário da peça dramática e se transformassem em personalidades com obras, estilos, modos de ver e de sentir inteiramente autônomos. Isto é, como se fossem gente em vez de simples personagens, sem perderem a dimensão de diálogo e de interação", complementa o doutor em Filosofia pela Universidade Nova de Lisboa.
Neste sentido, a comunicação com áreas como a filosofia acontece quando as personagens apresentam diferentes pontos de vistas correspondentes a "visões do mundo alternativas", podendo convergir ou divergir. Nuno pontua que até as obras assinadas "ortonimamente" são marcadas por elementos de ficcionalização, a máxima de que todo poeta é um fingidor.
Estudar a obra de Pessoa, enfatiza o professor, contém o desafio de analisar uma escrita infindável. Os documentos encontrados no Espólio de Pessoa, disposto na Biblioteca Nacional de Portugal, somam mais de 27.000 arquivos. Os itens vão desde panfletos até cartas astrológicas, e formam conjunto de títulos em crescente internacionalização e repassados entre gerações. "Podemos sem dúvida dizer, após noventa anos da sua morte, Fernando Pessoa é o mais cosmopolita de todos os escritores portugueses".
Os outros eus
"É o discípulo de Caeiro onde se faz sentir com maior força o influxo das correntes modernistas, nomeadamente, a influência de Walt Whitman. É, nesse sentido, que Pessoa apresenta Campos como um Walt Whitman com um poeta grego lá dentro";
"Corresponde à figura do Mestre, na medida em que para esse heterónimo não há cisão entre sensação e pensamento, enquanto os outros heterónimos discípulos de Caeiro vivem no regime de oposição entre sentir e pensar";
"É o discípulo de Caeiro que escreve odes ao estilo do poeta romano Horácio, com uma forte influência do epicurismo e do estoicismo, e redige vários textos de introdução à obra de Alberto Caeiro, onde fala sobre a reconstrução do paganismo"
*Atributos compartilhados pelo filósofo Nuno Ribeiro: "É difícil destacar uma única característica definidora de cada uma das três personalidades heteronómicas pessoanas, pois cada heterónimo tem uma evolução dentro da obra".