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Flávia Almeida: a fotógrafa do Bom Jardim que usa referências coletivas e familiares
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Vida & Arte

Flávia Almeida: a fotógrafa do Bom Jardim que usa referências coletivas e familiares

Do Grande Bom Jardim, a artista cearense Flávia Almeida une referências coletivas e inspirações dos laços familiares para registrar uma Fortaleza que diverge do centro
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Obra
Foto: Flávia Almeida/Divulgação Obra "império para república (quilombismo)", de Flávia Almeida

Nos bairros periféricos e não tão acessíveis para aqueles que se limitam à região central de Fortaleza, novos nomes carregam uma bagagem que reúne vivências, andanças e ancestralidade. Com uma juventude que traz sonhos e metas em suas formas de fazer arte, a Capital hoje se refaz no âmbito cultural a partir das novas maneiras de sentir e agir da cena artística.

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Imagens das idas e vindas rotineiras registradas como forma de apreciar o cotidiano se reúnem às produções planejadas minuciosamente do início ao fim. O enredo em questão se aproxima da realidade de Flávia Almeida, fotógrafa e artista visual que se posiciona no trabalho braçal e também nos bastidores ao celebrar seus semelhantes em frente às lentes.

"Fortaleza tem um abismo entre classes na Cidade e isso se escancara muito no meio artístico. Nossas corporeidades são diferentes, nossos traços são diferentes, nossas referências são outras e causam estranhamento nesse meio artístico, que por muito tempo foi ocupado apenas por uma pequena parcela de artistas que, como diria Racionais: 'Não moram desse lado da ponte'", argumenta Flávia.

Nascida no João XXIII e criada no Bom Jardim, bairros das Regionais 3 e 5, respectivamente, Flávia teve seu primeiro contato com a arte na infância ao se interessar pelo teatro e fazer aulas durante a adolescência em um projeto social. O contato com a política pública ampliou o interesse para outras práticas artísticas, levando-a a entrar em contato com a fotografia.

"Aos 19 anos, após terminar o ensino médio e de um período de muitas crises de depressão, descobri na fotografia uma linguagem que me permitia criar e me expressar, assim como trabalhar", recorda, detalhando que os conhecimentos técnicos foram adquiridos com cursos e oficinas promovidas no então Cuca Che Guevara, atualmente nomeado Cuca Barra do Ceará.

Dos centros culturais aos coletivos juvenis, Flávia se desenvolveu enquanto artista e expandiu olhares ao notar o próprio mundo e ultrapassar as limitações que a cercavam. "Tínhamos uma visão de querer criar uma fotografia que ainda não existia por aqui, ver nossas famílias, nossos vizinhos, nossos amigos fotografados. Fazer nossa própria comunicação, por vezes no campo artístico e por vezes no campo da denúncia. Então, essa fotografia, em sua natureza, acaba sendo muito mais documental".

Na busca por essa "visão de dentro", Flávia estende sua trajetória enquanto liderança e busca reafirmar suas identificações enquanto mulher e cidadã nos projetos que encabeça. Diretora de fotografia e membro da Produtora Princesinha de Favela (PPDF), a artista leva consigo os domínios em que suas criações se complementam: "O trabalho coletivo e os mais íntimos e pessoais".

"Enquanto fotógrafa e artista visual, a PPDF mudou totalmente minha forma de encarar a imagem, nossas produções eram muito rápidas, com muitas mulheres diferentes e isso me fez criar uma sensibilidade maior para representar nossa narrativa nas imagens mesmo com uma fotografia voltada para publicidade e moda", diz.

A relação com a produtora foi efetivada durante a graduação em Ciências Sociais, formação na qual Flávia defendeu o trabalho de conclusão de curso na Universidade Estadual do Ceará (Uece) com a monografia "Produtora Princesinha de Favela: Contrapondo imagens de controle de mulheres negras e periféricas na mídia tradicional".

Filha de dona Francisca e seu Flávio, que a vincularam com as primeiras expressões artísticas, e neta de dona Estela, mãe de santo responsável por transmitir pelas gerações da família a conexão com as religiões de matriz africana, Flávia é umbandista desde 2022 e carrega as expressões ancestrais para seus trabalhos.

"Uma filha de santo da minha avó uma vez me disse que tudo que ela fazia escondido antes, hoje vim para mostrar e documentar. Mestre Sibamba costuma falar que o trabalho produzido hoje talvez não seja de grande impacto para mim, mas que será para as futuras gerações e acredito nisso", afirma ao refletir que, ao adentrar no terreiro, sua criação artística alcançou "uma outra profundidade, um outro campo de acesso e uma nova forma de se comunicar".

Flávia revela estar desenvolvendo um acervo fotográfico dos terreiros do Grande Bom Jardim "para que memórias como a do terreiro da minha bisavó, ou como as histórias da avó do meu pai de santo, não se percam no tempo". A documentação segue a lista de ações iniciadas durante a pandemia, quando ela lançou uma série de autorretratos que se progrediu em um fotolivro publicado pelo então Centro Cultural Banco do Nordeste (atual Banco do Nordeste Cultural).

"Venho pesquisando muito sobre esses elementos, sobre os arquivos familiares, a autorrepresentação, o refazimento da memória e como mesclar diferentes linguagens", explica. Para o futuro, a artista se ocupa com realizações que vão além do registro de imagens, como roteiro de longa-metragem, realização de filmes e tutoria em pesquisas sobre a sua área de atuação.

Flávia Almeida também adianta a estruturação de atividades de desenvolvimento profissional e pessoal e pretende se dedicar aos formatos diversificados do fazer artístico, como direção e roteiro de cinema, além de uma pós-graduação para prosseguir com a pesquisa em imagem.

"Sempre me vi muito em desespero de produção e trabalho para sanar uma necessidade de sobrevivência que vem de muito antes de mim. Desejo para mim e para meus amigos que possamos criar de uma forma que consigamos viver plenamente, que nossa materialização nos permita isso e que o mercado entenda que existem muitos artistas na Cidade para além das bolhas", conclui.

 

Acompanhe a artista

  • Instagram Flávia Almeida: @flaviamoal
  • Princesinhas da Favela @produtoraprincesinhadefavela
  • Behance: /flaviamoal

 

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