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Espetáculo 'Maldita' debate os estigmas impostos ao corpo feminino
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Espetáculo 'Maldita' debate os estigmas impostos ao corpo feminino

Espetáculo "Maldita" utiliza técnicas de floorwork e de pole dance para debater os estigmas impostos ao corpo feminino no Ocidente
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Com técnicas de floorwork e de pole dance, o espetáculo
Foto: Levy Mota/divulgação Com técnicas de floorwork e de pole dance, o espetáculo "Maldita" ganha temporada em Fortaleza no mês de janeiro

Perceber o corpo como metáfora de ruptura, transgressão e ressignificação: foi a partir desse pensamento que o espetáculo "Maldita" chegou à cena. O novo trabalho da bailarina e coreógrafa Maria Epinefrina estreia temporada em janeiro no Teatro Dragão do Mar e terá uma sessão no Centro Cultural Bom Jardim (CCBJ).

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Com a dramaturgia de Andreia Pires, a obra se apoia em referências mitológicas a partir da imagem simbólica de um "corpo cobra de sereia" para investigar como a figura feminina foi historicamente associada à culpa, ao castigo e à cobrança no Ocidente.

"Eu me conectei com as histórias de Eva, Lilith, Medusa e Iara porque sempre vi essas figuras como mulheres injustiçadas. São mitos que as transformam em monstros, quando na verdade carregam histórias de punição, violência e resistência. Isso atravessou muito meu processo em 'Maldita'", manifesta Maria Epinefrina.

Com 11 anos de atuação no cenário artístico fortalezense, a atriz engloba uma pesquisa que une dramaturgia, tecnologia e iluminação cênica. Graduada em Dança pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e integrante da Pós-Graduação em Artes na mesma instituição, ela investiga novas corporeidades, espacialidades e modos de criação.

Maldita: a construção do espetáculo

Durante o processo, a obra foi desenvolvida de forma laboratorial e aberta ao público, com a realização de oficinas que permitiram que a pesquisa se expandisse para além da sala de ensaio e chegasse aos palcos.

"Eu sempre gosto de fazer troca com o público. A obra é muito maior do que o que está na cena. O que você apresenta é só uma parte. Para mim, a obra nunca é um produto final. Ela é enorme. Por isso, gosto de abrir processos e dialogar com o público de outras maneiras que não só na apresentação", revela.

Entre as etapas de construção do projeto, a ideia para o título também fez parte de um importante processo de pesquisa, que seguiu inspiração no artigo científico "Divinas, insurgentes e pecadoras: a culpa mítica da mulher", do estudioso Ailton Dias de Melo.

A peça em questão analisa o mito e sua importância na construção social e mostra como - no decorrer das civilizações - a culpa costuma ser atribuída às mulheres e como elas tiveram que lidar com punições da sociedade. Diante de tal estudo, a bailarina busca reverter o valor vinculado ao feminino.

"No espetáculo, acredito que essas heranças de culpa e essa monstruosidade atribuída a elas (mulheres) são ressignificadas. É uma reafirmação. É empoderamento. É poder. Colocar essas figuras não como culpadas, castigadas ou amaldiçoadas, mas como mulheridades fortes", reforça.

Ela ainda assume que essa representação das personagens impacta nos movimentos realizados em palco. "Tem partes da movimentação que são violentas. Tem um momento que eu bato o sapato, que faço movimentos de ataque. Porque esses monstros femininos foram punidos e demonizados, mas também sempre foram sensualizados", elabora.

Para Epinefrina, a sensualidade atribuída aos corpos das mulheres também está relacionada a um processo de construção. "Há um medo nessas imagens, mas também uma sensualidade atribuída ao corpo monstruoso. A própria sereia seduz para a morte. Essa sedução é uma arma, uma forma de se manter", explica.

A coreógrafa acrescenta: "Essas monstruosidades fazem parte de mim, fazem parte de nós. É como se eu abraçasse isso e ressignificasse. Não é um lugar de afastamento, mas de afirmação".

No decorrer da pesquisa, a bailarina passou a se interessar por danças voltadas à técnica do floorwork, que realiza movimentos em plano baixo e contato com o chão. Para se aperfeiçoar, contou com a ajuda do coletivo de dança Intergalático - que também traz o chão como pesquisa. Mas foi o interesse por aspectos mais sensuais que trouxe o pole dance à investigação.

"O sapato que uso é uma sandália de pole dance, com salto de 20 centímetros. Eu nunca fiz pole dance, mas sempre quis. Via as meninas na internet fazendo muito floorwork no chão com esses saltos enormes e me identifiquei com aquela energia. Eu adoro investigar coisas no chão e vi uma proximidade com o que eu já explorava nas aulas de vogue e nas oficinas", conta.

Em novembro, "Maldita" apresentou destaques internacionais ao ser selecionado para a "Residência Travessias de Criação" da Escola Porto Iracema das Artes, em parceria com a Central Elétrica de Porto, em Portugal.

Durante 15 dias, Maria Epinefrina imergiu na obra e recebeu o apoio da artista e pesquisadora Cristina Planas Leitão - explorando novas camadas dramatúrgicas e apresentando o resultado ao público lusitano.

"A residência em Portugal foi essencial para 'Maldita'. Ter os ensinamentos da Cristina Planas Leitão e ter uma sala só minha e poder mergulhar totalmente no processo fez a obra crescer de forma decisiva", ressalta.

 

Maldita - Dragão do Mar

  • Quando: quintas-feiras, 8, 15 e 29, às 19h30min
  • Onde: Teatro Dragão do Mar (Rua Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema)
  • Quanto: R$ 20 (inteira) e R$10 (meia)
  • Vendas: na bilheteria e pelo site sympla.com.br

 

Maldita - Centro Cultural Bom Jardim

  • Quando: sábado, 24, às 19h30min
  • Onde: Centro Cultural Bom Jardim (Rua 3 Corações, 400 - Granja Lisboa)
  • Gratuito

 

 

Conheça a artista

  • No Instagram: @epinefrine_se

 

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