Reportagem Especial

O que podemos esperar de uma vacina cearense contra a Covid-19

Possível imunizante intranasal vem sendo desenvolvido por pesquisadores da Uece. Entenda como está o projeto e as repercussões dele para o Estado

O que podemos esperar de uma vacina cearense contra a Covid-19

Possível imunizante intranasal vem sendo desenvolvido por pesquisadores da Uece. Entenda como está o projeto e as repercussões dele para o Estado
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Sob contexto da pandemia, a ideia de uma possível vacina cearense contra a Covid-19 permeia a mente de um grupo de pesquisa da Universidade Estadual do Ceará (Uece). O Laboratório de Biotecnologia e Biologia Molecular (LBBM) da instituição pública trabalha desde abril de 2020 no produto, nomeado HH-120-Defenser. Gradualmente, eles vêm estabelecendo parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC) e articulação com a sede cearense da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para, no futuro, começar a produção industrial do imunizante.

Foto: Thais Mesquita
"Eu gosto de estar pensando, eu gosto de estar na pesquisa!", diz Ney de Carvalho, pesquisador e médico veterinário

A base do produto é uma vacina utilizada em animais contra uma cepa aviária bastante semelhante ao Sars-CoV-2 (coronavírus) e que não causa doenças em humanos. O intuito da pesquisa é verificar o possível uso dessa vacina para induzir a produção de anticorpos contra o vírus que causa a Covid-19.

A fase pré-clínica começou em abril de 2020, e em setembro do mesmo ano a ideia de aplicá-la em mamíferos foi patenteada. "Resolvemos testar se esses anticorpos tinham alguma ação sobre o vírus em camundongos. E verificamos que sim", conta Ney de Carvalho, pesquisador, médico veterinário e doutorando da Uece que expôs a ideia da vacina ao co-orientador Maurício van Tilburg e à orientadora Izabel Florindo Guedes.  "Em doses baixas, inclusive, apresentou eficácia de 80%." 

Segundo Ney, a hipótese de aplicação do imunizante é de duas doses intranasais, com intervalo de 15 dias. A possibilidade de seis meses entre primeira e segunda dose também é cogitada. A fácil aplicação é um dos motivos que justifica o preço: R$ 11 custeiam cerca de 250 doses - um total de R$ 0,45 por aplicação. A quantia é calculada de acordo com a vacina já utilizada em aves e não inclui gastos com logística. “É uma vacina mais barata porque já não tem mais patente, há muito tempo ela vem sendo divulgada na avicultura, com uma forma de produção mais barata”, explica Ney. O imunizante aviário, inclusive, pode ser armazenado em refrigeradores comuns.

Além da vacina cearense, o Laboratório de Biotecnologia e Biologia Molecular da Uece desenvolve pesquisas de produção de kits de diagnósticos para doenças como dengue, febre Zika, Chikungunya, Leishmania, Leucemia linfoblástica aguda e outras
Foto: Thais Mesquita
Além da vacina cearense, o Laboratório de Biotecnologia e Biologia Molecular da Uece desenvolve pesquisas de produção de kits de diagnósticos para doenças como dengue, febre Zika, Chikungunya, Leishmania, Leucemia linfoblástica aguda e outras

Com os resultados positivos prévios, veio a pré-submissão do produto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Durante o processo, a agência reguladora faz reuniões com os produtores para entender as conclusões e tirar dúvidas. Em caso de inconsistências, o documento retorna aos pesquisadores, deve ser reescrito e submetido novamente. Em caso de aprovação da Anvisa, é gerado um número de protocolo - sendo considerado, de fato, o envio oficial para autorização do teste em humanos.  Ao O POVO, a Anvisa confirmou que ainda não houve formalizações do pedido. Dentre as alterações solicitadas pela pasta, estão o uso do estudo em animais e a viabilidade de produzir em grande escala.

Tratativas com instituições produtoras de vacina, como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), estão em andamento. Neste mês de maio, reuniões foram realizadas, e o órgão enviou apontamentos ao estudo na última quinta-feira, 19. Expectativa é de que o documento seja reenviado com as alterações solicitadas pela pasta para uma nova submissão, de fato. Caso autorizada, as fases 1 e 2 - com testes em humanos - podem começar em até 90 dias, cita Ney. "Entendemos que há uma demanda urgente, mas penso que temos que fazer a coisa bem feita, para termos a certeza de que funciona e de que o produto é confiável", elucida.

