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Peça 'Hecatombe' é apresentada no Theatro José de Alencar
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Peça 'Hecatombe' é apresentada no Theatro José de Alencar

"Hecatombe" sobe ao palco principal do Theatro José de Alencar para transformar o Teatro do Absurdo em espelho de um mundo onde o colapso é cotidiano
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O espetáculo
Foto: TIM OLIVEIRA/DIVULGAÇÃO O espetáculo "Hecatombe é o trabalho de conclusão da Turma Noite do Curso Princípios Básicos de Teatro (CPBT)

Um território sem tempo definido e sem geografia reconhecível. Um cenário árido e perturbador. Nesse contexto, personagens cavam em torno do "poço", algo semelhante a um purgatório vivo que devora corpos já esgotados e devolve à superfície apenas aqueles considerados "úteis ao trabalho". É nesse contexto que se ergue "Hecatombe", espetáculo de conclusão da Turma Noite do Curso Princípios Básicos de Teatro (CPBT), iniciativa de formação cênica do Theatro José de Alencar, em Fortaleza.

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Baseada no ritual grego conhecido por promover o sacrifício coletivo de 100 bovinos, a montagem propõe uma experiência sensorial e reflexiva que dialoga com a tradição do Teatro do Absurdo - movimento cênico iniciado na década de 1940 na França que rompe com formas tradicionais de narrativa. Ao mesmo tempo, "Hecatombe" atualiza questionamentos para um futuro distópico em que a catástrofe se tornou rotina e a repetição da miséria, um método de controle.

O espetáculo apresenta um "não-lugar" desértico e suspenso entre rituais. Esse universo é regido pela adoração e devoção absoluta à "liturgia", texto sagrado que conduz a vida dos chamados "flagelados", sociedade alimentada pela promessa ilusória de um oásis. Cegos pela esperança, eles são vigiados de perto pelas "lideranças", responsáveis por manter a ordem, e pelas "crianças", figuras ambíguas que assumem o papel de deuses-donos de um mundo em miniatura.

É a partir dessa engrenagem cíclica de obediência, vigilância e sacrifício que "Hecatombe" lança olhar crítico sobre os mecanismos de manipulação, o poder simbólico de quem observa o colapso e a escolha consciente pela inércia diante da violência. Obviamente, a aparente estabilidade desse sistema, onde a miséria humana extrema é usada como ferramenta de dominação social, começa a colapsar.

Segundo Isadora Tardelli, integrante de um dos núcleos do espetáculo e responsável pela produção e pelo figurino, "Hecatombe" nasceu de um processo colaborativo. A atriz lembra que o processo de criação da montagem foi desenvolvido ao longo de quatro atos de exercícios cênicos e consolidou uma pesquisa intensa sobre o corpo em exaustão e a mente submetida.

"Foram 43 pessoas em uma sala pensando suas urgências, o que queriam dizer e como colocar isso no corpo. Foram meses muito intensos de criação, que resultaram em algo inédito. Toda a produção foi feita pelos atuantes. A concepção cênica, os figurinos, o canto, as coreografias. É um espetáculo de muita entrega física. Tivemos uma preparação intensa, com exercícios de exaustão mesmo, para sustentar a energia do começo ao fim. São 50 minutos em que o corpo está em estado máximo de presença", afirma a artista.

A trilha sonora e a sonoridade do espetáculo, segundo Tardelli, são parte central da experiência cênica. "A iluminação e a sonoplastia são 100% originais. As músicas foram escritas e compostas pelos próprios atuantes, os instrumentos são tocados por nós em cena. Existe uma alternância constante: uma hora estamos atuando, outra tocando. Isso exige muita concentração e entrega", explica.

Dialogando com obras clássicas do Teatro do Absurdo, como "Esperando Godot", de Samuel Beckett, e "O Rinoceronte", de Eugène Ionesco, a peça desloca essas referências para um contexto futurista, em que o absurdo não é mais exceção, mas regra. Ao apontar para um futuro distópico, "Hecatombe" provoca o espectador a reconhecer que esse horizonte não é tão distante quanto parece.

O mundo retratado em cena ecoa um presente em que o colapso já se anuncia no nosso cotidiano, onde a banalização das catástrofes, a repetição contínua do sofrimento e a naturalização da violência estruturam um cenário reconhecível. Com classificação indicativa de 14 anos, "Hecatombe" estará no Palco Principal do Theatro José de Alencar (TJA) no domingo, 25, com sessões às 18 horas e às 20 horas. Os ingressos estão disponíveis na plataforma Sympla.

Com direção da diretora, atriz e professora Neidinha Castelo Branco, o espetáculo reafirma a potência do CPBT - iniciativa de formação do TJA que contabiliza mais de três décadas de atuação no mercado cearense - como um espaço onde o teatro é vivido como experiência e investigação
social. O curso é conhecido como porta de entrada para as artes cênicas em Fortaleza, capaz de provocar artistas a pensarem o corpo, a cena e a sociedade de forma crítica.

 


"Hecatombe"

Quando: domingo, 25, sessões às 18 horas e às 20 horas

Onde: Theatro José de Alencar (Rua Liberato Barroso, 525 - Centro)

Classificação indicativa:
14 anos

Duração: 60 minutos

Sessões com Libras e audiodescrição

Quanto: R$ 20 (inteira) e
R$ 10 (meia-entrada)

Os ingressos estão disponíveis na plataforma Sympla e na bilheteria do TJA

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