"A gente sentia muita falta de ver corpos transexuais, tanto nos espaços culturais como nos espaços de mercado de trabalho. Como construir novos imaginários de pessoas transexuais negras com essa imagem do poder, a imagem do luxo, a imagem da felicidade. Trabalhar esses corpos sob uma perspectiva de amor, de afeto, e de memória, que elas pudessem estar num lugar de destaque", contou Raí Kehinde, diretor da iniciativa Negruras, organizadora da exposição "Diamantes Negros".
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Com entrada gratuita, a mostra chega a multigaleria do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura como parte da programação do mês da Visibilidade Trans. A exposição traz um ensaio fotográfico que levanta o questionamento de como as pessoas transsexuais são vistas na sociedade, remetendo o direito à memória e destaque para a comunidade.
O ensaio foi produzido pelos fotógrafos Nair Beatriz e Carll Souza, negros e integrantes da comunidade LGBTQIAPN+ e formados na região do Grande Pirambu. A ideia é, além de contrapor uma narrativa histórica, expor diversidade, pluralidade e vivências, construindo uma nova imagem da comunidade no Ceará, afirmou o diretor.
"A exposição provoca a sociedade a refletir sobre que lugar a gente tá acostumado a imaginar pessoas transexuais, a construir novas imagens desses corpos e se acostumar mesmo com a gente", pontua.
O Negruras foi responsável pela realização da exibição. A iniciativa faz parte de uma organização sem fins lucrativos que realiza ações de pesquisa e cultura em ancestralidades negras cearenses. O coletivo surgiu em 2021, em formato de festival, buscando trazer esse espaço de visibilidade para as pessoas negras e trans no Ceará, sempre no âmbito da arte.
"Esse é um dos nossos maiores objetivos enquanto organização. De forma criativa, ações que venham a fazer promoção, e ser um espaço de acolhimento para esses corpos negros, trans e dissidentes. O que a gente vem fazendo é tentar construir uma perspectiva de articulação em rede que seja a nível Ceará, fazendo uma movimentação sobre transexualidade e acolhimento", completou Raí, que é formado em Ciências Sociais e atua como escritor.
Em 29 de janeiro é comemorado o Dia Nacional da Visibilidade Trans, data criada em 2004, e que marca a luta pelo fim da violência e a importância da lembrança e do respeito à comunidade. O Brasil ocupa, há 15 anos, a posição de país que mais mata pessoas transsexuais e travestis no mundo, segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), em dossiê divulgado nesta segunda-feira, 26.
Ainda que esse cenário seja preocupante, ações como a "Diamante Negros", realizadas pelo Negruras, tentam contribuir para romper esse ciclo de margem, de silenciamento e sofrimento, e a forma como a comunidade é vista.
A presença de exposição em um equipamento público, como o Dragão do Mar, é importante para que pessoas, que muitas vezes têm seus direitos negados, se sintam parte da sociedade, destaca o diretor em conversa com O POVO.
"Mostrar que esse espaço também é nosso, que a gente existe e que a gente quer existir com dignidade. Ocupar esses espaços, com pessoas transexuais, negras, onde a gente consiga ter novas imagens para a sociedade, uma imagem onde nós, pessoas trans não fiquemos escondidas", completa.
A mostra tem apoio da Secretaria de Cultura do Ceará, por meio do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em colaboração com o Instituto Dragão do Mar, e parceria do Centro Cultural Belchior, sendo selecionada no 4º Edital Cultura e Arte LGBTQIA+, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc, do Ministério da Cultura.
Toda a equipe do projeto foi composta por pessoas LGBTQIA+, negras e periféricas, integrando e dando destaque para quem esteve envolvido. O espaço conta com acessibilidade como: legendas em Braile, Libras, abafadores de ruídos e sinalização tátil.
Exposição Diamantes Negros
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