Mais do que um festival de cinema, a Mostra de Tiradentes se consolidou, ao longo de quase três décadas, como um espaço de experimentação, reflexão crítica e afirmação do cinema brasileiro independente.
Na 29ª edição, realizada entre os dias 23 e 31 de janeiro em Tiradentes, Minas Gerais, o evento voltou a reafirmar esse papel ao reunir filmes, debates, encontros e uma intensa programação artística atravessada pela temática da "Soberania Imaginativa", eixo que norteou curadorias, diálogos e escolhas estéticas desta edição.
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Tradicional vitrine para obras autorais, a Mostra apresentou pré-estreias nacionais e internacionais, além de categorias como Aurora, Panorama, Foco, Olhos Livres, Mostrinha e sessões ao ar livre na praça, ampliando o diálogo entre realizadores e público.
Tiradentes voltou a se afirmar como um território de lançamento, circulação e pensamento do cinema brasileiro contemporâneo, especialmente em um momento de retomada e reconstrução do setor audiovisual.
Um dos destaques foi a forte presença do cinema cearense, com oito filmes, distribuídos entre curtas e longas-metragens, evidenciando a diversidade estética, política e territorial da produção do Estado com os seguintes títulos: "Do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto", "Faísca", "Cavalo Serpente", "O Ponto do Mel", "Na Estação das Mangas Ela Alimenta o Bairro Inteiro", "O Tempo que Me Resta", "VAMPIRO" e "Mydzé — Memorial Isú-Kariri & Unides contra a colonização: muitos olhos, um só coração".
A programação também foi atravessada por debates centrais para o setor, como a regulação das plataformas de streaming, tema do Fórum de Tiradentes, que reuniu representantes do poder público, produtores e realizadores para discutir os impasses políticos, econômicos e culturais em torno da presença das big techs no audiovisual brasileiro.
Dados apresentados durante a mesa reforçaram a baixa presença de obras nacionais nos catálogos das plataformas e a urgência de políticas públicas capazes de garantir diversidade, circulação e sustentabilidade para a produção independente.
Além das salas de cinema, a Mostra ocupou espaços públicos da cidade com ações gratuitas, a exemplo de shows, cortejos, performances, exposições e lançamentos. A atriz Karine Teles foi a homenageada desta edição com o troféu Barroco, em reconhecimento a uma trajetória marcada pela inquietação criativa e pela atuação em mais de duas décadas de profissão.
Fabulação, memória e narrativa
Entre os filmes cearenses exibidos, dois longas-metragens se destacaram pela força conceitual e pelo diálogo direto com a proposta de Tiradentes como espaço de invenção estética e política: "Do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto" e "Cavalo Serpente".
Exibido na Mostra Panorama, "Do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto", dirigido por Weyna Macedo, Lucas Parente, Adeciany Castro e Mariana Smith, revisita a experiência comunitária liderada pelo Beato José Lourenço, no sul do Ceará, destruída em 1937 após ser bombardeada pela Força Aérea Brasileira.
Distante de uma abordagem histórica tradicional, o longa propõe um gesto sensorial e experimental, lidando com a memória a partir da materialidade da imagem.
Em entrevista durante a Mostra, o diretor Lucas Parente explicou que a proposta do filme foi justamente escapar da lógica explicativa.
"É uma história que costuma ser tratada de forma documental mais clássica, mas cuja fala nunca dá conta da experiência, porque o Caldeirão foi algo irrepetível", afirmou.
Segundo ele, o longa busca lidar com o caráter irrecuperável daquela vivência comunitária e com a violência de seu apagamento histórico.
Filmado em 16mm com película vencida, encontrada em um antigo depósito da Aeronáutica no Recife, o filme aposta nos ruídos, marcas e abstrações da imagem como linguagem.
"Desde o início, a proposta era utilizar a película vencida e filmar o Caldeirão sem dizer nada diretamente. É quase o contrário de um livro de história, porque não há narração. O espectador é quem projeta, imagina o que aconteceu", explicou Parente.
Para ele, o resultado cria uma "presença da ausência", em que a imagem carrega vestígios de algo que aconteceu e continua a reverberar.
Já o curta-metragem "Cavalo Serpente", exibido na Mostra Foco, marca a estreia pública do filme de Priscila Smiths e propõe um gesto radical de deslocamento do olhar.
A obra nasce, segundo a diretora, de uma experiência de violência que não se manifesta de forma explícita, mas se instala no campo do olhar, especialmente nos espaços do cinema e da academia.
Durante o bate-papo em Tiradentes, Priscila compartilhou o impacto de ver o filme pela primeira vez com o público.
"Essa coisa de ver coletivamente o filme é algo que, dentro do processo, me chega muito forte. Ver esse menino no mundo, depois que terminou a sessão… parece que ele realmente nasceu e tá aí", disse, ao descrever o sentimento após a exibição.
A diretora explicou que "Cavalo Serpente" nasce de um desejo de resposta aos olhares violentos dirigidos a corpos negros periféricos.
"O filme nasce dessa vontade de revanche, de revide, de resposta a esses olhares. Eu, como menina da periferia, como corpo negro periférico que está nesses espaços, entendo bem que olhar é esse", afirmou.
Ao longo do processo, Priscila optou por não representar a violência de forma direta, nem substituí-la por imagens idealizadas.
"Eu não queria fazer uma substituição da representação do negativo pelo positivo. Também não queria negar esse lugar. Eu queria sair desse dualismo", explicou.
Para ela, o filme busca um outro gesto de olhar, que permita encarar a ferida sem a pretensão de cura ou conciliação.
"Pensar em como eu poderia olhar de volta,
olhar para essa ferida com um espelho que olha de volta", completou.
Em "Cavalo Serpente", crianças, meninas e mulheres compartilham um mesmo corpo em transformação, atravessando tempos, memórias familiares e dimensões espirituais de forma não linear.
Os personagens encaram a câmera e interpelam o espectador, invertendo a lógica passiva do olhar e afirmando a agência desses corpos na construção da narrativa.
Ao reunir filmes que apostam na fabulação histórica, na memória sensível e em outros regimes de imagem, a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes reafirma seu papel como um dos principais espaços de circulação, debate e invenção do cinema brasileiro contemporâneo.
Em um momento decisivo para o audiovisual nacional, Tiradentes segue como território de encontro até o último dia de programação, neste sábado, 31.
*A jornalista viajou a convite da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes