No Interior do Ceará, o vento não é apenas um fenômeno climático. Ele anuncia a noite, refresca o calor do sertão e convoca encontros nas calçadas. Patrimônio imaterial do Estado, ele atravessa quilômetros de território, saindo do Litoral Leste e alcançando municípios banhados pelo Rio Jaguaribe.
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É dessa experiência cotidiana que nasce "Aracati", espetáculo dirigido e interpretado por Edceu Barbosa, artista que transforma a memória em cena e o sopro da natureza em debate político e poético. Nos palcos, essa presença invisível ganha corpo, voz e dramaturgia, num trabalho que costura lembranças de infância, narrativas familiares e reflexão crítica. A peça é apresentada em curta temporada, neste fim de semana, no Teatro Dragão do Mar.
"O tema central do espetáculo é a memória. Desde a minha infância eu já ouvia falar sobre o vento Aracati. Além disso, eu também o sentia. Existe algo quase ritualístico quando ele chega", conta Edceu, conhecido por sua longa trajetória artística no Cariri, articulada entre criação, pesquisa e gestão cultural. Na academia, é doutorando em Artes da Cena pela Escola Superior de Artes Célia Helena (ESCH/Proa), e mestre em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Nascido em Acopiara, ele lembra que, por volta das 20 horas ou 21 horas, a chegada do vento era anunciada quase como um acontecimento coletivo. "As pessoas identificam porque é um vento diferente, com um frescor que refresca o calor intenso do sertão. Por isso, ele adentrou tão profundamente o imaginário das cidades do Interior".
A cena se constrói através do elo entre passado e presente, avó e neto, lembrança e esquecimento. Inspirado nas histórias partilhadas com a avó Maria de Lourdes, que também aparece como narradora no espetáculo, Edceu aposta no gesto simples de contar histórias. "Lembro da minha avó chamando as pessoas para irem à calçada, porque ali ia se refrescar".
"Aracati" não se limita a falar sobre o tempo. Ao lembrar do recurso como fenômeno vital, responsável pela fertilização, pelo deslocamento de aves e pela reorganização da paisagem, o espetáculo debate o modo como esse mesmo elemento vem sendo apropriado pelo ser humano. "Dentro de um capitalismo extrativista, ele virou produto", afirma o artista.
Durante a pesquisa, realizada por meio do Laboratório Cênico Cariri e iniciada em 2022, Edceu visitou fazendas eólicas no Litoral Leste do Ceará e se deparou com impactos sociais e ambientais. Comunidades afastadas de seus territórios, adoecimento emocional, poeira constante, perda de qualidade de vida e prejuízos à fauna fazem parte desse cenário.
"Existe um discurso muito forte de energia limpa e renovável, mas ele acaba engolindo esses impactos", critica o diretor. A própria palavra Aracati, de origem tupi, significa "bons ventos". Para Edceu, a pergunta que atravessa o espetáculo é direta: bons ventos para quem? "Os benefícios dessa capitalização não ficam para quem mora no território. Eles vão para fora. É uma lógica colonial que antes roubou madeira e ouro, e agora rouba o vento", destaca.
Armando Praça, dramaturgo do espetáculo, defende que o meio ambiente é o "grande assunto da humanidade no século XXI". "Quando o Edceu me convidou para colaborar, eu já vinha muito incomodado um pouco com a presença dessas usinas. A gente está chegando no momento da história da humanidade em que se isso não for encarado, a gente deixa de existir como espécie. Faz parte do nosso trabalho como artista olhar para isso", defende.
Natural do município de Aracati, no Litoral Leste, Armando traz para o processo uma vivência direta com o fenômeno que dá nome à obra. Foi ao percorrer o interior do Ceará, no entanto, que essa memória ganhou mais significado.
"Ver as pessoas se sentarem à noite nas calçadas para esperar o vento tornou tudo mais vivo. É muito bonito pensar num vento que tem nome próprio e estabelece uma relação tão íntima com quem vive às margens do Rio Jaguaribe. Foi uma honra fazer parte do processo e que bom que o público de Fortaleza vai poder ter acesso a esse trabalho", pontua.
Esteticamente, o espetáculo aposta na simplicidade e na proximidade típica do teatro narrativo. A imagem dos varais (roupas estendidas que balançam ao vento), o figurino cotidiano, a iluminação que revela atmosferas e a configuração cênica em semi-arena aproximam público e ator, criando uma experiência intimista, quase como uma conversa ao pé da calçada.
"Aracati" estreou em 2024 e já integrou mostras e festivais no CraJuBar, perímetro formado pelas cidades de Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha.
Aracati