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Dias de Iemanjá: entenda porque a orixá é celebrada em datas diferentes
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Dias de Iemanjá: entenda porque a orixá é celebrada em datas diferentes

Esta segunda-feira, 2, é dia da Rainha do Mar em algumas cidades do Brasil. Em Fortaleza, a divindade é celebrada em agosto; entenda a diferença de datas
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Festa de Iemanjá ocorre anualmente em Fortaleza é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Cidade desde 2018 (Foto: Fábio Lima)
Foto: Fábio Lima Festa de Iemanjá ocorre anualmente em Fortaleza é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Cidade desde 2018

Se jogar "Dia de Iemanjá" no Google, o resultado é quase unânime: 2 de fevereiro. Mas, na verdade, esta segunda-feira é apenas um dos dias dedicados à Rainha do Mar. Em Belém, por exemplo, o dia é 7 de dezembro. Em Fortaleza, a celebração só ocorre em 15 de agosto. O que pode parecer uma confusão de datas é um sinal da diversidade dos povos de terreiro espalhados pelo Brasil.

"Nós poderíamos ter 184 datas diferentes porque nós temos 184 municípios", afirma Miguel Ferreira Neto, o Pai Neto Tranca Rua, sobre o Dia de Iemanjá no Estado. Pai de santo do terreiro Centro Espírita de Umbanda São Miguel, localizado no bairro Granja Lisboa, e mestre da cultura cearense, ele conta que os primeiros registros dos rituais dos povos de terreiro cearenses devotados a Iemanjá datam de 1745.

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"Nós não podíamos comemorar, fazer festejo em homenagem a Iemanjá. Então nós passamos a festejá-la no dia da padroeira da Cidade, que é a padroeira da igreja católica. Nós botávamos a imagem da santa católica em cima da mesa e fazíamos as afirmações para Iemanjá debaixo", relata. A associação da divindade com a santa é um exemplo de sincretismo religioso. Isso porque, para a Umbanda, Iemanjá é a mãe de todos os seres. Assim como uma padroeira, é ela quem cuida e protege.

Sincretismo religioso

Já a ligação com Nossa Senhora dos Navegantes, celebrada em 2 de fevereiro, se dá pelas simbologias correlatas. Afinal, na religião, é ela quem intercede pelos pescadores e embarcações. Para a pesquisadora e doutora em Geografia Ilaina Damasceno, o sincretismo "foi uma forma de manutenção das matrizes religiosas ao criar tempos e espaços para a expressão da religiosidade negra acontecer". Também foi uma maneira de traduzir os guias e orixás para aqueles que não pertecem às comunidades de terreiro.

Ela avalia a associação como uma estratégia de sobrevivência que, hoje, é uma ferramenta utilizada menos pelas práticas de terreiro do que pelos meios de comunicação, "reforçando a ideia de que as religiões afro-brasileiras e africanas precisam do cristianismo para serem explicadas".

"Usar o sincretismo religioso é uma forma de nunca perder de vista que a existência dessas religiões está submetida à autorização e à anuência do cristianismo católico", defende a autora do livro "Iemanjá em Verdes Mares", que trata da utilização do espaço público pelas religiões de matriz africana como estratégia de visibilidade.

Território e resistência

Pai Neto guarda na memória um cortejo a Iemanjá que viu aos seis anos de idade, quando o Brasil vivia o endurecimento da ditadura militar: "Especificamente em 1965, se você cantasse um ponto de caboclo, de Umbanda, na rua, você era preso por atentado ao pudor". Mesmo assim, eles iam à praia.

Em paralelo, conforme Ilaina Damasceno, que desenvolve pesquisas acerca das relações étnico-raciais e do espaço público, o Estado brasileiro e a ala conservadora do catolicismo estreitaram laços com procissões realizadas em organização conjunta das Forças Armadas, dos Comandos de Polícia e da arquidiocese em Fortaleza.

Nos anos 2000, a pesquisadora destaca uma mudança de narrativa, a fim de estabelecer "uma correlação com o processo de fundação e formação de Fortaleza" - a exemplo do santuário de Nossa Senhora da Assunção localizado no bairro Vila Velha, próximo à Barra do Ceará, onde aportaram os primeiros europeus na costa cearense.

"A Festa de Iemanjá é um evento religioso, mas, sobretudo, um processo de organização política das comunidades de terreiro. Estar presente no espaço público é fundamental para o reconhecimento da existência e para a reivindicação e a garantia de direitos já alcançados", declara Damasceno sobre o festejo reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial de Fortaleza pelo Decreto nº 14.262/2018.

Segundo a pesquisadora, o primeiro registro da Festa de Iemanjá em Fortaleza data de 1960, na Praia do Futuro. Pai Neto conta que, antes disso, o festejo chegou a ocorrer na Barra do Ceará e no Farol até migrar para a Praia do Futuro entre 1967 e 1968.

Em 2003, a Festa de Iemanjá foi levada para a Praia de Iracema, enfrentando resistência de outros grupos religiosos, e, graças à mudança de local, o festejo ganhou mais visibilidade e apoio do poder público.

 

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