Respeitável público: antes de você ocupar as cadeiras, de as luzes se acenderem e de o primeiro número atravessar o picadeiro, o circo já está em pleno funcionamento.
Ele existe antes do espetáculo e segue vivo depois que a lona se fecha. Está na estrada percorrida, no terreno negociado, nos corpos que se adaptam a cada nova cidade e nas famílias que transformam a itinerância em modo de vida.
O circo não chega sozinho. Instala-se como uma cidade em movimento, com regras, rotinas, histórias e desafios que o público raramente vê.
Na Avenida Washington Soares, em Fortaleza, o Circo Americano ocupa um espaço que carrega memória circense. Para quem vive essa rotina há décadas, o local se consolidou como um território tradicional para a passagem de circos.
"Esse local aqui da Washington Soares já é tradicional para circo. Vários circos já trabalharam aqui", explica o chileno Mário Olavaria, gerente do Circo Americano. Responsável pela logística e pela administração, ele é um dos principais articuladores para que essa cidade móvel funcione.
"Hoje nós temos 32 carretas. É uma mini cidade rodante", conta. A estrutura envolve moradia, transporte, fornecimento de energia e água, segurança, alimentação e, claro, o espetáculo.
A chegada de um circo a uma cidade está longe de ser improvisada. O trabalho começa meses antes de a lona ser erguida, com planejamento e múltiplas frentes de ação.
"Existe uma equipe de marketing que vai na frente de todo mundo para cuidar disso: aluguel do espaço, análise do local, contato com os responsáveis", explica Mário. As negociações envolvem proprietários de terrenos, shoppings, prefeituras e órgãos reguladores.
"Hoje em dia é mais fácil porque os locais já são costumeiros. Todo mundo se conhece, conhece os proprietários. O aluguel acaba ficando mais simples. O shopping, por exemplo, facilita bastante, porque o contato é direto com o setor de marketing", detalha. Ainda assim, o planejamento nunca se apoia em uma única vertente: "Enquanto estamos em Fortaleza, já tem gente estudando a próxima cidade. E não apenas uma cidade: precisamos ter pelo menos duas opções prontas".
A razão é objetiva: o circo não pode parar. "Pode acontecer uma catástrofe natural ou algum problema que impeça a realização do espetáculo. Por isso, precisamos sempre ter uma segunda opção, às vezes até uma terceira", explica Mário.
A preocupação não é abstrata. "Temos cerca de 70 a 80 pessoas que dependem exclusivamente do nosso faturamento. São artistas, técnicos, montadores, bilheteiros, costureiras, produtores, famílias inteiras. Não dá para trabalhar com apenas uma alternativa. Se algo der errado, como faz?", questiona o gerente, que também já foi acrobata e, com o passar dos anos, viu o corpo pedir pausa, optando por seguir nos bastidores.
Além da logística física, há uma burocracia extensa. "É preparar propaganda, mídia, alvarás, licenças. É muita coisa. Às vezes é até difícil explicar, porque as autoridades, em geral, não ajudam. O circo não tem incentivo, não tem apoio. Trabalha por conta própria e paga seus impostos", ressalta.
Em Fortaleza, segundo ele, o processo ocorreu dentro da normalidade. "Está tudo certo. Tudo é feito antes de chegar. Para trabalhar, já precisamos ter todas as autorizações: Corpo de Bombeiros, licença sanitária, alvarás".
Se, para a gestão, o circo é planejamento e resistência, para quem nasce nele é destino. Marcos Martinelli, equilibrista e trapezista, não conheceu outro mundo antes do picadeiro. "Nunca teve um plano B. O plano A sempre foi o circo. O plano B também é o circo", diz.
A vida afetiva, no entanto, precisou aprender a lidar com a lógica itinerante. Foi em uma cidade de passagem que Marcos conheceu Andreia Freitas, assistente de palco. Diferente dele, ela não vinha de família circense. O encontro virou paixão, mas a distância se impôs. Enquanto ele seguia com o circo, ela permanecia na cidade, presa a uma vida que não se movia na mesma velocidade.
A relação atravessou quilômetros e incertezas até que o amor falou mais alto. Andreia decidiu seguir com Marcos e com o circo. O que começou como um relacionamento à distância virou projeto de vida. Estão juntos há 12 anos e construíram uma família sob a lona.
"É muito bom para a criança", diz Andreia sobre criar um filho no circo. Miguel, de oito anos, cresce cercado por outras crianças, ensaios e espetáculos. A escola, no entanto, é um ponto delicado. "Na escola é um pouco mais complicado por estar sempre mudando", reconhecem.
