Pensando no escuro como lugar de possibilidades, refúgio e liberdade, a artista travesti e negra Gi Monteiro estreia nesta terça-feira, 13, às 18 horas, sua primeira exposição individual: "Céu da boca da noite". A também historiadora, ao refletir sobre o "escuro, profundo e fertilidade" em pesquisa acadêmica, contou perceber que havia vida no que muitos associam à ausência.
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"Quando criança, eu tinha medo do escuro, mas hoje eu vejo que é nele que acontece muito da vida e eu quis transmitir isso para a minha arte", explica ao O POVO. No mês da visibilidade trans, janeiro, Gi Monteiro aborda a liberdade para os corpos dissidentes - aqueles que não se enquadram em normas sociais impostas - por meio de suas obras.
A mostra, em cartaz na Cave Galeria, é um reflexo da sua trajetória como mulher trans e negra, assim como também funciona como um palco para identificação "das pessoas que fogem dos padrões de gênero, raça e sexualidade". Estrear neste mês tão importante para a comunidade, ela diz, representa "muita força e agradecimento para quem fez e faz parte dessa luta". A curadoria é do pesquisador Lucas Dilacerda.
Gi Monteiro reflete sobre ser um mês que evidencia disputas políticas cotidianas em torno do livre acesso e do exercício pleno de direitos por pessoas dissidentes de gênero. "Entendo a exposição como um espaço que rompe a norma e rememora as muitas vidas trans que criaram alternativas ao modo de vida dominante", expressa.
O seu encontro com a arte se deu na infância, quando uma lousa de giz foi colocada em seu quarto. Primeiro usada somente para dar aulas de reforço para sua amiga, depois se tornou uma ferramenta de expressão. "Eu vi no giz uma forma de colocar o que estava em mim para o mundo, depois disso não parei mais", diz.
Ela acredita compor um intercâmbio entre as linguagens artísticas, trabalhando com pinturas, desenhos, tecidos, esculturas e fotografias. Essa diversidade conversa com o propósito da exposição: atrelar movimento à arte. Tanto a escuridão quanto essa variedade fazem parte da construção da narrativa de "movimento na arte e no escuro".
Para a artista, a noite é onde a luz não controla tudo, permitindo que outras formas de existência emerjam e floresçam. Ela resgata a memória de que foi na noite que conheceu pessoas trans que se permitiam "viver de forma mais livre, foi nesse momento que parei de atrelar a escuridão a algo negativo, comecei a perceber como forma de existência e resistência". "Eu passei a acreditar que no escuro tudo pode acontecer", diz.
Um ponto abordado na narrativa das obras são as imagens da flor de mandacaru e dama da noite, espécies que brotam no escuro noturno para serem polinizadas. Gi Monteiro traça um paralelo entre o trabalho da natureza e a trajetória de travestis e corpos negros que encontram no ambiente noturno um espaço para "brilhar, exercer sustento e resistir às violências sofridas sob a luz do sol".
A artista usa do abstrato como ferramenta narrativa. "Faço isso com o intuito de transmitir o que eu como mulher trans vivo no dia a dia; a violência e a minha luta estão representadas nesse abstrato", narra, explicando que não expor essa violência de forma explícita é um ato de ressignificação do corpo trans. "A minha dor está ali, mas também está a minha alegria. O escuro e a luz, as cores e os movimentos, é a representação de uma vida que vai além do sofrimento", diz.
O sentimento de orgulho é a marca de Gi Monteiro ao olhar para a trajetória construída até a estreia da primeira exposição individual. "Meu envolvimento com a arte vem da minha trajetória pessoal e profissional, é a soma de tudo que eu sou e lançar uma exposição minha é muito gratificante", aponta.
A artista e historiadora finaliza com a mensagem de que espera que o público encontre em suas obras "cintilâncias de encantamento". Ela define a própria produção como um "feitiço" para lembrar que a vida também é feita de esperança e de movimento.
"Céu da boca da noite"