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"Pecadores": com 16 indicações ao Oscar, filme de Ryan Coogler constrói uma história bonita sobre identidade
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"Pecadores": com 16 indicações ao Oscar, filme de Ryan Coogler constrói uma história bonita sobre identidade

Com 16 indicações ao Oscar, "Pecadores", filme de Ryan Coogler, constrói uma história bonita sobre identidade e música ao mesclar identidade e fantasia; filme está disponível na HBO Max e na Prime Video
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Foto: IMAGEM DE DIVULGAÇÃO DO FILME "PECADORES"/Warner Bros/Divulgação Filme "Pecadores"

O horror e o terror são parte da rotina da população negra, segundo o documentário "Horror Noire" (2019). A máxima se faz presente em boa parte de histórias de terror protagonizadas por pessoas negras, como "Corra" (2017) e "A Lenda de Candyman" (2021), que usam o racismo como principal mote do medo. "Pecadores" (2025), filme de Ryan Coogler ("Creed 3") não foge disso.

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Em uma das várias "Plantation" de algodão localizadas no Mississipi, mora e trabalha o jovem Sammie Moore (Miles Caton), cujo sonho é viver de música. O rapaz se vê mais próximo de sua meta com o retorno dos seus primos Fumaça e Fuligem (ambos interpretados por Michael B. Jordan), que irão abrir um clube de blues no meio do pântano sulista. Porém, o trio vai se deparar com um obstáculo além do racismo rotineiro nos dias de Lei Jim Crow: vampiros sedentos por sangue e ancestralidade.

O êxito de Ryan com esse longa-metragem é tremendo - e para ser sincera nem sei por onde começar a pontuar todos os acertos do filme. É certo que sou suspeita para falar, afinal amo uma boa história de vampiros, mas o que o também diretor de "Pantera Negra" (2018) fez, ultrapassou qualquer expectativa que pudesse ter em relação a sua obra.

Entrelaçando a realidade de uma pessoa negra no sul em meados dos anos 1920 com a ficção especulativa, o cineasta estadunidense entrega uma narrativa que em essência é uma grande celebração do blues do início ao fim. É por causa do amor pela música que Sammy decide se arriscar no clube e são os seus acordes que guiam cada detalhe da trama.

Escolher produzir essa homenagem usando elementos do terror foi um modo no mínimo perspicaz (para não dizer genial) da parte de Coogler. O roteiro vai nos guiando em uma história que mais parece um tipo de visagem (narrativas de terror típicas do interior cearense) contada por um avô, à medida que vai nos preparando para o clímax.

A magia de "Pecadores"

A sensação é que a cobra dará o bote a qualquer momento e você se pega olhando para os lados, atento a qualquer movimentação estranha na sala de cinema. Seria fácil, entre muitas aspas, usar outros gêneros audiovisuais como documentário ou até a cinebiografia para fazer isso. Mas criar uma metáfora sobre apropriação cultural por meio do ataque de seres sobrenaturais, que possuem lugar em diversas ancestralidades como a africana e a indígena? É para poucos.

O enredo combinado ao visual que usa de uma Panavision 70 mm (sendo o primeiro longa da história a fazer isso) para captar as imagens resulta em uma história de terror que prova que o cinema não precisa ser somente sobre filmes extremamente artísticos e incompreensíveis para ter qualidade. A câmera, inclusive, confere um visual cru mais realístico e entrega boas paisagens de plano geral, sabendo usar bem o cenário ao seu favor.

O uso de plano sequência para acompanhar a movimentação dos personagens é outro grande acerto da produção, cuja cinematografia ficou a encargo de Autumn Durald ("O Sol Também É uma Estrela" - 2019). Além de trazer dinamicidade às cenas, promove uma maior imersão ao colocar a audiência sob o mesmo ponto de vista de quem está em tela.

Por exemplo, temos a mesma perspectiva da pequena Lisa (Helena Hu) e de sua mãe Grace (Li Jun Li) quando as duas transitam entre os lados segregados da cidade, um modo inteligente de ilustrar como pessoas asiáticas possuem passabilidade branca em uma sociedade racista.

A audiência acompanha as duas com uma câmera por trás das personagens. Mãe e filha vão às mesmas lojas, porém uma está localizada na rua onde só pessoas negras podiam andar e a outra em um espaço que só podia ser frequentado por pessoas brancas.

"Pecadores" e a música

A trilha sonora é outro aspecto técnico fundamental para que o longa se destaque. A trama vai se desenrolando com o blues, batucadas ancestrais e a guitarra elétrica do rock mostrando como gêneros consagrados foram fundados por pessoas negras. O voiceover também é presente como recurso para elucidar a lembrança. As cenas ganham um maior impacto e intensidade, fazendo os pelos do corpo se eriçarem.

Toda essa riqueza técnica não faria o mínimo sentido sem um elenco de peso. Michael B. Jordan está em um de seus melhores papéis desde Killmonger. Por um momento, ele nos faz acreditar que sempre teve um irmão gêmeo escondido por aí, dada sua dedicação ao interpretar irmãos com personalidades tão distintas. Não à toa recebeu indicação ao Melhor Ator no Oscar de 2026.

Miles Caton, que dá vida ao carismático Sammi, brilha em seu primeiro papel no cinema. Algo que não é fácil quando se está contracenando com um grupo de artistas que também traz Wunmi Mosaku. A atriz é conhecida dos fãs de terror social, presente no cinema desde "A Noite dos Mortos Vivos" (1968) por seus trabalhos em "Território Lovecraft" (2020) e "O que ficou para trás" (2020).

A linha tênue entre a comédia e o humor ficou por Delroy Lindo, que interpreta Delta Slim. A figura é responsável por trazer os alívios cômicos em um timing perfeito dentro do roteiro, sempre após os momentos mais tensos da trama.

O personagem consegue ainda subverter o estereótipo do negro engraçado típico de filmes de terror, apresentando complexidades. A performance também rendeu indicação a Delroy a categoria de Melhor Ator Coadjuvante, na qual disputa com Stellan Skarsgård ("Valor sentimental"), Jacob Elordi ("Frankenstein"), Benicio Del Toro ("Uma batalha após a outra") e Sean Penn ("Uma batalha após a outra").

Hailee Steinfeld, uma das únicas brancas do elenco, também se destaca ao representar uma branca mestiça (que possui ascendência negra). Além dela, o britânico Jack O'Connell proporciona um vampiro assustador e carniceiro com Remmick, se destacando como a mente do trio formado entre ele e o casal Bert (Peter Dreimanis) e Joan (Lola Kirke).

Enfim, "Pecadores" é a história de vampiro que sempre quis ler/assistir só ainda não sabia. Ainda que traga uma visão muito masculinista, afinal não temos uma final girl (a única sobrevivente presente até o final da trama), e deixe pontas soltas, Ryan Coogler mostra o que acontece quando temos a verdadeira liberdade de contar nossas histórias.

 


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