Há quase 30 anos, em 15 de março de 1998, o poeta, dramaturgo e ensaísta cearense Floriano Martins teve o artigo “Um Exercício de Perplexidade” publicado no Vida&Arte. No texto, ele refletiu sobre a natureza e a função da crítica literária, apresentando visões sobre como ela não devia ser vista como “uma sentença” que domina o sentido de uma obra, mas como uma formulação de diálogo.
Naquela época, o Vida&Arte tinha apenas nove anos de criação, mas já estava estruturado como espaço para receber análises de diferentes autores e linguagens. Neste sábado, 24, o caderno completa 37 anos. O exercício da crítica, ainda que focado na Literatura, foi refletido há 28 anos. Entretanto, o caderno de Cultura do O POVO sempre expandiu suas compreensões.
Ao longo de quase quatro décadas, o Vida&Arte se consolidou como meio para discussão de ideias, tendências e obras - fossem no teatro, no cinema, na literatura, na música ou nas artes visuais. Os autores e as autoras se diversificaram, assim como o modo de escrever críticas. Hoje, em meio a tantas opiniões viralizadas na internet, ainda há espaço para a crítica?
Nesta matéria, críticos foram convidados a apresentarem suas relações com a área e como compreendem o campo da crítica atualmente. Se em 1998 a prática da crítica foi colocada em evidência, a discussão não fica para trás e assume outras demandas - principalmente a partir da digitalização e das redes sociais.
“A crítica me ajuda a sentir melhor as obras de arte que eu amo. É uma forma de imersão naquilo que nos toca, nos comove, nos transporta e nos transforma. O que a crítica faz é te dar ferramentas para conviver e experimentar com mais radicalidade as obras de arte”, analisa o dramaturgo, professor, crítico de teatro e doutor em Filosofia, Patrick Pessoa.
Após anos como crítico de literatura e de cinema, se tornou crítico teatral. Ficou interessado pelo caráter “aberto” dos espetáculos. “Posso apresentar uma possível visão de obra que quando faz sentido para o diretor, para a diretora, para as atrizes e os atores pode transformar o modo como ela será encenada no dia seguinte. Ao contrário de um filme e de um livro, uma obra teatral não está pronta. É uma arte viva”, indica.
Ao imergir como crítico no corpo das obras, Patrick montou pelo menos oito peças com essa dramaturgia. Então, compreendeu que “a crítica é uma forma de dramaturgia e a dramaturgia é uma forma de crítica”. Em seu livro “Metamorfoses da Crítica”, há críticas que são cartas, crônicas, diálogos, relatos autobiográficos, manifestos, o que a apresenta como um texto sem formato fixo.
“O senso comum nos leva aos jornais de meados do século XX e confunde crítica com o juízo. Toda a minha militância como crítico é para aproximar a crítica de uma forma de criação. A crítica é uma forma de arte, não de julgamento”, afirma. A prática da crítica não é atual e estudar sua passagem temporal é compreender mudanças de comportamento sociais.
Na década de 1950, por exemplo, críticos de teatro assumiram “uma missão civilizadora no Brasil”, como aponta o dramaturgo, crítico de teatro e doutor em Filosofia, Patrick Pessoa. Segundo o pesquisador, quando a crítica chega com legitimidade social, sobretudo na grande imprensa, vem com uma missão “civilizatória” que servia mais como um instrumento de colonialismo cultural.
“Pessoas que conheciam os cânones eruditos, geralmente da elite, que conheciam o teatro europeu e dos Estados Unidos, tentavam ensinar aos artistas do Brasil como eles deveriam fazer teatro e como seria um teatro de qualidade. Como a crítica era baseada em um cânone estrangeiro, os críticos se transformavam em juízes que, ao verem uma peça brasileira, diziam se estava bom ou ruim por estar, ou não adequado ao cânone ocidental e europeu”, explica Patrick.
Com o tempo, a crítica abre mão dessa “missão colonizadora” e passa a tentar enxergar as obras em seus próprios termos, relacionados à formação cultural de seus locais. A crítica passou também para outros suportes, como o digital, a partir da popularização da internet. Mais pessoas passaram a produzir textos analíticos e vistos como críticos.
Patrick defende o pensamento de que qualquer pessoa “pode se autorizar a construir um discurso crítico”. Ele não considera “saudável” um espectador não querer falar sobre uma peça por não ter formação em teatro, como se apenas os que conhecessem o cânone pudessem discorrer sobre.
