A Netflix tem tratado "Jay Kelly" como um de seus lançamentos mais relevantes do ano. Não à toa, o filme dirigido por Noah Baumbach chega ao público já com dois reconhecimentos importantes: George Clooney indicado ao Globo de Ouro como melhor ator em filme de drama, e Adam Sandler indicado como melhor ator coadjuvante. Só essa dupla de indicações já seria motivo suficiente, mas felizmente o longa também cresce ao abordar escolhas e arrependimentos, fazendo uma homenagem à arte do cinema.
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Clooney interpreta Jay Kelly, astro mundial que parece ter vivido todos os sonhos possíveis para um ator, mas que carrega uma coleção de frustrações cuidadosamente escondidas. Sandler surge como Ron, seu agente e escudeiro, um profissional que se dedica a sustentar esse império pessoal enquanto tenta dar algum sentido à própria vida. Quando um não está em cena, é o outro que ocupa o centro da narrativa. O filme é totalmente construído para os dois, com a direção posicionando as câmeras muito próximas dos rostos.
"Jay Kelly" é um desses dramas que prefere não ter respostas diretas. A proposta é muito mais provocar do que direcionar. O personagem principal parte dos Estados Unidos para a Europa numa tentativa de se reaproximar da filha prestes a sair de casa para a faculdade. Ele tenta recuperar laços familiares que foram sendo destruídos por ele próprio, pelo trabalho e pelas escolhas de um homem que sempre viveu sob os holofotes. É aí que o filme encontra suas imagens mais bonitas: cenários europeus que traduzem a busca e a distância.
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O roteiro não inventa nada e por isso não pretende revolucionar o gênero. O que o torna interessante é a profundidade dos diálogos e a forma como revela o desconforto de quem, ainda que no topo, percebe cada privilégio cobrando um pedaço de sua vida. Baumbach explora com habilidade a dualidade entre fama e vazio emocional. Em alguns momentos, o filme até parece vitimar demais as estrelas de Hollywood, transformando-as em mártires de um glamour que quase nunca perdoa. É aqui que surge o risco: embora seja evidente que celebridades sofrem e muito, suas dores raramente estão desconectadas de grandes privilégios.
Adam Sandler, tantas vezes associado a comédias descartáveis, confirma novamente sua capacidade dramática. Depois de "Jóias Brutas", apenas para citar um exemplo de grande atuação, ele mostra que tem muito mais talento do que parte do público imagina. Seu personagem não é apenas um complemento do protagonista, mas alguém que carrega dilemas próprios, derrotas invisíveis e uma necessidade de existir além da sombra do patrão. Clooney, por sua vez, encontra um papel de maturidade, um ator interpretando um ator que se descobre irrelevante para quem mais importava: a própria família.
Um elemento que reforça o peso que a Netflix dá a este lançamento é o making of de 50 minutos, também já disponível na plataforma. Para quem nunca se deteve aos bastidores de uma produção, é quase um choque perceber a quantidade de detalhes, profissionais e esforço coletivo necessários para que um único filme exista. É mais uma camada de homenagem ao cinema, mostrando o que há além da superfície que o público costuma ver.
Nem tudo é perfeito, entretanto. O ritmo, por vezes lento, pode afastar quem não estiver disposto a mergulhar na história. O espectador que busca surpresa, tensão contínua ou muitos acontecimentos pode sentir que há sequências que se arrastam. Mas "Jay Kelly" não parece fazer muita questão de ser espetáculo. O filme se apresenta como reflexo das escolhas que fazemos e das consequências que chegam quando tentamos ignorá-las.