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Linhas, brilhos e tecidos: quem costura o Carnaval de Fortaleza?
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Vida & Arte

Linhas, brilhos e tecidos: quem costura o Carnaval de Fortaleza?

Entre as muitas mãos que constroem o Carnaval estão aquelas que cuidam das vestimentas. O trabalho colaborativo é uma das premissas do movimento
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FORTALEZA, CEARÁ, BRASIL, 03-02-2026: A preparação para o período de carnaval. O Barracão Maracatu Solar se prepara com ensaios e produção de roupas para os desfiles. Na foto, Patrício Barros, 42 anos, carnavalesco do Maracatu Solar. (Foto: Fernanda Barros/ O Povo) (Foto: FERNANDA BARROS)
Foto: FERNANDA BARROS FORTALEZA, CEARÁ, BRASIL, 03-02-2026: A preparação para o período de carnaval. O Barracão Maracatu Solar se prepara com ensaios e produção de roupas para os desfiles. Na foto, Patrício Barros, 42 anos, carnavalesco do Maracatu Solar. (Foto: Fernanda Barros/ O Povo)

Um Carnaval é feito com muitas mãos, isso sempre foi sabido. Desde que a comemoração se popularizou no País, por volta do século XVII, a festividade sempre foi marcada pela valorização da liberdade e da alegria, envolvendo muitas pessoas de todas as classes sociais.

Na década de 1920, surgiram no Brasil as primeiras escolas de samba. O que antes era apenas um momento de brincadeiras e liberdade nas ruas, passou a ser considerado uma grande manifestação cultural, com festas, desfiles, brilhos e tecidos, integrando também os afoxés, frevos, maracatus e as tradicionais marchinhas. Foi assim criada a cultura carnavalesca brasileira.

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Os desfiles - sempre com muita luz, roupas das mais diversas naturezas e os carros alegóricos - entraram de vez no imaginário popular e se consolidaram como o evento cultural de maior expressão no País.

Até hoje a festividade se reflete muito da tradição armazenada ao longo do tempo, sem perder a característica do trabalho coletivo para a entrega do projeto final na avenida.

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Centenas de pessoas se envolvem diretamente com o imenso trabalho que é montar um desfile de escola de samba, seja qual for o gênero ou tema escolhido. Tem gente que aparece portando as roupas e desfilando, mas também há aqueles que estão por trás do trabalho pesado: desenhando, montando e costurando o glamour que o evento exige.

Patrício Barros, 42 anos, é uma dessas pessoas que ficam nos bastidores da montagem do Carnaval. O fortalezense atua como carnavalesco do Grupo de Maracatu Solar. Sua função é de extrema importância para a entrega final, pois ele é quem tem a responsabilidade de desenhar e fazer acontecer o desfile.

O carnavalesco entrou no circuito do maracatu como assistente de Carnaval, em 2006: "Primeiro era um assistente de Carnaval, é assim um processo de aprendizado. Aí depois a gente começa a fazer uma coisa, faz outra, ajuda aqui, ajuda lá. Aqui todo mundo se ajuda".

Durante a visita da equipe do O POVO ao barracão do Maracatu Solar, na Avenida da Universidade, essa realidade de ajuda foi percebida. Em meio a chegada de muitas pessoas ao local, foi visto esse sentimento de colaboração, um brincante trazendo uma máquina de costura extra, outros finalizando adereços, todos envolvidos em uma única causa coletiva: o maracatu.

A construção da festa é um esforço de muitas mãos, geralmente ajudam quando podem, em meio aos afazeres do cotidiano.

Com o tema desse ano sendo "Exú Senhor dos Caminhos" a agremiação vai se apresentar na Avenida Domingos Olímpio, principal polo das agremiações de Fortaleza, no sábado de Carnaval.

A representação de Exú foi definida em setembro, com um período de cinco meses para a montagem e preparação de 300 brincantes no corredor da folia.

Embora falte uma semana, praticamente, para a apresentação, Patrício conta que ainda não conseguiu finalizar tudo que é necessário, e que nessa reta final surgem questões inusitadas.

"Tem muita coisa para fazer ainda. A gente pensa que não, mas tem muita coisa. Quando a gente pensa que tá acabando, aparece mais coisa. Aparece uma cabeça de orixá, uma coisa para reformar, uma calça para costurar, uma pedra para pregar", comentou.

Lutando contra toda sua timidez durante a entrevista, Patrício relembrou como se deparou a primeira vez com a grandiosidade do maracatu. Quando jovem, ele conta que viajava muito, ia brincar o Carnaval "com mela-mela e tudo mais" em outras cidades.

"A partir do dia que eu entrei no maracatu, eu não viajei mais. Comecei a gostar, comecei a me dedicar, fazer as coisas e sentir parte do processo. Quando começa a fazer, você quer ver pronto, fica ansioso, fica querendo entregar um bom resultado", pontua.

Ele conta que foi aprendendo o ofício vendo os outros brincantes realizando, olhando quem colava os adereços e fazia a costura, "olhando, fazendo e praticando".

Fazendo o papel de assistente por alguns Carnavais, Patrício foi ganhando experiência. Ajudando em tudo que podia, ele aprendeu cada vez mais e chegou o momento de assumir a posição de responsabilidade, já com muitos Carnavais vividos.

"É um projeto mesmo, é uma evolução. Você começa, primeiro comprar a peça, vai imaginar, criar e conseguir botar para frente, tirar do papel e botar no real", diz.

Esse é o terceiro Carnaval que ele está à frente dessa demanda, mas é o primeiro que ele se dispôs a mostrar seu rosto e falar sobre suas responsabilidades: "Dessa vez não escapei", brincou carnavalesco durante entrevista ao O POVO.

No barracão são decididos quais os modelos e cores vão integrar cada ala do cortejo. Onde são colados os detalhes finais. Onde a magia acontece. Embora grande parte do trabalho seja realizado pelo grupo, duas pessoas externas contribuem com o manejo de costura mais pesado. 

Pingo de Fortaleza, coordenador geral e presidente do Maracatu Solar, frisou a importância da colaboração de cada pessoa para a construção da festa.

"Nós somos poucos, então a gente, às vezes, diversifica as nossas funções. Às vezes é uma troca de uma palha, às vezes é a colagem de um búzio, às vezes é colagem de um adereço", argumenta.

"É isso aqui, desse jeito, um ajuda o outro. Pode vir qualquer pessoa para ajudar, para dançar no maracatu. Aqui a gente não tem restrições. É só querer vir dançar, querer ajudar, pode. Aí é muito bom fazer essas coisas que a gente gosta", conclui Patrício.

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