Se não fosse avisado de que esta é uma história real, o público talvez desconfiasse muito da sequência de absurdos que acontecem em "O Bom Bandido", novo filme de Derek Cianfrance que estreou em outubro. Estrelado por Channing Tatum e Kirsten Dunst, a trama se baseia na história de Jeffrey Manchester, ex-soldado que se especializou em assaltar McDonalds no final dos anos 1990.
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"Acho que eu não estava tentando defender o Jeff. Na verdade, eu estava tentando entendê-lo. Olhá-lo a partir da minha perspectiva, como pai", conta Tatum em entrevista ao O POVO, revelando de onde partiu sua empatia ao construir o personagem. Capturado pela polícia depois de mais de 60 assaltos, ele conseguiu fugir e se escondeu por meses dentro de uma loja de brinquedos no centro de Charlotte, na Carolina do Norte (EUA). Se a história até aqui já não parece surpreendente o suficiente, ele acaba se apaixonando por uma funcionária do caixa.
Ao viver Leigh, Dunst conta que precisou levar em consideração que o filme recortava um pequeno pedaço do relacionamento entre os dois, sustentado por meses pela mentira de Jeffrey. No começo dos anos 2000, ainda sem redes sociais ou costume de notícias digitais, era mais fácil cometer um crime e ser esquecido. "Eu quis construí-la como uma mulher real e completa, com dois filhos, alguém a quem isso simplesmente aconteceu", ela revela.
Mais conhecido pelo romance melancólico "Namorados Para Sempre" (2010), o diretor Derek Cianfrance é esperto ao transformar a história recheada de absurdos num romance improvável que está destinado a romper no segundo em que a farsa desmoronar. Aqui ele desliza pelo limite da fábula ao retratar Jeffrey apenas como um homem inteligente que teve sua integridade rasgada pela desigualdade social americana. O filme está disponível no streaming Prime Video.
Confira as respostas dos atores ao O POVO:
O POVO - Sabemos que o trabalho de vocês, como atores, é ser fiel à realidade dos personagens. Para se aprofundarem nisso, vocês partiram da empatia por essas pessoas reais, para compreender e até defender as decisões que elas tomam?
Channing Tatum - Acho que eu não estava tentando defender o Jeff. Na verdade, eu estava tentando entendê-lo. Olhá-lo a partir da minha perspectiva, como pai. Primeiro, me perguntei: por que eu deveria interpretar essa pessoa, mais do que qualquer outra? Esse foi o meu ponto de entrada. Eu tenho uma filha e sou muito privilegiado por nunca ter precisado me preocupar em não conseguir prover para ela; comprar uma bicicleta, roupas para ir à escola, esse tipo de coisa. Nunca tive que lidar com isso. Mas, se tivesse, não haveria limite para o que eu faria para garantir que ela tivesse tudo de que precisava.
Acho que foi daí que veio a empatia. E, conforme a história avança e ele vai tomando certas decisões, eu também senti muita empatia e compaixão, porque consigo entender de onde ele vem: essa falta de compreensão do próprio valor, tentando compensar isso com atitudes extravagantes. Ele não pensa como todo mundo, e isso pode ser algo positivo, mas também é algo que pode acabar te colocando em situações complicadas.
Kirsten Dunst - Eu tentei levar em conta que o filme mostra apenas um pequeno recorte da linha do tempo do relacionamento deles. Então, eu queria garantir que as mulheres na plateia entendessem de onde eu estava partindo, e que não parecesse que a Lee fosse ignorante em relação ao que estava acontecendo, mas sim que estivesse negando algo intuitivo dentro dela mesma.
Eu quis construí-la como uma mulher real e completa, com dois filhos, alguém a quem isso simplesmente aconteceu. E a forma como ela lidou com a situação na vida real foi com muita graça. No filme, ela é retratada dessa maneira: como alguém que encarou tudo isso como uma grande aventura, e não como algo terrível que lhe aconteceu.