"Muitas vezes eu gostaria de saber escrever, juntar as frases, para formar um livro", diz Leonilson em uma reprodução de voz de um gravador que comprou, justamente, para guardar pensamentos que poderiam resultar em uma produção literária. "Eu acabo gravando todas as besteiras que eu penso durante o dia", continua. No mesmo registro, ele expressa o desejo de aprender a juntar áudios para construir sentenças maiores. Afinal, as palavras também são componentes das obras visuais do artista cearense. "As palavras que eu junto e faço frases nos trabalhos, elas são palavras amorosas. Tudo que eu escrevo é porque eu fico apaixonado", desabafa.
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O trecho faz parte de uma série de gravações realizadas entre 1990 e 1993, ano da morte do pintor. Na primeira fita cassete, é evidenciado o objetivo de desenvolver uma publicação com as próprias ideias sobre artes visuais e o papel como artista no mundo. Conforme os meses foram passando, também foram registrados as viagens, os amores e os sentimentos. Neste mês de janeiro, o sonho de Leonilson se concretiza com a publicação do livro "Leonilson: diários de uma voz - trechos transcritos". Organizada pelo escritor João Anzanello Carrascoza por meio da Sociedade Amigos do Projeto Leonilson, a obra reúne os transcritos de 19 relatos.
Com ouvido atento, o organizador entrelaçou uma linha que atravessas seis blocos: "Nada direi, tudo direi", sobre a linguagem escrita; "Um artista com fogo nas mãos", sobre o mercado das artes; "Costura da solidão"; sobre os amores; "A visão exterior", sobre viagens; "Anjos da guarda", sobre familiares e amigos; e "As bordas da dor", sobre aflições físicas e emocionais já no fim da vida.
Dispostos no interior de uma caixa transparente, seis livros distintos formam o conjunto. Em cada um, o leitor perpassa pelas passagens que ajudam a costurar Leonilson por inteiro. É como se ele, numa conversa com amigos, compartilhasse as surpresas e desilusões de uma fase complexa. A venda oficial começa nesta segunda-feira, 19, por meio do site do projeto (projetoleonilson.com.br).
"(Os arquivos) Revelam os pensamentos de seu coração, assim como os sentimentos de suas razões. Revelam, assim, suas inquietações íntimas, seus sonhos, sua intensidade artística, suas dores diante da doença que o levou à morte prematura", elabora João.
O POVO - De que maneira estes arquivos chegaram até você e o que motivou o desenvolvimento da publicação?
João Anzanello Carrascoza - O convite para organizar as fitas gravadas pelo Leonilson de 1990 a 1993, portanto em seus três últimos anos de vida, partiu de Renata Allucci e Leonardo Birche, produtores não apenas do projeto do livro, mas de um conjunto de ações para preservação e divulgação da obra do artista, com o pleno apoio da família, principalmente de Ana Lenice Dias Fonseca da Silva e Gabriela Dias Clemente, respectivamente presidente e diretora do Projeto Leonilson, instituição cultural considerada como centro de referência de vida e obra do artista Leonilson, fundada oficialmente em 1995, por familiares e amigos do artista com o objetivo de pesquisar, catalogar e promover suas obras. Motivo primordial para acolher este desafio foi a minha admiração pela obra de Leonilson e pelo uso singular da escrita em seus quadros, gravuras, bordados, desenhos etc.
OP - Quais foram as prioridades da curadoria para selecionar os materiais de "Leonilson: diários de uma voz"? Quais foram as principais complexidades para organizar este conteúdo?
João - Diante das 19 fitas, das quais 16 de fato se relacionam à ideia de Leonilson de fazer um livro (as demais três fitas contêm outros assuntos, alheios ao projeto), o primeiro passo foi ouvi-las inteiramente, e, depois, ler suas transcrições em busca das temáticas recorrentes, uma vez que explicitam as linhas de força do posicionamento do artista. O movimento seguinte foi enlaçar essas linhas em blocos, por meio dos quais é possível notar em gomos as cintilâncias das falas do artista, eliminando os comentários prosaicos, os cacos, as partes inaudíveis, já que Leonilson gravava não apenas em casa, mas em locais públicos (ruas, aeroportos etc.).
OP - Faz 32 anos desde a morte de Leonilson, mas ele continua dialogando com as novas gerações. O que o transforma em um artista multigeracional?
João - O que é demasiadamente humano, capaz de ser captado e materializado pelos grandes artistas (em narrativas, músicas, pinturas, seja qual for suas formas de expressão), sempre transcenderá o tempo em que foi gerado.
Leonilson: diários de uma voz - trechos transcritos
Quanto: R$ 100; vendas em http://www.projetoleonilson.com.br/