Quando subiu ao palco do 83º Globo de Ouro no último domingo, 11, Chloé Zhao não conseguiu esconder a surpresa. Indicado em seis categorias, incluindo Direção e Roteiro, “Hamnet” foi sendo ignorado ao longo da cerimônia até vencer o único prêmio que parecia certo, Melhor Atriz para Jessie Buckley, e o surpreendente principal da noite: Melhor Filme de Drama.
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No seu discurso de agradecimento, a diretora lembrou do que o filme causou a Paul Mescal, ator que reluz com uma melancolia inesquecível: "Criar Hamnet o fez perceber que a coisa mais importante de ser artista é aprender a ser vulnerável o suficiente para nos permitirmos ser vistos por quem somos e não por quem deveríamos ser. E nos entregar completamente ao mundo”.
A trama de “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” é baseada no livro homônimo da romancista irlandesa Maggie O’Farrell, imaginando personagens, histórias e sentimentos diante da ausência de informações sobre a biografia de William Shakespeare, grande dramaturgo inglês. A história inventa o que teria acontecido a William e sua esposa (aqui chamada de Agnes) quando Hamnet, um dos filhos gêmeos, morre subitamente - tragédia que poderia tê-lo inspirado na invenção do eterno Príncipe Hamlet.
É envolvente a forma como essa história dá grande importância ao misticismo que a rodeia, como se tivesse algo escondido na textura da imagem, na ferida e no silêncio. Há um certo milagre acontecendo desde o primeiro segundo em que Jessie Buckley surge em cena, vista do céu, repousando quieta nas raízes de uma árvore muito mais antiga do que todas as vidas que ela já ouviu falar. Mas Chloé Zhao filma esse milagre pelo avesso, enxergando a bênção e a condenação que vêm de outro mundo tão longe e, de repente, está ali na quina do quarto.
Se os ambientes fechados são sempre escuros e imóveis, enquadrados numa lente de grande angulação que torna tudo ainda mais vazio, o lado de fora é sempre uma resposta ao que está em movimento, como o vento e os bichos. O tom místico está, principalmente, na imagem. A fenda na terra, os gaviões que planam, o céu que olha de volta.
Embora a trilha sonora e o arco dramático do luto não deixem essa história parecer fresca, às vezes fazendo a tristeza soar como um sentimento banal, duas coisas saltam a um patamar inalcançável: a sinergia hipnotizante entre Buckley e Mescal na pele de um casal que se procura há milênios, e Jacobi Jupe, a criança de 11 anos que interpreta Hamnet com uma gravidade absurda. Na história, no palco e na tela: ele é o milagre.
Em coletiva de imprensa internacional no final de novembro de 2025, quando o filme estava entrando em cartaz nos EUA, Paul Mescal respondeu ao O POVO sobre a importância do público sentir essa conexão: “O Jacobi é um pequeno homem, como se fosse um cara de 40 anos preso no corpo de uma criança de 11. Gosto do fato de que uma criança nunca vai mentir para você com os olhos”.
Uma das cenas mais memoráveis do filme é quando William está prestes à partir para Londres e precisa se despedir do seu filho. “Você vai ser corajoso?”, pergunta fazendo cócegas no garoto para tirá-lo do mal-humor e ele responde em meio a uma leve risada: “Sim, eu vou ser corajoso”. Paul conta que esse diálogo não estava no roteiro e surgiu ainda no primeiro teste que ele teve com Jacobi, ansioso para saber se eles conseguiriam emular uma dinâmica paternal.
“Eu lembro dele estar completamente concentrado. Mas virei para a Chloe e disse que iria começar a fazer algumas coisas meio malucas para ver se ele estava realmente presente. Eu o levantava no ar e ele simplesmente estava brincando comigo - o que, às vezes, é muito difícil de conseguir com atores adultos. Eles chegam com uma ideia muito fixa da cena e não conseguem se afastar disso. Com uma criança, é diferente. Elas estão acostumadas a brincar. Elas brincam todos os dias”, conta com um sorriso largo no rosto.
Por conta da distância entre William e Agnes, o roteiro de Zhao e O’Farrell encara o desafio de construir uma mesma dor, mas que fere em lugares diferentes de cada personagem. O protagonismo é de Buckley, que oscila da plenitude ao lamento mais rasgado sem deixar que o filme se afogue na tragédia. Mas o que “Hamnet” esconde de mais precioso está muito longe do grito e da própria realidade, mas na ilusão mais sincera que pode acontecer em cima de um palco de teatro. Afinal, para onde mais Shakespeare poderia fugir?