Em novembro, as redes sociais são banhadas de listas várias com indicações de obras com autoria negra. O problema é que a maioria dessas produções traz narrativas focadas no sofrimento. Além disso, algumas autorias são repetidas ano após ano, sem diversificar os nomes e os gêneros de obras. Escritoras como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Toni Morrison e bell hooks aparecem com frequência quando o assunto é autoria negra.
Esse movimento acontece, segundo a doutora em Literatura pela Universidade de Brasília (UnB) Anne Quiangala, devido a uma demanda de mercado. "Outras coisas estão relacionadas a como o mercado também vai criando modismo", explica a acadêmica. "As grandes listas em jornais, em revistas, o que os intelectuais estão lendo, enfim, essa questão das premiações, tudo isso vai motivando esse burburinho, esse modismo e essa tendência mesmo das pessoas quererem se sentir confortáveis sabendo sobre os assuntos que estão em alta".
A escritora Kinaya Black, residente no Sertão Central do Ceará, salienta que a produção literária de autoria negra é vista "quase como uma literatura de nicho" na qual os consumidores tratam como um termo guarda-chuva para obras distintas - estabelecendo um "padrão" do que deve conter em um livro escrito por uma pessoa preta.
"Me parece muito que os leitores possuem um preconceito definido sobre escritores negros. Como se associassem qualquer livro escrito por pessoa negra com história, sociedade, política e isso afasta a ideia de ser uma ficção e faz eles pensarem que o livro é chato", elucida Kinaya, que cursou mestrado em Letras pela Universidade Federal do Ceará (UFC).
Apesar disso, ambas as pesquisadoras não veem problema na repetição de nomes nas listas de indicação. Kinaya defende que, embora esses autores já sejam conhecidos dos leitores e da literatura produzida por pessoas pretas, "ainda não são vistos como suficientes para outras esferas da literatura e do mercado".
"Um exemplo disso é o fato de a própria Conceição [Evaristo] não ter ainda uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Uma academia criada por um homem negro, inclusive, Machado de Assis, que é facilmente o maior escritor brasileiro e que até uns anos atrás não se falava sobre a cor de sua pele", cita Kinaya, também produtora cultural e criadora de conteúdo digital.
Anne percebe que essa repetição é um modo de questionar a temporalidade das obras, visto que algumas foram esquecidas após a publicação e rememoradas anos depois.
"Porque se formos pensar nesse estudo da literatura brasileira, temos essas obras contemporâneas. Por exemplo, o 'Quarto de despejo' da Maria Carolina Maria de Jesus, que foi publicado inicialmente na década de 1960 e é um texto que ficou não publicado durante muito tempo", destaca a pesquisadora capixaba.
A escritora cearense Kinaya Black argumenta, entretanto, que trazer listas com o mesmos nomes é também um modo de abrir portas para novos escritores: "Como uma pessoa que estudou muito mais a literatura negra estadunidense que a literatura negra brasileira, acho importante que possamos repetir nossos autores relevantes, pois acredito que isso pode abrir portas para outros autores. Se um de nós quebrar a bolha, outros de nós podem sair pelo buraco que se criou".
A principal problemática das listas de indicações é a presença de obras focadas em narrativas de sofrimento. "Ponciá Vicêncio" (2003), primeiro romance de Conceição Evaristo, traz uma história dolorosa de busca por identidade e pertencimento.
Anne Quiangala elucida que a maior presença desse tipo de enredo em listas de indicações acaba apontando para um tipo de literatura de autoria negra que é "vendável".
"Que tipo de imagem do negro é do interesse da elite que seja reiterada? Por que que histórias de libertação, histórias que não tenham violência gráfica, por que que essas histórias são menos consideradas?", questiona a também criadora de conteúdo.
Para a pesquisadora, a questão maior não é a existência de narrativas doloridas, mas limitar a literatura de autoria negra a somente esse tipo de obra.
"Quando a gente se restringe a um tipo específico de literatura que conecta pessoas negras a experiências dolorosas, as experiências de violação, de direitos, a gente também tá reforçando ideias específicas sobre a população negra", diz Anne
A doutora em Literatura argumenta que, ao insistir nesse tipo de representação, o enredo limita "o que uma pessoa negra pode ser".
Oceanïc - Cosmópolis vol. 1 (Waldson Souza)
Na obra do brasiliense Waldson Souza, a humanidade vive nas costas dos gigantes. Em uma dessas terras, o casal Rafael e Jonas passa a ser encarado como ameaça pelo exército por algo que aconteceu no passado de um deles.
Editora Dame Blanche
183 páginas
Quanto: R$ 7,90
Raybearer - O dom do Raio (Jordan Ifueko)
O maior desejo de Tarisai é o aconchego de uma família. Criada isolada pela mãe, chamada de A Senhora, a criança é enviada aos 11 anos para a capital do império, para ser membro do conselho do príncipe. Caso seja aceita, ela se unirá aos membros através de um vínculo profundo. Porém, A Senhora tem outros planos no livro da nigeriana-estadunidense Jordan Ifueko.
Editora Desrotina
456 páginas
Quanto: R$ 69,90
A diplomata (GG Diniz)
Feitosa sobrevive na Terra, após os super-ricos deixarem o planeta. As mulheres restantes passaram a ser sequestradas e levadas ao "Éden". Feitosa é a próxima, até que conhece Matilde, uma foragida, e Eunir'ra, uma agente em missão diplomática. Elas devem se unir para salvar a vida na Terra. A obra é da autora cearense G.G Diniz.
Editora Plutão Livros
123 páginas
Quanto: R$ 19,90
O serviço de entregas monstruosas (Jim Anotsu)
O mineiro Jim Anotsu traz um universo onde dragões e bruxas vivem em harmonia com a humanidade. Objetos mágicos são parte da rotina e precisam de um serviço de confiança para transportá-los: o Serviço de Entregas Monstruosas. Gustavo e Strix, porém, sofrem uma tentativa de roubo em sua primeira entrega.
Editora Intrinseca
364 páginas
Quanto: R$ 26,96
Joanna Mina (Luciany Aparecida)
Inspirada em Catarina Mina, mulher africana escravizada no Brasil, é a primeira peça da baiana Luciany Aparecida. A ficção acompanha Joanna Mina, desde sua infância no Benim até a alforria, quando se torna uma vendedora de tecidos.
Editora Paralelo13s
124 páginas
Quanto: R$ 44,90
Eu conheço Uzomi (Kinaya Black)
Num futuro distópico em que as escolas são fechadas no Ceará, a professora Hadassa se vê obrigada a trabalhar numa fábrica. Com o tempo, ela percebe que os funcionários passam a sumir, inclusive seu namorado Uzomi. Escrito pela cearense Kinaya Black.
Editora Kitembo
80 páginas
Quanto: R$ 34,90
Trama Ancestral (Wilson Junior)
Na obra do cearense Wilson Junior, um homem acorda numa praia, no século XVII, sem saber quem é, onde está ou de onde veio. Ao sair em busca de alimentos, ele encontra Anansi, um deus aranha que lhe faz uma proposta: ele deverá ajudar Anansi a libertar seu povo que está sendo escravizado em troca de ter de volta as memórias.
Editora Cortez
192 páginas
Quanto: R$ 34,53
8. Legado Selvagem (Larissa Cristal)
A princesa Aurora está a caminho de seu casamento quando é atacada pela ladra Isabela, que recebe a missão de assassinar a monarca. Mas, os planos de Isabela dão errado e as duas terminam presas na Floresta do Caos, onde terão que se unir para enfrentar terríveis criaturas mágicas.
Publicação independente
84 páginas
Quanto: R$ 11,98