Quando estreou no 82º Festival de Veneza, em agosto de 2025, "A Voz de Hind Rajab" se tornou um favorito imediato de público e crítica após ser aplaudido por mais de 20 minutos. De repente, a tão proibida bandeira da Palestina estava sendo esvoaçada dentro do grandioso Palazzo Del Cinema, obra construída sob o regime fascista de Mussolini nos anos 1930.
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Dirigido pela tunisiana Kaouther Ben Hania, a trama é inspirada na história real de Hind Rami Iyad Rajab, criança de seis anos que foi vítima de um ataque de Israel em Gaza em janeiro de 2024. A garota liga para a emergência após ser a única sobrevivente de um bombardeio no carro em que sua família estava. No banco de trás, sozinha, ela está rodeada de cadáveres.
Na quinta-feira, 22, o longa entrou para a lista de indicados na categoria Melhor Filme Internacional do Oscar 2026. A produção concorre diretamente com o brasileiro "O Agente Secreto" e também disputa o prêmio com os longas "Valor Sentimental" (Noruega), "Foi Apenas um Acidente" (França) e "Sirât" (Espanha).
"Para mim, era muito importante dizer: isso é verdade, isso realmente aconteceu", conta a diretora ao O POVO em coletiva de imprensa. "Ao longo de todo o filme há instantes em que o ator para de atuar para ouvir a personagem real falando com ele", comenta a diretora tunisiana sobre o exercício sufocante de ficção e documentário.
A maior parte da dramaturgia de "A Voz de Hind Rajab" acontece dentro de um escritório do Crescente Vermelho, movimento humanitário como a Cruz Vermelha, acompanhando em tempo real o atendimento à chamada. O gancho que golpeia a audiência, porém, é muito mais cruel: a voz que ouvimos no filme é a gravação real da garota.
"Eu entrei em contato com o Crescente Vermelho, porque o que eu tinha visto na internet era apenas um pequeno trecho. Eu queria que eles compartilhassem comigo toda a gravação e que eu entendesse o que havia acontecido nos escritórios deles em torno daquele registro", explica a cineasta - que foi prontamente atendida pela organização e recebeu o registro com 70 minutos, além de outras imagens.
O momento de maior fricção entre encenação e realidade acontece quando uma pessoa aparece filmando um diálogo com o celular. Enquanto vemos os atores ao fundo, desfocados, a tela do aparelho revela a gravação do momento, com as pessoas que viveram aquele instante.
"A Voz de Hind Rajab", afinal, não é sobre saber o que acontece. A invasão em curso em Gaza segue condenando milhares de palestinos a histórias tão trágicas quanto às dessa garota. Para dar essa gravidade, Kaouther cruza documento e vida de um jeito cru que sabe denunciar sem esconder a crueldade.
Embora esse formato estético tenha causado opiniões controvérsias sobre a linha moral e ética da exposição da criança, a diretora foi franca ao explicar como estabeleceu esse diálogo: "Quando decidi seguir em frente, entendi que o meu trabalho como cineasta era contar essa história da forma mais respeitosa possível. Eu também precisava contá-la no tempo presente, porque, quando ouvi a voz dela, ela soava muito viva, muito no agora".
O filme "A Voz de Hind Rajab" estreia no Brasil na próxima quinta-feira, 29. Em Fortaleza, a primeira exibição acontecerá na sexta-feira, 30, às 19h30min, na Mostra RetroExpectativa do Cinema do Dragão.