O Carnaval é realmente uma escola para muita gente. O exemplo de Patrício é mais uma das diversas histórias de desenvolvimento atrelado à liberdade e alegria que a festa proporciona.
Caio Isidoro da Costa, 22 anos, também teve sua trajetória marcada pelo maracatu de Fortaleza. Atuando desde 2016 no Maracatu Vozes da África, ele viu na festa a oportunidade de realizar um sonho de criança.
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Quando criança, com uma apresentação da escola de samba do Unidos do Acaracuzinho, em Maracanaú - onde ele reside até hoje - foi quando se deparou pela primeira vez com o significado da festa de Carnaval.
"Eu tinha 10 anos. Olhei e quis fazer parte. Eu queria participar, queria estar ali. Mas o tempo não era tão acessível para mim", aponta.
Com o convite de uma amiga, dois anos depois, ele começou sua história com o maracatu ao entrar para ajudar no barracão da agremiação.
Ele conta que sua primeira impressão foi de espanto ao ver as pessoas com o rosto pintado de tons escuros, mas que o sentimento foi convertido em curiosidade e, logo depois, ele notou o brilho carrega a expressão cultural.
O negrume é tradição no desfile do maracatu cearense como uma forma de incorporar o personagem. Antigamente, era usada a fuligem de lamparina para representar a cor; mas, hoje, o grupo desenvolveu uma mistura composta por vaselina sem cheiro e xadrez preto, um pigmento que não faz mal à pele.
"Durante esses anos, eu cresci muito, eu cresci dentro do barracão. Como eu falei, a gente cresce e amadurece dentro de um barracão, porque é uma escola que tá ensinando a gente a fazer coisas que muita gente queria fazer e não pode", acredita.
Quando entrou no Vozes da África, Caio ajudava com tudo o que fosse necessário. Fazia colagens e acerto de plumagens e, depois, iniciou o trabalho com a máquina de costura.
"Entrei querendo me envolver com esse negócio de costura. O barracão me deu uma oportunidade e foi lá que eu comecei a costurar", relembra.
Ao som do ritmo mecânico da máquina de costura, durante a visita do O POVO ao barracão do Maracatu Vozes da África, no bairro José Bonifácio, ele admitiu ter medo em seu primeiro contato com a ferramenta.
A partir dos primeiros contatos com a máquina, ele nunca mais largou e se diz apaixonado pela costura.
A participação na festa ganhou destaque, e logo chamou atenção de outras escolas. Hoje, ele atende ao menos três agremiações, se dividindo entre as sedes de cada grupo e seu trabalho como costureiro durante o dia.
"A gente vê do começo, corta, aí tem a modelagem, a gente vê tudo, todo o processo. Quando chega na avenida e vê aquela peça completa, fico emocionado. A gente se sente muito, muito feliz", aponta.
"Eu costumo dizer que aqui tem um grupo de artistas. São pessoas que chegam aqui leigos e aprendem. Você vê que o Caio trabalha na parte de costura, mas ele já está se criando um aderecista. A maioria das pessoas chega aqui tímida, vai vendo os trabalhos, vai aprendendo e bota em prática", contou Francisco Aderaldo de Oliveira, atual presidente da agremiação criada em 1980.
Mesmo com a presença confirmada em outros blocos e desfiles, Caio diz sempre querer voltar ao Vozes da África, lugar que lhe deu a oportunidade de perseguir o sonho.
"Aqui é muito bom. Gosto muito daqui. É uma família de verdade. O presidente dá essa oportunidade de fazermos o que a gente quer aqui dentro, tem essa liberdade de trabalhar o que a gente quiser", celebra.
O jovem não só participa dos bastidores, como também sai a frente no desfile com a escola. Relata ele mostrando, orgulhoso, o traje exuberante com quase 20 quilos que vai usar durante o desfile na Avenida Domingos Olímpio, no domingo de Carnaval.
"Ele é bom, ele tem uma desenvoltura, tem simpatia", falou Aderaldo ao companheiro de Carnaval em momento de descontração com os brincantes.
Esse ano, com o tema "Nossa Senhora do Rosário", a equipe teve em torno de seis meses para desenvolver todas as peças e finalizar o desfile.
Na reta final surgem detalhes a todo momento para ajustar. Chegando perto da data do cortejo, uma grande revisão deve sacramentar o fim do trabalho a espera.
Quando perguntado sobre o futuro de sua carreira, ele prontamente responde: "Estilista". E projeta uma formação ou um curso técnico no qual possa desenvolver cada vez mais suas habilidades na costura.
O futuro ainda não chegou, mas uma coisa não vai mudar, sua participação em fevereiro: "O Carnaval leva a gente para longe".