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Balé Jovem do Pirambu celebra 10 anos de atuação no território
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Balé Jovem do Pirambu celebra 10 anos de atuação no território

Idealizado pela bailarina Ray Xavier, Balé Jovem do Pirambu leva dança ao bairro e debate a memória do território há 10 anos
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 O espetáculo
Foto: Joander Charles/divulgação O espetáculo "Pra Onde o Vento Sopra" do Balé Jovem do Pirambu debate ancestralidade e memória do território

O Pirambu carrega uma tradição artística e cultural que influenciou além da capital cearense. Se engana quem acha que essa herança se limita a Chico da Silva e à pintura, pois o bairro, localizado na Zona Oeste de Fortaleza, também demonstra potência na música, no teatroe na dança.

Para além dos movimentos do corpo, foi a paixão pelo Pirambu - local onde sempre morou - o responsável por despertar na bailarina Raizer Xavier o desejo de fazer mais pela região. Conhecida como Ray Xavier ou Tia Ray, ela lidera há dez anos um dos projetos que tem aberto portas para novos artistas: o Balé Jovem do Pirambu.

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Atualmente com quase 100 alunos matriculados, Raizer estima que mais de 800 jovens tenham passado pelo projeto desde a fundação. A idealizadora de 33 anos conta que a iniciativa começou a ser esboçada há cerca de 15 anos, mas há dez saiu do papel.

 

 O espetáculo "Pra Onde o Vento Sopra" do Balé Jovem do Pirambu debate ancestralidade e memória do território (Foto: Marília Camelo/divulgação)
Foto: Marília Camelo/divulgação O espetáculo "Pra Onde o Vento Sopra" do Balé Jovem do Pirambu debate ancestralidade e memória do território

"Eu queria que as minhas alunas, minhas amigas que dançaram comigo, tivessem dentro do bairro um ambiente onde pudessem se formar numa técnica reconhecida, sem precisar ir tão longe", relembra.

A vontade de possibilitar o acesso à dança aos moradores do bairro surge como um retorno de uma oportunidade semelhante que a gestora teve na infância no projeto Sociedade da Redenção, que já atua há mais de 30 anos na região.

A história do Balé Jovem do Pirambu

"Na época, eu queria fazer capoeira, mas quando chegou minha vez não tinha mais vaga. Minha avó me levou para o balé. Eu não queria, mas, no primeiro dia, vi a professora toda elegante com aquela roupa e fazendo os movimentos, aí pensei: 'é isso mesmo que eu quero fazer'", recorda.

No decorrer dos anos, passou a fazer audições em academias de dança para aperfeiçoar sua técnica. Após concluir o curso técnico da Escola Porto Iracema das Artes, Raizer decidiu voltar ao projeto onde começou para compartilhar os aprendizados.

Ao perceber que as alunas, apesar do interesse, precisavam sair por questões de horário de trabalho e por atingir a faixa etária atendida pelo projeto, a bailarina criou um grupo de estudos aos sábados. "Era um grupinho, mas foi ficando sério. A gente começou a estudar, pesquisar, fazer aulas de balé clássico", explica.

Foi em 2015, diante a necessidade de debater urgências e histórias do bairro, que com 22 bailarinas nasceu o Balé Jovem do Pirambu. A idealizadora destaca a importância do trabalho com outras iniciativas do território: "Dentro do bairro a gente sobrevive assim, com parceria entre os coletivos".

 O espetáculo "Pra Onde o Vento Sopra" do Balé Jovem do Pirambu debate ancestralidade e memória do território  (Foto: Marília Camelo/divulgação)
Foto: Marília Camelo/divulgação O espetáculo "Pra Onde o Vento Sopra" do Balé Jovem do Pirambu debate ancestralidade e memória do território

Sem local próprio, o Balé Jovem funciona na sede de outro projeto social, o Balé Talita Cumi. Juntos, os projetos se apoiam e dividem parte da equipe pedagógica e do quadro de alunos. A direção é compartilhada com uma equipe formada por mulheres do território. Entre elas estão as irmãs da idealizadora: Priscila Xavier, professora e responsável pelos figurinos e pelo apoio na organização financeira, e Rarís Xavier que atua como professora e suporte na comunicação e na coordenação.

Assim como Abigail Rodrigues, que atua na área administrativa e também como professora; Sarah Marques, que iniciou a trajetória na dança em projeto social, se formou no Conservatório de Dança e retornou ao grupo como professora; e Maria Diva, integrante do Acervo Comunitário do Grande Pirambú (CPDoc), que contribui na construção teórica do projeto, com oficinas sobre história, memória e território.

A escola trabalha com as técnicas da dança contemporânea e do balé clássico, mas Raiser reforça que busca realizar uma abordagem que fuja dos padrões europeus impostos pelas modalidades. "A gente não trabalha com aquela hierarquia do medo, nem a pressão estética, nem os rótulos que existem nessa lógica europeia. É um balé construído com a nossa cara", reforça.

"A técnica existe, mas é adaptada para nossa realidade brasileira e nossas vivências. Não é só o artístico, o bonito, as linhas e os giros em evidência, somos de um lugar e carregamos a identidade do nosso território na dança", acrescenta.

Sob a perspectiva de propor o estudo de uma arte decolonial, surgiu o projeto Corpo, Memória e Territorialidade. A partir de um processo de pesquisa, a iniciativa busca conectar a dança com os elementos que constroem a identidade e a história do Pirambu.

"A gente vem trabalhando essa questão do apagamento histórico, porque muitas dessas histórias não são contadas. Os retirantes, por exemplo, foram a grande mão de obra da cidade, mas também foram os que mais morreram. Quando a gente conta isso em forma de dança, a gente está dizendo que essa história também é nossa".

Além do suporte dos editais, a iniciativa se mantém através de bazares, rifas e doações de itens de dança. Raizer afirma que todos os resultados do projeto são frutos de um trabalho em equipe. Em breve serrão anunciadas nas redes sociais as datas do período de matrícula para 2026.

Saiba mais sobre Balé Jovem do Pirambu

  • Endereço: Rua Pedro Artur, 521 - Carlito Pamplona
  • Instagram: @balejovemdopirambu e @cmtpirambu

 

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