Reportagem Especial

Diversidade e autoestima: beleza e vaidade em pessoas trans

Da questão estética à intelectual, pessoas trans falam sobre a construção de suas identidades e a autoestima durante o processo de transição de gênero

Diversidade e autoestima: beleza e vaidade em pessoas trans

Da questão estética à intelectual, pessoas trans falam sobre a construção de suas identidades e a autoestima durante o processo de transição de gênero
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Existem várias formas de existir e ocupar o lugar no mundo. Dentro da transgeneridade, essa lógica não muda. Tanto para pessoas cisgêneros, que se identificam com o gênero de nascimento, quanto para pessoas transgêneros, que não se identificam com o gênero com que nasceram, a pressão estética está presente diariamente, o que mexe com a autoestima de pessoas cis e trans. No entanto, o impacto dessa pressão estética em pessoas transgênero vem acompanhado de vários obstáculos. Dentre eles, o principal é o preconceito.

Roberta é uma mulher trans. Aos 23 anos, ela se lembra exatamente do dia em que "a chave virou" em sua relação de autoestima. Diante do espelho de casa, ela teve uma conversa franca consigo. "Gatinha, você tem de se atentar! Pare de se comparar com mulheres cisgêneros, porque o seu corpo, futuramente, pode até parecer com o de uma mulher cis. Mas, você não é uma mulher cis. E não tem problema parecer uma travesti. As pessoas se sentem atraídas também. E o principal, você se sente atraída pelo que vê no espelho", compartilha a streamer. 

Trebor Roberta, 23
Trebor Roberta, 23

O processo de construção e percepção do próprio corpo por pessoas em processo de transição de gênero é muito particular. O psicólogo Dante Machado explica que opera na sociedade a lógica que, dentro dos estudos de gênero, é chamada de “cisnormatividade’’. Pessoas cisgênero são colocadas em posição privilegiada e tomadas como a norma social, pois se entende que para ser homem é necessário ter um pênis e para ser mulher, uma vagina.

A transsexualidade bate de frente com essa lógica ao ampliar as possibilidades de ser homem ou mulher no mundo, para além da genitália. "A construção da autoimagem e do corpo para uma pessoa trans traz uma série de exigências sobre como você deve ser/qual corpo você deve ter. Nesse sentido, as exigências cisnormativas de que pessoas trans devem usar hormônios, fazer cirurgias e modificar o nome, para só a partir disso serem respeitadas e vistas como homem ou mulheres, são extremamente violentas e podem produzir sofrimento psicológico", explica Machado.

Em 2020, pesquisa realizada pela Universidade Estadual de Campinas-SP (Unicamp) e pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) revelou que o índice de diagnóstico de depressão na comunidade LGBT é quase quatro vezes maior que o registrado entre a população brasileira.

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"Sensação de desencaixe"

Para o jornalista Mário Lucas, 24 anos, o processo de construção da autoestima esbarrou primeiro nessa sensação de desencaixe à norma, no que se espera ser homem ou mulher. Ele já passou por episódios em que ouviu comentários maldosos ao se apresentar com o nome social, por exemplo. Há um ano e seis meses ele começou o processo de transição.

Mário Lucas, 24
Mário Lucas, 24

"O que me ajudou muito foram depoimentos de pessoas que se reconheceram como trans há mais tempo que eu e passaram pelas mesmas situações, a busca pela autoaceitação. Porque se eu sou Mário e me sinto como Mário, porque eu irei dar ouvidos a uma pessoa que nem me conhece direito?", questiona. Além disso, ele ressalta a importância do apoio familiar e dos amigos durante esse processo.

Para ele, a conquista da autoestima começou a partir da liberdade de escolha, que foi quando ele passou a montar o próprio estilo, cortar o cabelo como queria, usar as roupas que queria e andar como queria. "A estética fala muito sobre você, não só a questão de gênero, mas ela também fala sobre sua classe social, sobre sua raça, sobre suas influências. Hoje eu me sinto muito mais conectado com o meu ser, com a minha periferia, com a minha raça do que antes de ter essa liberdade de escolha", conta. 

