Presenciar o início de uma era talvez não estivesse nos planos de Mimi Rocha quando começou a sua carreira musical, lá por meados da década de 1980. Cantor, compositor e produtor cultural, o cearense foi um dos artistas nacionais que se inspiraram nas movimentações da sociedade brasileira da época para trilhar sua trajetória.
"Eu iniciei minha carreira também durante aquele período, nos anos de 1980, com o grupo Latim em Pó, que ia do jazz à MPB, do brega ao rock... Numa verdadeira salada sonora. Na época, a gente achava o rock do Brasil muito pobre musicalmente, com raras exceções, hoje já vejo com melhores olhos esse momento", recorda o artista, ao comentar que aquelas produções foram responsáveis pela
ascensão do rock nacional.
Hoje arranjador e guitarrista de referência, Mimi conta que as agitações sociais pelo Brasil em 1985 causaram impactos em vários formatos artísticos, mas com maior repercussão na música, o que explica o ano ter sido escolhido para demarcar a mais nova publicação de Célio Albuquerque.
"1985 foi o ano do Rock in Rio e a consolidação do rock como o gênero mais tocado, junto ao surgimento de grandes artistas nesta área. Alguns nomes da MPB também foram nessa onda rockeira e isso se reflete nos discos", lista, acrescentando que uma importante característica das criações da época foi a "sonoridade mais eletrônica com as baterias eletrônicas e teclados midi (um tipo de instrumento musical eletrônico que controla sintetizadores virtuais) dominando boa parte dos arranjos".
Mimi Rocha foi responsável por analisar "Fagner", álbum do cearense que traz composições de Fausto Nilo, Francisco Casaverde, Belchior e outros. "Foi um álbum de transição na carreira dele, que traz participações de Chico Buarque, na canção 'Paroara'; Beth Carvalho, em 'Te Esperei'; e Cazuza, com 'Contra-Mão'", explica.
Contente com a participação na obra, Mimi revela que está sendo articulado um evento de lançamento do livro "1985: o ano que repaginou a música brasileira" em Fortaleza.
Rumo a um horizonte
Ao olhar para trás, a distorção do tempo pode nos levar a uma falsa ideia de que os anos 2000 ainda são recentes. A verdade, no entanto, é que já faz 25 anos da virada do século. Uma geração completa que passou por mudanças e movimentações sociais, econômicas, políticas e culturais, tais como as décadas de 1980, 1980, 1970, 1960 e seus anos antecedentes.
Marcada pela presença do uso da internet no dia a dia, a era pode ser recordada pela predominância do pop, ascensão do funk e suas vertentes, o rock melódico e outros gêneros que influenciaram toda uma geração impactada desde os CDs às plataformas de streaming.
"A música é o reflexo do seu tempo", afirma Célio Albuquerque. O autor da trilogia que recorda anos que comoveram a produção musical no Brasil detalha que construir uma nova obra que possa narrar um ano do período mais recente da história da música nacional é um "trabalho que precisa ser muito minucioso".
"Cada livro que fizemos - 1973, 1979 e 1985 - é fruto de reflexões minhas e dos colaboradores. Então, para elaborar um livro sobre um ano específico de 2000 para cá, é preciso entender aquilo que foi produzido e como se deu essa produção", explica. Célio detalha que, devido ao "consumo diferenciado da música", ao fazer um balanço dessa produção, a sociedade é levada a crer que "não se faz música como antigamente".
"E realmente não se faz, não tem que se fazer. A gente pode gostar mais da música dos anos 1970 ou da música dos anos 1990, mas a música dos anos 2000 tem que ser vista como a música dos anos 2000. Assim como a música de 1985 tem que ser vista como a música de 1985. É, então, necessário pensar a música, o seu consumo e o que ela significa para a história do Brasil de uma forma emocional, mas, ao mesmo tempo, analítica", conclui.
Álbuns citados em "1985 o ano que repaginou a música brasileira"
Conheça a trilogia de livros
Sinopse: "Em 1973, algo enigmático faz com que a música brasileira produza uma quantidade incomum de discos que teimariam em resistir ao tempo, não só por sua alta dose de inovação, mas também pela quantidade generosa de estreantes que os assinam. Sem nenhuma pretensão de destronar seu maior rival, o ano de 1968, este livro aponta para a eternidade particular de 1973 ao reunir olhares individuais de 50 escritores para 50 álbuns lançados naquele período de tempo".
Sinopse: "100 LPs de 1979 ganham histórias escritas por artistas e jornalistas, e resgatam a memória de um ano em que a música popular brasileira falou por si só. Em forma de prosa, resenha, reportagem e entrevista, cada autor dá o seu estilo ao seu capítulo. '1979: O ano que ressignificou a MPB' traz para leitores e leitoras momentos especiais sobre álbuns especiais".
Sinopse: "Quantas décadas cabem em dez anos? Difícil dizer, mas é quase certo afirmar que em 1985, no Brasil, passou muito mais do que meros 365 dias. Tantos fatos aconteceram, tantas reviravoltas, tantas esperanças… Cinema, TV, futebol, jornais, política. E, se havia algo realmente novo, era a música. Tempo de Rock In Rio. Tempo de programas de clipes. Tempo de rádios tocando música feita por e para os jovens. E havia artistas da MPB se reinventando. Dá pra dizer que a música feita por aqui espelhou toda essa pluralidade, o espírito do tempo, especialmente aqueles sentimentos e sensações difíceis de serem descritos em palavras".
Arte é história
Texto de Marcos Sampaio - jornalista, crítico de música e editor do Vida&Arte
Música talvez seja a linguagem artística mais democrática que existe. Tanto que convivemos com ela até sem querer, no rádio do Uber, passando pela porta de uma loja, no som ambiente do shopping, na antessala da clínica. E talvez por isso muita gente banalize sua eficácia enquanto meio de comunicação, enquanto produto carregado de sentido e ideologia.
Esse é o ponto de virada desta série de livros que aborda discos lançados em 1973, 1979 e 1985. Ela tira a música da zona de conforto e convida o leitor a perceber que, por baixo de arranjos, ritmos, instrumentos e interpretações, escondem-se camadas de mensagens que retratam nossa história.
Falar de guerra, de política, assim como falar de amor e da vida cotidiana - como falaram Angela Ro Ro, Erasmo e Roberto Carlos, Fátima Guedes, Verônica Sabino... - são formas diferentes de retratar o momento, com suas particularidades e conflitos.
Se os anos de 1973 e 1979 retratam um Brasil buscando se comunicar entre as frestas da censura, 1985 é a hora de testar os limites da democracia e sua abertura "ampla, geral e irrestrita" - Leo Jaime fez isso muito bem, com muito deboche, ao cantar "O regime".
Não por acaso, "1985 - O ano que repaginou a música brasileira" tem samba, forró, rock, sertanejo, heavy metal e outros estilos. São retratos de diferentes partes de um país plural e continental.
Sim, da mesma forma que Pablo Picasso retratou a Guerra Civil Espanhola em "Guernica", RPM, Titãs, Ultraje a Rigor (ora vejam...), Ira! retrataram um Brasil pós-ditadura militar quando lançaram seus discos de estreia em 1985. Mais do que falar de discos, trata-se de uma série sobre a história do Brasil e do mundo.