 

A possibilidade de eficácia do imunizante para novas variantes, inclusive, é estudada. Como o produto ainda não foi testado em humanos, toda a pesquisa é considerada com a vacina aplicada em aves. “Pode ser que outras partes dos vírus não sejam tão mutagênicas, porque essa vacina que utilizamos hoje é a da melhor cobertura. É uma vacina que serve praticamente para todas as outras mutações e acredito que servirá da mesma forma", planeja.

Sobre a repercussão da pesquisa, Ney comemora: “Ainda não começamos as fases de estudo em humanos, mas as pessoas que souberam da pesquisa já vêm nos agradecer pelo simples fato de estarmos tentando".

 

Investir em pesquisas é fundamental

 As pesquisas em instituições públicas são feitas com investimentos na educação superior. No caso da pesquisa do possível imunizante da Uece, o estudo continua sendo realizado, mas aguarda recursos externos. Ney relembra que precisou concorrer a editais durante a fase pré-clínica, geralmente financiados pelos governos federal e estadual. Mas, segundo o pesquisador, desde março de 2020 nenhum edital foi aberto para a área da Biotecnologia.

"O único edital foi aberto em março. Muita gente concorreu e ainda não tínhamos o projeto. Depois disso, não foi aberto nenhum pelos governos federal e estadual, tivemos que desenvolver com o que tinha. Acabou dando certo, sem muitos transtornos", recorda. "Era uma fase teoricamente mais barata, e estamos esperando que ande."

Pesquisadores da Uece desenvolvem pesquisa na busca por uma vacina contra a Covid-19
Foto: Thais Mesquita
Pesquisadores da Uece desenvolvem pesquisa na busca por uma vacina contra a Covid-19

No último dia 14 de maio, os representantes do governo do Estado visitaram o laboratório e prometeram destinar recursos do Fundo de Inovação Tecnológica (FIT) à possível vacina cearense. Se tudo prosseguir bem, a logística de aplicação pode começar na população no fim de 2022 ou no início de 2023. Mesmo contando com o fim da pandemia no Brasil, Ney pontua que o reforço da imunização deve ser recorrente.

Com o interesse do Governo na compra do imunizante, o grupo vem levantando dados para solicitar recursos à administração cearense. "Vamos fazendo o que pudermos e vamos ver até onde dá. Se os resultados não foram satisfatórios, o projeto será encerrado. Mas se forem positivos, acredito que eles [governo] farão crescer", avalia o pesquisador.

 

A importância de uma vacina cearense

 O Ceará aplicou mais de 2,5 milhões de doses de vacinas contra Covid-19. Mesmo com as vacinas disponíveis, a imunização segue em ritmo lento, assim como em todo o Brasil. Uma vacina cearense poderia ajudar na imunização daqui e de outros estados. Conforme explica Izabel Florindo Guedes, coordenadora do Laboratório de Biotecnologia e Biologia Molecular (LBBM) da Uece, a possível vacina cearense já tem o diferencial de aplicação: intranasal. Essa facilidade do uso, menciona Ney, além de baratear o produto, poderia incentivar a comercialização entre farmácias.

Testes em humanos dependem de autorização da Anvisa
Foto: Thais Mesquita
Testes em humanos dependem de autorização da Anvisa

Caso o produto funcione, é preciso também sustentar a imunização em massa no País. O Sistema Único de Saúde (SUS) dispõe do Programa Nacional de Imunização (PNI) para distribuir as vacinas contra a Covid-19 e outros imunizantes de forma gratuita para a população. Como a Uece não dispõe dessa estrutura, parcerias com instituições como a Fiocruz Ceará são cogitadas.

O titular da Secretaria da Ciência, Tecnologia e Educação Superior (Secitece), Inácio Arruda, diz que está conversando diretamente com a sede cearense da Fundação. "A instituição pesquisa vacinas, produz vacinas e tem capacidade de agregar a produção com outros imunizantes. Estamos nesta tentativa de diálogo entre as duas instituições para podermos transformar aquilo que a pesquisa já trouxe de viável."