Para a ativista Yara Canta, a questão racial, além da travestilidade, foi impactante para a autoestima. "A estética negra também é negada, por causa do racismo. Isso dificultou o acesso à autoestima, vaidade, um 'se sentir bem consigo mesma'. Hoje eu me sinto bem com minhas raízes negras e meu cabelo crespo enorme. Mas, depois de muito tempo que fui entender o meu processo e chegar até essa autoestima", comenta Yara, que ressalta o prêmio de Musa Fonatrans em 2020, quando foi coroada musa do Fórum de Travestis e Transsexuais Negra e Negros.

Para Yara um momento marcante no seu processo de construção de autoestima foi a coroação como Musa Garota Fonatrans em 2020
Para Yara um momento marcante no seu processo de construção de autoestima foi a coroação como Musa Garota Fonatrans em 2020

Atualmente, ela se considera satisfeita com o corpo. Mas, para isso, foi necessária muita troca de vivências com amigas e muita leitura e entendimento sobre o impacto do racismo e da transfobia na questão social. "Precisamos entender a padronização dos corpos impostos pela sociedade. A minha autoestima mudou depois de um processo de entendimento e amadurecimento sobre mim mesma", explica a ativista.

No caso da jornalista e ativista Dediane Souza, no momento em que ela se entendeu como mulher trans, essa incoerência em relação ao corpo foi o primeiro impacto e a resposta foi o tratamento com hormônios. Ela frisa que o processo de cultivar a autoestima precisa ser contínuo ao longo da vida. "O campo da própria construção da imagem e da estética é algo que nos causa muita ansiedade. Quando eu me afirmei, existiam vários descontentamentos com a questão da imagem, que passa a ser construída todos os dias", explica a ativista.

 

 

A estética e a construção da linha torácica

No contexto do gênero, a "passabilidade" está ligada a como a sociedade enxerga uma pessoa trans. Quando existe essa passabilidade, a pessoa trans é enxergada como alguém cis pela sociedade, pois o corpo e a estética estão "adequados" ao padrão esperado. Para Dediane, essa passabilidade não é uma questão, mas sim a construção da identidade a partir daquilo que a pessoa acredita e a partir dos seus traços.

"A construção dessa identidade passa por vários momentos na história, então não tenho como querer ser uma Barbie, porque eu nunca vou ser uma Barbie. Eu tenho de construir minha autoestima a partir das minhas referências de beleza." Para além da estética, Dediane acredita que é necessário que pessoas trans ocupem outros espaços, como a sala de aula e o mercado de trabalho.

Para Dediane, o descontentamento com o corpo começou na linha torácica, como ela mesma define. A partir do momento em que se reconheceu como travesti, ela conta que montou vários esforços para construir a aparência que existe no imaginário popular do que é ser feminino. O implante da prótese mamária foi fundamental para a construção dessa autoestima e afirmação da identidade, tanto quanto o cabelo e o nome social.

 

 

"Para mim não foi apenas uma cirurgia estética, foi um renascimento e a afirmação de uma identidade. E quando falamos sobre vaidade hoje em dia, é importante perceber que a construção desse corpo travesti é cotidiano e político", pontua Dediane.

O crescimento das mamas também foi um ponto importante no processo de autoafirmação de Roberta. Há pouco mais de um ano ela faz tratamento com hormônios. "Eu sentia que meu corpo era muito masculino, meu rosto era muito masculino, e foi aí que eu recorri à terapia hormonal para que eu sentisse que meu corpo estava mais feminino, pra eu me sentir mais eu, sabe?", explica Roberta.

Todo o processo hormonal começou junto com a pandemia, em 2020. "Quando eu comecei a terapia que meu peito começou a crescer, foi o auge da minha felicidade! Eu saí contando pra toda família", conta Roberta.

Dediane Souza Coordenadora executiva da Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual
Dediane Souza Coordenadora executiva da Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual

De acordo com o psicólogo Dante Machado, a modificação corporal, seja a partir do uso de hormônios e/ou de cirurgias para quem desejar, é também processo que pode fazer parte da construção de uma autoestima mais positiva de si e de melhorar a relação com o próprio corpo. No entanto, ele ressalta que isso não é regra e não deve ser visto como exigência. "Algumas pessoas simplesmente não desejam, outras não têm condições financeiras para isso e em alguns casos pode haver impedimentos de saúde para se submeter a essas modificações", acrescenta o psicólogo.

