Jornalista, leitora, professora. Criou e faz curadoria das séries A Cozinha do Tempo e Cidade Portátil, dentre outras atividades.
Jornalista, leitora, professora. Criou e faz curadoria das séries A Cozinha do Tempo e Cidade Portátil, dentre outras atividades.
O melhor bolo do nosso mundo é o da Walma, a primeira Laena da família e a herdeira da forma de bolo da tia Meralda. Tia Esmeralda fez durante anos nossos melhores bolos. O de cobertura de maracujá, cortado em losangos, surgia feito um painel Athos Bulcão, daqueles que a gente vê em Brasília e reconhece o jogo, a brincadeira com a geometria, e lambe com os olhos, ao tempo que a obra nos olha, como a paisagem.
No caso do simples bolo fofo da Walma, dá pra saber bonito, sentindo, por que chamamos de céu da boca um dos portais de alegrias que levamos em nós.
Depois da Flora - que tem dois anos, dois meses e três dias e já tem chão de apreciadora praticante do bolo da vó -, o bolo da Walma é o ímã mais eficaz para nos aglutinar. Mal aparece no zap a mensagem "tem bolo da Walma" e chega todo mundo antes que o bolo esfrie. Velozes? Kms de distância parecem ficção.
Dobramos o espaço, e a mesa realiza seu destino de encruzilhada. É o nosso simpósio. E cada bolo, a nos lembrar de que nadica de nada sabemos sobre o milagre que é a vida, cada bolo atualiza a cantada perfeição do anterior. E nos absurda. Como pode estar melhor que aquele?
O cheiro do bolo é banda de bloco dobrando a rua. O corpo escuta logo. Células no modo confete, coluna se desenrola feito serpentina e os pés ensaiam rotas de cura. É tipo anúncio da farra, e me faz pensar n'A Turma do Mamão, nascida e criada no Centro de Fortaleza.
A Turma do Mamão desfila amanhã, segunda, na Domingos Olímpio, onde a vi passar anos atrás com aquela alegria em bando que a rua amplia de um jeito que só é possível na rua. E a rua cresce com ela.
Não há Carnaval que não me ocorra Clarice, adulta, recriando o Recife da infância em tempo de folia. Ela afirma que foi quando se deu conta do destino para o qual as ruas da cidade haviam sido feitas.
Um pedacinho do texto "Restos do Carnaval" nos dá as boas-vindas, a nós visitantes, ao Paço do Frevo, museu no Centro de Recife. Se der vontade de ler na íntegra, dá um google e vc acha fácil. Prefere ler no papel? Está no livro "Felicidade Clandestina".
Tão nosso isso da escritora "complexa e difícil" de abre-alas no velho prédio restaurado que abriga uma fonte sobre um dos ímãs da vida em Pernambuco. Pernambuco do bolo de rolo e do bolo de noiva, tão apreciada a parte comida na festa quanto a guardável para se comer no ano seguinte.
Feito brincantes do Rei de Paus hoje, depois do desfile na Domingos Olímpio, escutando, no gosto do recém-vivido à flor da pele, os sinais do Carnaval que virá.
Pele de brincante é tipo casca de bolo: está tudo ali. Tem mais maracatu na avenida. Mas eu sou tão fã do que Seu Geraldo (Barbosa) fazia no Rei de Paus quanto da oferenda
da Laena-Mãe.
O bolo da Walma é nosso Carnaval, nunca fora de época, porque festa que é festa nos
instala no agora.
E quem não vai querer?
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