 

"A capacidade de contribuição na área da saúde não está localizada em apenas um estado ou região. Quando damos um salto de confiança em um laboratório cearense, a tendência é que outros também sejam puxados." Inácio Arruda, secretário de Ciência, Tecnologia e Educação Superior do Ceará

 

O imunizante HH-120-Defenser é um exemplo de mais uma das tecnologias que poderão beneficiar outras pesquisas cearenses em instituições públicas e privadas. "A capacidade de contribuição na área da saúde não está localizada em apenas um estado ou região. Quando damos um salto de confiança em um laboratório cearense, a tendência é que outros também sejam puxados", avalia Inácio.

 

 Laboratório da Uece realiza pesquisas na área da saúde

O Laboratório de Biotecnologia e Biologia Molecular (LBBM) da Uece tem a finalidade de realizar pesquisas públicas na área da saúde. Atualmente, é vinculado ao Programa de Pós-Graduação Rede Nordeste de Biotecnologia (Renorbio). A equipe é formada por dois pós-doutorandos, 12 doutorandos, quatro pesquisadores voluntários e cinco alunos de iniciação científica, sob coordenação da professora Maria Izabel Florindo Guedes.

O desenvolvimento de vacina contra a Covid-19 é uma das linhas de pesquisa desenvolvidas pelo laboratório cearense. Outras áreas, como a biologia molecular, também estudadas pelo LBBM, objetivam a produção de kits de diagnósticos para doenças como dengue, febre Zika, Chikungunya, Leishmania, Leucemia linfoblástica aguda e outras.

Ainda, há a utilização de sistema vegetal para a produção transiente de proteínas heterólogas, candidatas a vacinas e para diagnóstico.

 

 Universidades públicas são pilares em estudos no setor da saúde

 A repercussão de uma possível vacina cearense, barata e totalmente brasileira, é enorme. De pesquisadores a governantes, as esperanças aumentam com produtos de combate à pandemia - tudo graças às instituições públicas de ensino, pesquisa e extensão no Ceará.

Desde 2000, a professora imunologista Izabel Florindo Guedes orienta e produz pesquisas no LBBM da Uece. "É momento de chamar a atenção dos gestores para o investimento em pesquisas nas universidades", frisa. "Nós temos jovens com potenciais grandes para atuar no País e não dependermos de nenhuma exportação."

Produção de imunizante contra a Covid-19 está sendo desenvolvida na Uece
Foto: Thais Mesquita
Produção de imunizante contra a Covid-19 está sendo desenvolvida na Uece

A pesquisadora se refere à "fuga de cérebros", movimento de imigração de estudantes com capacidades técnicas de um país para outro. Os motivos para a mudança podem ser diversos, mas a possível escassez de investimentos em pesquisas públicas brasileiras é um dos fatores mais citados. É por meio de editais que as pesquisas são desenvolvidas nas instituições.

No Ceará, a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap) é um dos programas que sustentam bolsas nas instituições públicas e privadas. Segundo Inácio Arruda, titular da Secitece, foram investidos mais de R$ 1 milhão na oferta de bolsas, em um período de até quatro anos: "O Estado ampliou o número de bolsas ofertadas, não para compensar o que perdemos nacionalmente [com as reduções de investimentos no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)] , mas para reforçar e não deixarmos que nenhum grupo de pesquisa paralise as atividades".

 

As maiores quantidades de bolsas de pesquisa no Estado, segundo ele, são da UFC e da Uece. Inácio reforça que o governo segue aberto para diálogos e investimentos. "O que for necessário, em termos de recursos, o governo irá garantir. Já há outras pesquisas [de combate à Covid-19] em desenvolvimento aqui no Ceará", explica.

 

"Enquanto instituição pública, temos que desenvolver pesquisas que sirvam para resolver problemas da nossa população. É nossa contribuição." Izabel Florindo Guedes, pesquisadora do LBBM da Uece

 

Com esse e outros estudos de combate à Covid-19, a projeção do Ceará a nível nacional e internacional viabiliza a expansão econômica do Estado e favorece mais feitos na academia. "Enquanto instituição pública, temos que desenvolver pesquisas que sirvam para resolver problemas da nossa população. É nossa contribuição", completa Izabel.

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