Em setembro de 2018, o pequeno auditório da escola Porto Iracema das Artes lotava pela primeira vez uma sessão do Cineclube Âncora com alunos e professores, deixando até pessoas em pé ao fundo da sala. Aquela plateia tão interessada estava ali para assistir aos primeiros filmes de Karim Aïnouz, desconhecidos na esfera comercial e produzidos ainda nos anos 1990 no formato de curta-metragem. Sua origem, afinal, nunca deixou de ter certo mistério: que cearense é esse com nome árabe?
No primeiro filme exibido naquela noite, "Seams" (1993), ele tenta traduzir o Brasil, o Ceará e a própria família amplamente feminina, povoada por tias, avós e mães, testemunhas de um tempo que já não era o dele. "Naquela época era tudo começo. Eu não sabia se queria mesmo fazer cinema", conta ao O POVO em entrevista sobre os 60 anos de vida que completou no dia 17 de janeiro.
Ele tinha 26 anos. De lá para cá, o cinema se transformou radicalmente na forma de ser feito, vendido, visto e até interpretado, mas aquele Karim empolgado em desvendar os próprios segredos talvez nunca tenha saído de trás das câmeras. Quase três décadas depois, já estabelecido como um autor internacional, ele parecia o mesmo jovem inquieto em traduzir o mundo - de volta à Argélia, terra natal do pai no continente africano, ele se despe das certezas no documentário "Marinheiro das Montanhas" (2021), assumindo intuições talvez inspiradas em Eduardo Coutinho e Abbas Kiarostami para inventar a própria saudade.
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Em 2024, "Motel Destino" levou ao Festival de Cannes uma nova imagem do que era o Nordeste brasileiro - se o evento francês só conhecia essa parte do Brasil pelas planícies esturricadas de Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos, passou a conhecer as falésias das praias de Beberibe. Anos antes, já tinha apresentado os sertões cearenses no Festival de Veneza com "O Céu de Suely" (2006) e "Viajo porque preciso, volto porque te amo" (2009), filmes que já nasceram clássicos até para a nossa imaginação de um Interior atravessado por crueldade e amor.
Se olhou também para as ruas do Rio de Janeiro com seu longa de estreia "Madame Satã" (2002) e com o melodrama "A Vida Invisível" (2019), vencedor da Mostra Un Certain Regard em Cannes. Karim também sempre teve uma percepção que seu cinema falava para o mundo - em 2014, fez até Wagner Moura atravessar o oceano em "Praia do Futuro", com parte da história se passando em Berlim. Em 2023, dirigiu os astros Jude Law e Alicia Vikander no drama de época "O Jogo da Rainha".
Embora more na Alemanha, a presença de Karim no Ceará é permanente também por seu envolvimento com o ensino. Desde 2013, ele faz parte da equipe que gere o Lab Cena 15, laboratório de roteiros da escola Porto Iracema das Artes que já faz parte do calendário nacional, contando inclusive com um evento de apresentação dos projetos bastante cobiçado pela cena do audiovisual em Fortaleza.
Agora aos 60 anos, Karim Aïnouz se prepara para a estreia mundial de "Rosebush Pruning" na competição principal do 76º Festival de Berlim, seu segundo filme com produção completamente estrangeira. Na página seguinte, o cineasta compartilha com O POVO memórias, sensações e pensamentos ao longo de seis décadas em constante mutação, caminhando muito longe para sempre ter que voltar em casa.
"Será que isso vai acabar?"
"Quando comecei, só se filmava em película, não existia o digital, e o vídeo estava muito no começo. Mas tem uma coisa que não mudou em nada: a vontade do público de ver cinema, de ir ao cinema. Depois da pandemia, eu cheguei a pensar: "Será que isso vai acabar?". E foi o contrário. A gente entendeu o quanto o cinema é importante na nossa vida. Não exatamente algo que salva vidas, mas algo que nos permite estar vivos".
"Não vou passar mais dez anos fazendo um filme"
"'Madame Satã' foi um pouco inacreditável porque levou 10 anos para ser feito. Um filme que ninguém queria fazer, ninguém queria saber daquele personagem. Achavam que eu era meio louco, e eu era mesmo, continuo sendo. Teve um momento em que eu achei que tudo ia desabar, que não ia ter filme, que eu teria que desistir daquele projeto. Então, quando o filme finalmente ficou pronto e a gente chegou a Cannes, foi muito impressionante. Quando o festival acabou, eu pensei: "Não vou passar mais dez anos fazendo um filme". Os festivais foram fundamentais porque o cinema mundial é muito pautado pelo cinema americano, e os festivais colocam outros cinemas em lugares de prestígio. Eles te permitem acreditar mais em você".
"Voltar ao Ceará é, de alguma maneira, voltar para casa"
"As memórias do lugar onde você nasce, cresce e se forma são indeléveis. Voltar ao Ceará é, de alguma maneira, voltar para casa. E é importante voltar para lembrar quem você é. Eu adoro filmar no Ceará. Passei muito tempo filmando fora, no Rio, em São Paulo, e senti muita saudade. Fazer 'Motel Destino' e pensar em outros filmes no Ceará me lembra de quem eu sou, de onde vim e por que estou aqui. A memória é algo muito inspirador para qualquer artista. Eu adoro dirigir em outras línguas, adoro trabalhar com atores de outros lugares, mas também gosto muito de fazer um cinema com sotaque. Mesmo quando não é direto, o Ceará está sempre presente nos filmes que eu faço e nos que eu sonho em fazer".
"Ensino tem algo hierárquico; dividir é troca"
"Não diria exatamente que gosto de ensinar, mas gosto muito de dividir. Ensino tem algo hierárquico; dividir é troca. O 'Cena 15', da Escola Porto Iracema das Artes, foi fundado em 2013 por Marcelo Gomes e Sérgio Machado. Eu fui tutor desde o início e continuo ligado à escola até hoje. Hoje é dirigido por cineastas locais e colaboradores incríveis. É um lugar fundamental para o roteiro no Brasil, e este é um ano muito especial para o cinema cearense. Temos dois filmes no Festival de Berlim que passaram pelo Cena 15: 'Feito Pipa', do Allan Deberton, e 'Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha', da Janaína Marques. Isso me deixa muito orgulhoso. É uma escola financiada com dinheiro público, e é importante lembrar o quanto ela está dando frutos gigantes para o cinema brasileiro e mundial. Já estivemos em Cannes, temos filmes em Berlim, e isso só tende a crescer. No cinema, muitas vezes as pessoas escondem como fazem as coisas, e o Cena 15 vai no sentido oposto".
"Tudo isso está presente nas escolhas que faço"
"Meu pai é argelino, e eu tenho muito orgulho disso. A Argélia foi um dos primeiros países africanos a se emancipar do colonialismo, e essa história de emancipação e autoestima me inspira todos os dias. Eu me sinto muito rico por ter essas duas origens: a cearense, da minha mãe Iracema, e a argelina. São duas culturas muito fortes, com uma vitalidade enorme e um senso de humor parecido. Tudo isso está presente nas escolhas que faço, nas histórias que conto e nos personagens que imagino".
"Essa liberdade é uma das coisas mais importantes para mim"
"É um privilégio enorme poder fazer filmes em tantos lugares do mundo. Já fiz filmes com elenco americano e inglês na Espanha, filmei na Inglaterra, no Ceará, e agora em outros lugares. É claro que isso foi conquistado com muitos anos de trabalho, ninguém me deu nada. Mas essa liberdade é uma das coisas mais importantes para mim".