O disco "big buraco" (2025) se apropria do conceito de expansão para traduzir a simplicidade. É a partir da sensação de explosão que a cantora Jadsa percorre a circunferência de si em quatro atos: big bang, big luv, big mama e big buraco. Sem a necessidade de uma ordem cronológica, são eles que conduzem os processos de transformações descritos desde a mudança de Salvador, a cidade natal, para São Paulo, ainda no início da carreira.
"Foi quando eu senti falta de tudo o que eu tinha", relembra em entrevista ao Vida&Arte por videochamada. Recém-chegada na capital paulista em busca de oportunidades para gravar o que seria o álbum "Olho de Vidro" (2021), apenas começava a aprender o que viria a estruturar futuramente. "Esse disco me faz caminhar por dentro desse ciclo que fiz entre 2018 e 2025. Tenho ele como um território", define.
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Mais ciente do apunhalado de nortes que a constroem, dentre eles a família e o sol da capital de onde veio, a artista buscou desenvolver uma narrativa que pudesse ser mais visual. As canções, escritas em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, e gravadas em sete dias de estúdio, foram pensadas para priorizar a voz. A faixa de abertura dá o tom, enquanto a seguinte, intitulada "Tremedeira", apresenta a baiana com "penugem de umbu; brilho de jamelão, lábios de caju e saliva de jambu".
"Foi muito legal construir esse disco, porque ele vai me trazendo referências que sei que também são genéricas, sabe? Cada um vai interpretar da sua maneira", dimensiona Jadsa. "Sol na Pele", por exemplo, arrebata para lembrar um amor que evoca Caetano Veloso e Olodum, enquanto "Big Mama" é uma dedicatória sensível à mãe da artista. A sonoridade criada com influências de soul, jazz e samba-rock é alcançada com participações do produtor Antônio Neves e de músicos como Tibitinha e o cearense Fernando Catatau, com quem já havia trabalhado no disco "Zelena" (2023).
"Ele consegue se aplicar a qualquer ritmo e gênero. Botei ele num samba-rock, e ele 'bagaçou' como sempre", desenvolve ao expressar a vontade de também fazer colaborações com Don L. As guitarras, os sintetizadores e os instrumentos de sopro dão o peso necessário para composições simples, mas não por isso menos impactantes. Enquanto o álbum de estreia tem um resultado mais experimental, "big buraco" é certeiro com leveza.
"Senti a necessidade de fazer um disco que chegasse mais carinhoso, de uma maneira mais sutil, que fizesse sentir mais do que pensar. A gente chegou nesse lugar mais cativante", elabora Jadsa. Assim, ela pega o que define como a "carruagem" que a transporta para perto do que ama. "Depois que comecei a fazer o disco, eu entendi que tudo pode ser um pouco mais simples. E que o simples é tão profundo quanto, só que num lugar de mais fácil acesso".
A produção foi indicada ao Grammy Latino 2025 e leva a cantora em turnê que chega a Fortaleza neste sábado, 17, em show na Estação das Artes como parte da programação do Festival Barulhinho Delas. Será a primeira apresentação na artista na capital cearense, com repertório permeado por uma base de guitarra e complementado com sopro e percussão. "Queria que esse show contemplasse um pouco mais o Nordeste do que os outros cantos desse Brasil, vai ser bem alto astral, vou tentar levar a essência do 'big buraco' e vários pedacinhos do 'Olho de Vidro'", promete.
Jadsa no Festival Barulhinho Delas