Em meio a vídeos rápidos, rolagens infinitas e disputas constantes pela atenção, as redes sociais costumam ser apontadas como vilãs da leitura. No TikTok, porém, o criador cearense PH Amâncio vem mostrando que a lógica pode ser outra: a de usar a oralidade, a síntese e a performance para despertar curiosidade pelos livros, e conduzir o público de volta às páginas.
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Natural de Fortaleza, PH soma mais de 200 mil seguidores em seu perfil e ultrapassa 2 milhões de visualizações ao contar, em vídeos curtos, obras literárias. O formato é simples: ele resume narrativas clássicas com uma linguagem acessível, bem-humorada e próxima do cotidiano, estimulando quem assiste a buscar a obra completa.
"Eu quis criar um tipo de conteúdo que eu gostaria de consumir. Comecei contando mitos gregos, depois contos de fadas desconhecidos e lendas do folclore. Com o tempo, isso foi evoluindo para obras literárias nacionais e internacionais, mas a essência permanece: contar histórias que marquem, encantem e fiquem na memória das pessoas", relata o cearense.
A relação com a leitura antecede a experiência nas redes. "Literatura era minha matéria favorita na escola", conta.
Apesar de um período afastado dos livros, provocado pela rotina de trabalho e pelo consumo de telas, foi revisitando leituras da juventude que PH retomou o hábito — e encontrou uma linguagem para transformá-lo em conteúdo digital.
Formado em Design, PH atua como designer gráfico, videomaker, editor, animador e ator. Para ele, o domínio da narrativa é uma ferramenta transversal. "Meu conhecimento em histórias e literatura ajuda muito na construção do storytelling. Saber contar uma boa história é essencial para cativar pessoas, seja em um vídeo, em um projeto educacional ou na apresentação de qualquer ideia".
Com o crescimento do perfil, o processo de escolha das histórias passou a ser influenciado diretamente pelo público. Comentários orientam os temas, que transitam por diferentes culturas, épocas e tradições.
"No início, eu contava histórias que conhecia e achava interessantes, como contos pouco conhecidos dos Irmãos Grimm ou lendas europeias. Quando o público cresceu, começaram a surgir muitos pedidos, então passei a escutar mais o que as pessoas queriam ver".
PH já apresentou narrativas como "A Escrava Isaura" (Bernardo Guimarães), "O Morro dos Ventos Uivantes" (Emily Brontë), "Inocência" (Visconde de Taunay), "Vidas Secas" (Graciliano Ramos), "O Primo Basílio" (Eça de Queirós) e "Dom Casmurro" (Machado de Assis), além de obras de Shakespeare, mitos gregos e contos populares de diferentes partes do mundo.
Resumir livros densos em minutos exige cuidado, estudo e escolhas narrativas precisas. Para PH, o desafio está em condensar sem esvaziar: "Procuro conhecer os mínimos detalhes de cada história, principalmente quando se trata de um livro. Não quero deixar elementos importantes de fora nem tornar a narrativa superficial. Fazer isso em até dez minutos é difícil, mas tenho buscado esse equilíbrio".
O impacto do trabalho se revelou primeiro nos relatos do público, antes mesmo dos números. "Muitas pessoas dizem que me escutam fazendo tarefas domésticas, que assistem aos vídeos em família, que colocam para os filhos dormirem ou até para estudar para provas. Quando percebi isso, entendi que o conteúdo estava entrando na rotina das pessoas".
Entre as mensagens recebidas, as que relatam o retorno à leitura são as mais significativas. A conexão, segundo ele, está tanto nas histórias quanto na forma de narrar, marcada pela informalidade.
"Tento contar a história como se fosse uma conversa, quase uma fofoca. Acho que isso aproxima as pessoas da literatura e quebra a ideia de que livro é algo distante ou inacessível", pontua.
Apesar do tom leve, há um cuidado ético no tratamento das narrativas, sobretudo quando envolvem temas sensíveis. "Sempre tento contextualizar partes problemáticas das histórias à luz dos valores atuais. Quando contei 'Os Sofrimentos do Jovem Werther', por exemplo, fiz questão de explicar o impacto que o livro teve e alertar sobre a importância de buscar ajuda psicológica", enfatiza.
Cearense vivendo no Sudeste, PH reflete sobre identidade e pertencimento. "Venho de uma terra com escritores e artistas fundamentais para a cultura brasileira. Morar fora me faz perceber como nossa cultura é vista e reforça a vontade de desmistificar estereótipos".
PH se define como contador de histórias que atua como mediador de leitura por meio das redes sociais. Para o futuro, planeja ampliar formatos e plataformas, sem perder a essência do trabalho: "Muita gente pede vídeos mais longos no YouTube ou um podcast. São passos que quero dar aos poucos. E, quem sabe, no futuro, eu comece a contar minhas próprias histórias".
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