Artista de renome internacional com mais de seis décadas de carreira, o fortalezense Zé Tarcísio teve a morte anunciada na sexta-feira, 9, por amigos nas redes sociais. Nascido em 8 de fevereiro de 1941, o multiartista que levou os traços, as formas e as cores do Ceará para o mundo estava prestes a completar 85 anos.
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Até o fechamento desta página, a causa da morte de Zé Tarcísio (1941-2026) não havia sido divulgada. O velório está marcado para acontecer a partir das 10 horas deste sábado, 10, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC). Já o enterro está previsto para às 15 horas no Cemitério São João Batista, localizado no Centro.
O artista, morto aos 84 anos, deixa um rico legado às futuras gerações de artistas visuais. Com a sua partida, amigos e admiradores reafirmam o impacto de Zé e sua produção. Como explica a doutora em Sociologia e pesquisadora Kadma Marques, Zé Tarcísio produziu uma "obra múltipla": "Ela não se define, ela não se enquadra facilmente alinhada a uma única corrente".
Já Dodora Guimarães, pesquisadora e curadora de arte, lembra que Zé Tarcísio foi educado "num lar de mulheres, cuidado pela avó e a mãe artesã, ele foi preparado para o destino de artista desde cedo". No início dos anos 1960, explica, ele recebeu conselhos de outro grande artista cearense: Antônio Bandeira (1922-1967). "Tocado pela obra e o discurso do mestre ele decide partir para o Rio, a capital da República. Antes uma parada na Bahia, que lhe deu o rumo a seguir", diz Dodora.
Para o administrador da Galeria Multiarte, Victor Perlingeiro, o trabalho do fortalezense alçava questões para além da estética, alcançando debates políticos do momento em que suas criações estavam inseridas. "Ele sempre foi um artista muito atento ao seu entorno. No Rio de Janeiro, tratava das questões políticas da época; ao voltar para o Ceará, passou a abordar temas territoriais de Fortaleza", destaca.
Victor acredita que o legado de Zé Tarcísio será bem-recebido pelos curados e outros artistas contemporâneos. "A obra do Zé ainda será devidamente colocada no mercado e na história da arte. Seus contemporâneos são hoje nomes celebrados, e ele merece esse reconhecimento por tudo o que viveu e contribuiu artisticamente", conclui.
Outra memória vem do vizinho do ateliê de Zé Tarcísio na Cidade 2000, o pintor Wilson Neto lembra das conversas frequentes que mantinha com o artista. "Toda semana, eu o via passar. Às vezes, conversávamos no portão; às vezes, ele entrava para saber o que eu estava trabalhando", conta. Segundo ele, essas visitas se transformavam em momentos de aprendizado: "Ele sempre me dava muitos conselhos sobre a trajetória dele e me contava casos e histórias do passado das artes plásticas aqui no Ceará".
Para Wilson, a morte de Zé Tarcísio representa uma grande perda para a cena artística cearense, pois o artista deixou uma vida intensa e repleta de marcos culturais. Ele lembra também da personalidade do amigo: "Ele gostava muito de conversar com os artistas e não tinha preconceito com arte popular ou arte conceitual. Ele gostava muito da vida".
O pensamento é reforçado por Dodora Guimarães: "Ele tinha cara de gato, a esperteza dos gatos e parecia, até mesmo, ter as sete vidas dos felinos. Mas, não. Ele partiu de mansinho, e, sorrateiramente, deu o seu pulo para o outro lado da matéria".
Dodora adiciona que, recentemente, o artista "viu sua glória numa exposição abrangente" - se referindo à mostra "Zé Tarcísio - 6585", que reúne 60 obras e está disponível para visitação na Caixa Cultural Fortaleza. "Nada mais importante para um artista da estirpe de Zé Tarcísio do que apresentar em sua cidade o trabalho uma vida", elucida Dodora.
Exposição Zé Tarcísio - 6585
Zé Tarcísio e Gerson Ipirajá
Em agosto último, no Dia dos Pais, O POVO registrou em matéria a relação entre os artistas Zé Tarcísio e Gerson Ipirajá. Além da convergência no trabalho, eles nutriram, por décadas, uma amizade que os levou a serem considerados "pai e filho" na cena cultural. Na ocasião, a equipe visitou o ateliê de Zé Tarcísio, no bairro Cidade 2000, onde foi realizada uma sessão de fotos.
A história, o legado
Zé Tarcísio iniciou a carreira artística aos 19 anos. Ganhou projeção nacional a partir dos anos 1970 com obras que transitavam entre pintura, objetos e instalações, e que buscavam fortalecer o debate entre memória, natureza e cultura. Nessa época, Zé Tarcísio foi reconhecido nacionalmente por participar da Bienal de Paris e do Salão Nacional de Arte Moderna. Suas obras já foram expostas em diversos espaços culturais do Brasil, como: Museu Nacional de Belas Artes, o Museu de Arte Contemporânea do Ceará, o Museu Histórico Nacional e o Museu Afro Brasil.