Entretanto, não significa que todos os discursos têm o mesmo valor: “O fato de que todos a princípio estão autorizados a falar não significa que o produto de suas falas e do exercício de seu pensamento crítico terá o mesmo valor. O primeiro entendimento é que crítica não é juízo. Reconheço um mau crítico quando ele acha que é juiz para dizer se algo é bom ou ruim. Em geral, os bons críticos são muito ricos em adjetivos e estrelinhas. Classificam os espetáculos. O segundo critério é quando a pessoa que constrói o texto crítico assume o trabalho de criar uma visão pessoal do espetáculo que está analisando”.
Música
Como provar que sua atividade é relevante? Como garantir ao leitor que, ao opinar sobre um trabalho artístico, você não está apenas dizendo se ele é bom ou ruim? Além disso, como chamar a atenção em meio a um “mar de pessoas” emitindo série de opiniões sem “muito conteúdo”?
Os contextos vistos a partir dessas indagações demonstram os desafios enfrentados pela crítica atualmente. Os questionamentos são elencados por Marcos Sampaio, jornalista, editor-adjunto e crítico de música do Vida&Arte. No O POVO desde 2009, ele assina há mais de uma década a coluna musical Discografia.
Em meio ao avanço da internet e principalmente das redes sociais, escrever críticas de música exige atenção para aspectos que ultrapassam o texto. Além das condições citadas no primeiro parágrafo, há o desafio de lidar com o “mundo multiplataforma”, na avaliação do jornalista.
“Há o livro, o YouTube, a rede social, o jornal impresso, os blogs, o podcast… Dar conta de tudo isso beira o impossível. Ao escolher um deles, você se arrisca a ser irrelevante em todos os outros. Então, é uma eterna corrida contra o tempo. É bastante desafiador”, relata o crítico.
Um quarto elemento elencado por Marcos Sampaio é relacionado à região: a dificuldade de “chamar a atenção” nacionalmente fazendo música ou vivendo dela no Nordeste. O mercado no Eixo Rio-São Paulo acaba sendo maior e tendo maior projeção, o que leva muitos artistas a se mudarem para esses locais para maior destaque.
Nesse sentido, é menor no Ceará o mercado editorial voltado à música e também o público leitor. Assim, “toda uma cadeia é prejudicada por isso”. “Continuamos e continuaremos sendo reféns da música no Sudeste não sei por quanto tempo, mas é outro grande desafio de fazer crítica musical - nesse aspecto, especificamente aqui em Fortaleza”, opina.
Como relembra, viveu a parte final do mercado editorial voltado para a música, cenário no qual se destacavam revistas como a Bizz. Sua bagagem de conhecimento teve grande influência de matérias de jornais, revistas e livros - sua biblioteca é particularmente vasta. Obras sobre a história da música foram grandes aliadas. “Eu lia e leio tudo com muita voracidade e fome de conhecer a história da música”, revela.
Com o crescimento de sites, blogs e de pessoas emitindo opiniões em redes sociais, como fica o cenário da crítica de música hoje? O jornalista analisa: “É a velha faca de dois gumes. Que bom que há espaço para muitas opiniões, mas que opinião é essa? Ao mesmo tempo em que todo mundo tem esse espaço, na internet também aparece um bocado de pessoas que emitem opiniões baseadas exclusivamente nas suas paixões”.
Ele acrescenta: “Acredito que o crítico de música também seja apaixonado, tenha seus ídolos, mas quanto mais informações para embasar seus textos, melhor. O que vai dizer se alguém é um bom crítico musical é o que ele escreve. Costumo dizer que o que interessa não é dizer se um disco é bom ou ruim. Ruim para quem? Bom para quem? Não dá para comparar, por exemplo, a obra do Mozart com o disco da Timbalada. São momentos, propósitos e formas diferentes de escuta”.
Quais as dicas, então, para quem deseja se aprofundar como crítico ou virar um? Para Marcos Sampaio, é fundamental “ler muito”. “Se quer ter uma opinião sobre qualquer coisa - música, arte ou política -, precisa ler bastante. É saber que todo dia você aprenderá algo novo ou conhecer uma pessoa nova”, defende.
Ele reforça: “Fazer crítica é muito mais do que dizer se algo é bom ou ruim. É saber emitir opinião de forma plural e aprofundada. E o aprofundamento só vem se tiver muita informação na sua cabeça. Se eu reler textos meus de 15 anos atrás, provavelmente vou discordar - e que bom, temos que estar mudando mesmo, não podemos ser estáticos eternamente. A vida não é parada”.
Cinema
Em 2025, na seção de credenciamento de um dos maiores festivais de cinema do Brasil havia uma placa para “Imprensa/Influenciadores”. Ali, no Festival de Gramado, essa divisão demonstrava um aspecto que cresceu nos últimos anos: a presença de influenciadores e “contas que comentam filmes e séries”. O detalhe foi observado por Arthur Gadelha.
Jornalista do O POVO e crítico de cinema, ele cobriu o Festival de Gramado na ocasião e viu a placa para imprensa e influenciadores. Essa presença é um “fenômeno mais atraente para as equipes de marketing das distribuidoras do que os críticos”, na avaliação do jornalista, e “faz sentido do ponto de vista mercadológico”. Entretanto, é necessário refletir.
“A crítica não deve se pautar pela publicidade, pela exigência de um texto polido, e é por isso que ela vem perdendo espaço. Há convívio, assim como há influenciadores que são críticos, e vice-versa, mas é preciso reivindicar um espaço de reflexão autônomo, autêntico e respeitoso. A crítica também precisa se atualizar para alcançar novos públicos e não se ensimesmar na própria bolha”, avalia.
Nesse contexto mora um dos principais desafios da crítica de cinema atualmente: saber “construir esse convívio e para quem você está falando”. Para Arthur Gadelha, o cenário se torna ainda mais complicado com a dinâmica das redes sociais, na qual “o jornalismo fica refém do que as big techs pautam e das trends, porque o público não procura mais a notícia” e é ela que precisa chegar até ele.
“A crítica enfrenta a dificuldade de só responder, quando sua natureza é fazer as perguntas, apresentar filmes, olhar analiticamente e criar paralelos imprevisíveis… tudo isso parece ter se reduzido à academia, às revistas, aos simpósios, e fugiu do jornalismo. Ainda existe e resiste, mas é um grande desafio”, explica.
Ex-presidente da Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine) e votante do 83º Globo de Ouro, Arthur Gadelha discorre sobre outro aspecto que atinge a crítica no mundo digital: reações negativas - e por vezes até “agressivas” - do público. Para ele, o jornalista precisa estar à disposição para ser criticado, considerando que as críticas não representam verdades absolutas. Entretanto, também não podem perder a certeza.
“A melhor crítica é aquela que abre uma conversa, mas o engraçado é que nem sempre o crítico e o público estão abertos para isso. Quando se critica negativamente um filme muito amado, por exemplo, é comum que a reação pública seja muito agressiva, e grande parte dela não tendo sequer lido o texto. É preciso fugir das manchetes. Quando se lê, se argumenta, aí sim temos um cenário essencial para a vitalidade da crítica: ser questionada”, pontua.
Teatro e dança
Em 2025, foram 150 peças vistas. O número não é acaso ou dado momentâneo. Nos últimos seis anos, não teve um no qual Márcio Tito não tenha assistido a no mínimo 100 espetáculos. O ator, diretor, dramaturgo e crítico de arte cita as informações não para se vangloriar, mas como uma forma de demonstrar a relevância de construir repertório.
“Não é um número para eu ficar comemorando, como se dissesse: ‘nossa, eu vi tudo isso’. Entretanto, só eu sei o que 600 e tantas peças na sua cabeça fazem com você”, explica. Editor do site Deus Ateu e jurado do prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), Márcio Tito tem em sua trajetória vasta experiência: “Não existe crítico sem repertório”.
Foram centenas de críticas sobre linguagens como teatro, dança e performances e participações em festivais Brasil afora. Na sua rotina, assiste a espetáculos praticamente todos os dias, de segunda a segunda, e publica no dia seguinte texto sobre a obra vista. Seja teatro experimental, de pesquisa ou comercial, a presença é garantida.
Apesar de não trabalhar exclusivamente como crítico, Márcio afirma que a área o leva a outros lugares: “Ela gera valor para eu ter outros empregos. Quando eu era apenas ator, eu só podia vender meu trabalho de ator. Entretanto, como crítico, naturalmente entendo um pouco de história, dramaturgia, direção, criação, processo, ou seja, tudo que envolve uma peça de teatro. Geralmente, sou convidado a dar cursos em várias áreas. Isso não aconteceria sem a autoridade que a crítica empresta ao homem de teatro”.
Em sua avaliação, escreve crítica para o mercado de arte, não para o público. Seria como um texto mais técnico, mais voltado para o artista, e não exatamente para a plateia “comum”. Quanto à recepção de leitores e público, ele entende que hoje a crítica de teatro “não leva ninguém ao teatro”, mas ajuda a dar valor à obra - o que, inclusive, auxilia artistas a terem projetos aprovados em editais.