Para entender melhor essa relação do corpo e da transgeneridade, Dante traça um paralelo muito simples: "Existem várias pessoas cisgêneros que se submetem a cirurgias, reposições hormonais por razões diversas e outras que não desejam fazer nada em seus corpos. Mas, não tendemos a olhar de forma crítica para essas intervenções, uma vez que elas são vistas como 'normais’ e 'esperadas' dentro de uma sociedade que compreende as pessoas cisgêneros como autônomas para fazerem os procedimentos que desejarem", explica.

"Para mim não foi apenas uma cirurgia estética, foi um renascimento e a afirmação de uma identidade. E quando falamos sobre vaidade hoje em dia, é importante perceber que a construção desse corpo travesti é cotidiano e político" Dediane Souza

Quando conversou com a reportagem, o jornalista Mário passava pelos exames e check-up necessários para começar o tratamento hormonal. Ele frisou a dificuldade que foi encontrar profissionais de saúde preparados para receber pessoas trans, mas acrescentou que estava muito entusiasmado para começar o tratamento. No começo do ano passado, ele começou o uso do binder — faixa para esconder o volume das mamas. Porém, o uso foi sendo reduzido após certo tempo.

"No começo, fiquei bem feliz, porque eu tenho disforia com meus seios. Mas, é uma faca de dois gumes. Você fica feliz por não ter volume (com o uso do binder), mas tem consequências, né. Eu não uso mais com tanta frequência como antes, por estar aceitando meu corpo como é e por questão de saúde mesmo. É muito desconfortável", explica Mário. Disforia é caracterizada pelo descontentamento e o incômodo com determinada característica ou situação.

 

 

Cenário das cirurgias no Ceará

O cirurgião plástico Thiago Marra, especialista na área de cirurgias de transexualidade, faz cirurgias por todo o Brasil. Casado com cearense, tem clientela no Ceará e faz atendimentos periódicos no Estado. Ele conta que pelo menos 40% dos pacientes cearenses que o procuram em seu consultório são pessoas trans. Os procedimentos mais procurados por esse público são cirurgias de prótese de mama, mastectomia masculinizadora e a feminização facial — cirurgia que consiste na raspagem dos ossos frontais com o intuito de tornar o rosto mais feminino.

De acordo com Rodrigo Itocazo, cirurgião responsável pelo Programa de Adequação Sexual do CRT Santa Cruz no Hospital Estadual Mário Covas, em Santo André (SP), nos últimos cinco anos vem crescendo a procura por procedimentos de afirmação genital dos pacientes transgênero e esse aumento nem sempre vem acompanhado das políticas públicas e da capacidade de saúde suplementar de dar conta da demanda. Há muita demanda reprimida de pacientes aguardando para passar por procedimento.

As cirurgias de afirmação genital ou de redesignação sexual são autorizadas para realização no Brasil desde 1997, quando foram regulamentadas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Mas, existem registros de cirurgias realizadas nos anos 1970, que levaram cirurgiões a serem denunciados. E a última resolução do CFM é de 2019 e moderniza o atendimento das questões de disforia de gênero.

Made with Flourish

Waldirene foi a primeira mulher a realizar cirurgia de redesignação sexual

A primeira cirurgia de redesignação sexual realizada no Brasil que se tem conhecimento aconteceu em 1971 em São Paulo, quando o cirurgião Roberto Farina operou Waldirene. A cirurgia foi parar na Justiça e o médico denunciado pelo Ministério Público. Em 1978, o juiz Adalberto Spagnuolo, da 17ª vara Criminal da Capital de São Paulo, condenou Roberto Farina a cumprir dois anos de reclusão pelo crime de lesão corporal grave. Consta nos autos do processo que a cirurgia "apenas serviu para mutilar um individuo do sexo masculino, transformou um doente mental em eunuco, satisfazendo seu desejo mórbido de castração. Isso tudo sem curar o mal psíquico, apenas ridicularizando-o de vez, sem qualquer outra possibilidade de cura".

No pedido de apelação, os advogados ressaltaram que a paciente passou por uma junta médica com cirurgiões, psicólogos e psiquiatras. Waldirene escreveu uma carta aos advogados relatando ser grata ao cirurgião por tê-la "livrado para sempre do martírio que era carregar uma genitália que não lhe pertencia.'.

A história de Waldirene pode ser conferida no site do Núcleo de Estudos Pesquisa, Extensão e Assistência a Pessoa Trans Roberto Farina, da Universidade Federal de São Paulo.

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