A realidade enfrentada pelos circenses é reconhecida legalmente. A Lei Federal nº 6.533/1978 assegura vaga e transferência em escolas públicas e autoriza matrícula em instituições particulares para filhos de profissionais itinerantes, mediante apresentação do certificado da escola anterior. Há, inclusive, projetos que buscam reforçar essa obrigatoriedade e simplificar o processo, reconhecendo o circo como domicílio. Na prática, porém, nem sempre a legislação é suficiente para evitar constrangimentos. Famílias relatam resistência por parte de instituições que desconhecem — ou ignoram — a legislação.
Para quem chega ao circo por escolha, e não por herança, o impacto é outro. A bailarina cearense Gisele Correia, 24 anos, vive essa experiência há cinco meses. Criada no bairro José Walter, em Fortaleza, ela fala com empolgação sobre uma rotina que lhe parece fascinante, como se cada dia carregasse algo de estreia, inclusive nos bastidores, onde o espetáculo começa antes das luzes brilharem.
Entre camarins, figurinos e maquiagem feita por eles mesmos, tudo exige autonomia e rapidez, mesmo quando a saudade de casa aperta. O convite veio pelas redes sociais: "Eu conheci o coreógrafo daqui de Fortaleza, o Nalbert Alburquerque. Ele fez um post no Instagram dizendo que estava precisando de bailarina. Eu me inscrevi, fiz um teste e passei".
As roupas usadas nas apresentações são responsabilidade do elenco: se uma peça descostura pouco antes do espetáculo, são eles que costuram. Para quem sempre viveu no mesmo bairro, a estrada passou a ser endereço. Ainda assim, a decisão foi acolhida pela família: "Todo mundo adorou. Todo mundo apoiou".
A rotina mudou. "É diferente a vida da cidade e a vida do circo". Além das apresentações, o dia a dia exige adaptação aos horários e à intensidade da programação. Nos fins de semana, quando costumam acontecer mais espetáculos, as refeições são feitas nos intervalos, encaixadas no tempo possível, antes de voltar ao camarim para trocar de roupa e retocar a maquiagem.
Nos bastidores, longe da lona, o riso costuma surgir depois da confiança ser construída. Foi assim com os palhaços do Circo Americano: encontrados inicialmente entre um trailer e outro, eles ficaram contidos diante da equipe do O POVO.
Antes de chegarem a Fortaleza, estavam em São Paulo, onde permanecem os trailers em que moram. Convidados para integrar a temporada do Circo Americano na Capital, vieram sem a própria casa sobre rodas
Celso Alberto Stevanovich, o palhaço Matraca, de nacionalidade argentina e 53 anos, nasceu no circo e fala com a naturalidade de quem nunca conheceu outra forma de vida.
"Minha família veio da Europa depois da Segunda Guerra Mundial, e a família foi se espalhando. Alguns são do circo, outros são artistas. Hoje estou aqui com minha família", conta. O filho - Celso Alberto Stevanovich Filho - quinta geração de uma família circense e conhecido no picadeiro como palhaço Morocó, demonstrava reserva. As respostas vinham curtas, medidas, em contraste com a desenvoltura que o público observa sob a lona.
Com o tempo, a conversa ganhou outro tom. Entre uma pausa e outra, em diálogo com o repórter fotográfico Aurélio Alves, Morocó começou a se soltar. O cenário ajudava: entre o camarim e os espaços de circulação, era possível ver pessoas penduradas limpando a lona e algumas crianças brincando.
"É a primeira vez que a gente está morando em apartamento. Eu sou tradicional de circo, sempre morei em trailer, acompanhava o circo onde eu estivesse. Pela primeira vez, agora, estou vivendo essa vida de cidade", disse Morocó.
A experiência causa estranhamento. Em Fortaleza, sem os trailers que ficaram em São Paulo, a família está hospedada em hotel. Mesmo assim, itinerância continua a marcar o cotidiano. Morocó viaja ao lado da esposa, Paloma Caetano, acrobata, e neste ano recebeu convites para apresentações na Europa, reafirmando a continuidade da tradição familiar em novos territórios.
O pai observa tudo com um olhar orguhoso: "A gente não conhece outra forma de vida. Sempre é mudança". A rotina, segundo ele, é pesada: desmontagem, estrada, montagem e espetáculo, quase sem pausas. "Domingo desmonta, segunda guarda tudo, terça desmonta o resto, quinta já está em outra cidade montando tudo de novo", relata Morocó.
Ainda assim, o riso precisa acontecer: "Às vezes tem pouco público, mas o espetáculo acontece do mesmo jeito. Já trabalhamos para duas, seis pessoas. A gente é profissional: entra, abre a cortina e faz como se estivesse lotado". Fora do picadeiro, o descanso é prioridade. "Quem é você quando não está no picadeiro?", foi a pergunta. "Fico descansando", respondeu Matraca, sem rodeios.