"Nós queremos o mundo e queremos agora". Essa frase de uma música de Jim Morrison (1943-1971), "When the music's over", me veio a cabeça ao pensar neste janeiro com tantos acontecimentos — alguns terríveis, assustadores no campo político — e o movimento da arte sempre nos salvando de não sucumbir à desesperança, abrindo as frestas da alegria.
Janeiro, que sempre parece mais longo, já foi um período em que se evitava fazer lançamentos antes do Carnaval. Se dizia: ninguém vai ouvir, o ano ainda não começou. Mas como temos pressa nesse tempo em que às vezes uma semana vale por um mês, eis que o começo de ano chegou cheio de boas novidades na música, especialmente na cena cearense.
Entre os lançamentos, a coletânea do Centro Cultural Belchior, "Sons de Fortal - O Fino da Cidade", nascendo do projeto "O Sonho e o Som", que selecionou dez artistas da cidade — Mumutante, Caiô, ROSABEATZ, Mateus Honori, B4tut4, Ayla Lemos, Joana Lima, Otto Nascimentu, Dipas (com Mateus Farias e EDNOBEAT) e Zabeli, sob o novo selo musical, Iracema Sounds —, disponível nas plataformas.
A compilação, produzida por Daniel Ganjaman e Marcos Au Coelho, foi lançada em show no Anfiteatro da Beira-Mar, lotado para ver música autoral cearense, como nos bons tempos da Volta da Jurema, que também já foi palco do projeto "Retratos do Vento".
Também Caio Castelo chega com seu novo álbum, "V", a partir de 30 de janeiro nas plataformas. E Caio pensa em nossa era "dispersa, anestesiada e em desacordo", como ele diz, para refletir sobre o oposto disso - atenção, empatia e presença. O quinto álbum de Caio, produzido por ele, é conduzido pelo rock, com incursões sonoras que remetem algumas vezes à uma atmosfera progressiva. O show de lançamento acontece no dia 6 de fevereiro, na HiFive Discos (Vila Bachá, 5).
O primeiro trimestre ainda promete o álbum de estreia de Alice David ("Análise Selvagem", projeto iniciado e, em parte, gravado no estúdio do Laboratório de Música da Escola Porto Iracema das Artes). E mais uma compositora cearense, Emília Schramm, com álbum pronto para lançar, "Menina Azul Estrela", produzido por Felipe Couto.
Além dos lançamentos digitais, janeiro trouxe à cidade shows de compositoras, numa surpreendente e benfazeja onda feminina com Tulipa Ruiz; Jadsa, Catto, Djuena Tikuna, Clarice Ayres e Roberta Kaya (no Festival Barulhinho Delas), Maria Gigi Tubiba e Cátia de França (com o anfiteatro do Dragão do Mar lotado pela ver a lenda de 78 anos), Yayá Vilas Boas, Pulso de Marte. Continuando na última semana com Céu e Laryssa Luz.
Tulipa se apresentou com seu irmão, o músico e produtor Gustavo Ruiz, no show "Noire", que traz algumas músicas do álbum "Habilidades Extraordinárias" (cuja turnê ainda não chegou a Fortaleza) e fez um passeio acústico por seu repertório, chegando aos hits "Efêmera" e "Só sei Dançar com Você", além de "Da Maior Importância" (Caetano Veloso). Violão e camadas de voz que transformaram o teatro da Caixa Cultural numa aconchegante imersão sonora.