“Temos participado do valor invisível de uma obra. Sempre digo que a crítica não é arte, evidentemente, mas termina o produto artístico no imaginário das pessoas. Quando vou concorrer a um edital, é muito mais fácil se eu tiver crítica boa de oito pessoas. Entretanto, do meu ponto de vista, isso não se converte em público”, analisa.
Sobre a crítica no ambiente digital, com mais usuários “comuns” publicando análises, ele pondera: “Acho que estamos em uma época muito legal de pessoas poderem colocar suas opiniões, mas, ao mesmo tempo, é uma época muito pedagógica, na qual vamos começar a entender o valor da opinião. Acho que estamos no caminho certo, mas não posso dizer que não é um caminho tortuoso”.
Artes visuais
Por muito tempo, a crítica de arte seguiu ritmo bastante pautado no “julgamento do que é bom ou ruim, baseando-se mais na técnica das obras do que na poética em si”. Entretanto, com a chegada da arte contemporânea nos finais dos anos 1960 para o início dos anos 1970, “tudo isso é posto em xeque”: o conceito de arte, de artista, a materialidade e o próprio papel do crítico.
A avaliação é de Ana Cecília Soares, curadora cearense, jornalista, pesquisadora e integrante da Associação Brasileira de Crítica de Arte (ABCA). Para ela, o contexto citado é um momento no qual “a técnica, apesar de ser importante, não é mais a grande definidora de um trabalho”.
“Com todas essas mudanças, a crítica passa por um processo de se autoavaliar, rever seu sentido e questões, buscando e configurando novas formas de ser. Um processo que, na minha opinião, continua a se ressignificar”, pondera. Segundo a pesquisadora, no início dos anos 2000 existiam muitos blogs, sites e revistas da área, mas com o tempo “isso foi se transformando e enveredando por outros caminhos ainda amorfos”.
Com doutorado em Artes na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ana Cecília criou em 2008, ao lado do artista visual Júnior Pimenta, a revista Reticências, que chegou à 6ª edição e virou loja no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC). A revista surgiu pelo desejo de promover mais debates sobre a arte contemporânea.
Além disso, a partir da Reticências o casal tem o objetivo de “aproximar gerações” e “fazer a revista circular por outros públicos” em torno da escrita de arte. Apesar de ser “complicado falar em consumo de crítica” no Brasil, Ana Cecília percebe interesse do público especializado por esse tipo de texto.
Para a pesquisadora, para um profissional ser considerado crítico é necessário “muito estudo, exercitar bastante, ouvir os artistas - sobretudo os mais velhos -, os curadores, conversar com outros críticos e investir em formação”. Ela defende que a crítica de arte não se trata de “simplesmente chegar e emitir uma opinião ou julgamento”.
“É um texto importante na mediação entre o público, a obra e o artista. Muitas vezes é o primeiro contato de uma pessoa com a obra de um artista. Por isso, quem escreve precisa ter grande responsabilidade nessa mediação”, compreende. É importante também não produzir “conclusões estanques e que limitem a discussão”. O leitor precisa ficar à vontade para tirar as próprias conclusões.
Entre os desafios da crítica de arte estão “certa timidez na escrita” em casos nos quais os autores têm “medo” de serem cancelados por instituições por elaborarem textos mais ferozes ou questionadores. Outra é questão é como alcançar os mais jovens, agregando linguagem das redes sociais ao texto crítico. Ana Cecília sugere o perfil @oexartista no Instagram, com postagens repletas de “ironia elegante” e reflexões profundas.
Curso
O dramaturgo e crítico Patrick Pessoa ministra entre 23 de fevereiro e 15 de março o curso gratuito “A Arte da Crítica”. A atividade é voltada a jornalistas, estudantes, artistas e pesquisadores interessados em crítica de teatro e dança. No curso, o profissional apresenta os fundamentos históricos e teóricos da crítica teatral, reunindo referências que vão da filosofia clássica às reflexões contemporâneas.
Há também discussões sobre o ensaio como forma de crítica atual e análise de textos produzidos por críticos brasileiros em diferentes contextos. Na etapa seguinte, os participantes se reúnem presencialmente para acompanhar as apresentações de teatro e dança da 14ª Mostra de Artes da Porto Iracema (MOPI). São 15 vagas e as inscrições estão abertas por meio de formulário virtual.
É possível conferir mais detalhes no site