Reportagem Especial

Número de passageiros de ônibus em Fortaleza caiu 53% em seis anos

Antes mesmo da pandemia de Covid-19, o sistema de transporte público já enfrentava a queda no número de passageiros — única fonte de receita do serviço em diversas cidades. Com a crise sanitária, o cenário tornou-se ainda mais desafiador

Número de passageiros de ônibus em Fortaleza caiu 53% em seis anos

Antes mesmo da pandemia de Covid-19, o sistema de transporte público já enfrentava a queda no número de passageiros — única fonte de receita do serviço em diversas cidades. Com a crise sanitária, o cenário tornou-se ainda mais desafiador
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A demanda pelo transporte público em Fortaleza caiu a menos da metade em seis anos, enquanto o valor da tarifa de ônibus aumentou em 63,4% no mesmo período. Em 2014, foram transportados 353,9 milhões de pessoas ao longo do ano nos coletivos da Capital. Em 2020, esse número sofreu redução para 165,7 milhões (53,1% a menos). Intensificado com a pandemia de Covid-19, que exige medidas de distanciamento social e confinamento, esse processo é influenciado, entre outros fatores, pela queda do poder aquisitivo da população para custear a tarifa diariamente.

Especialistas apontam também a perda de competitividade do transporte público, tanto pela facilidade, ao longo das últimas décadas, para se adquirir carros e motos quanto pela popularização do transporte por aplicativo. Em 2019, pela primeira vez o números de passageiros transportados durante o ano, na Capital, foi menor que 300 milhões.

Ao todo, foram 287,2 milhões, segundo dados fornecidos pela Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor). Uma redução 6,2% em relação aos 306,5 milhões de 2018. Mas essa queda na demanda não é uma realidade apenas na Capital. Na verdade, ela é percebida em outras cidades do Brasil e em outros países na América Latina e preocupa quanto à sustentabilidade desse sistema.

Na maioria dos municípios brasileiros, o financiamento do sistema de transporte público urbano ocorre pela tarifa paga pelos usuários. Se há redução da demanda, o mesmo ocorre com a arrecadação. Com menos receita, as empresas adotam medidas como redução das viagens ou aumento da tarifa. Ambas as estratégias têm repercussão negativa para o usuário.

"O operador aumenta a tarifa, mas a população não tem dinheiro e a demanda cai. É um ciclo vicioso", aponta o engenheiro João Lucas Albuquerque Oliveira, mestrando em planejamento de transportes na Universidade Federal do Ceará (UFC), assistente de pesquisa no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e consultor na Transitar Consultoria.

Em nota divulgada em 4 de junho, o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Ceará (Sindiônibus) apontou efeitos da pandemia no sistema de transporte coletivo. Em maio de 2021, a oferta de ônibus correspondeu a 77% da frota disponível em fevereiro de 2020, antes da pandemia, enquanto a quantidade de passageiros foi o equivalente a 58% da demanda daquele mês. A diferença da arrecadação, comparando o mesmo período, foi de R$ 12,5 milhões a menos neste ano.

 

"O operador aumenta a tarifa, mas a população não tem dinheiro e a demanda cai. É um ciclo vicioso" João Lucas Albuquerque Oliveira, mestrando em planejamento de transportes na Universidade Federal do Ceará (UFC)

 

A pandemia de Covid-19 agravou esse cenário, mas a origem dele não é nova. Kauê Braga, doutorando em engenharia de transportes pela UFC e também assistente de pesquisa no Ipea, aponta a adoção de uma política que priorizou o transporte particular como "motivo geral" para essa queda. "Isso vem acontecendo há quase vinte anos no Brasil", afirma.

Outro fator citado por ele é a crise econômica que atingiu a população em meados de 2014. "Muitas pessoas, principalmente as de baixa renda, perderam a condição financeira de andar de transporte público todo dia", complementa Braga. De 2014 para 2020, o valor da tarifa inteira na Capital passou de R$ 2,20 para R$ 3,60.

Por causa da pandemia, a Prefeitura de Fortaleza e o Governo do Estado forneceram subsídio para que a tarifa não tivesse aumento em 2021. "A medida foi garantida por lei, aprovada pela Câmara Municipal e sancionada pelo prefeito José Sarto, mantendo a passagem de ônibus em Fortaleza no valor de R$ 3,60 (inteira) e R$ 1,60 (meia)", afirma a Prefeitura, em nota.

 

 

Esse aspecto econômico pode ser percebido na monografia "Análise da evolução da demanda no transporte público coletivo por ônibus em Fortaleza utilizando big data", defendida em 2019 por João Lucas. Ele buscou entender em quais grupos de usuários a demanda estava caindo. Para isso, dividiu os usuários em 10 grupos com comportamento similar, contemplando usuários cativos, intermediários e esporádicos.

"O que notamos foi um aumento da esporadicidade do transporte", aponta o engenheiro. Ao analisar o período de 2014 a 2018, ele percebeu redução mais expressiva entre os que pagam passagem inteira e os que utilizam vale transporte. Já entre estudantes e passageiros que têm gratuidade não houve oscilação acentuada.

 

"A pandemia colocou mais uma camada de complexidade no transporte coletivo, mais uma camada de desafio" Guillermo Petzhold, coordenador de Mobilidade Urbana do Programa Cidades do WRI Brasil

 

Além da maior facilidade para adquirir motocicletas ou carros e da redução do poder aquisitivo da população, Mauro Zilbovicius, professor do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), cita a perda de competitividade do transporte público em relação a transportes por aplicativo. "Até certa quilometragem de viagem, duas, três pessoas entrarem em um mesmo veiculo de aplicativo e dividirem (o valor) é competitivo em relação ao transporte coletivo, que fica preso no trânsito, demora."

O caso de Fortaleza tem algumas especificidades. Ao longo dos últimos anos, a Capital tem investido em políticas que incentivam o uso do transporte coletivo, como a criação de faixas exclusivas para ônibus e a implantação de corredores expressos, com o sistema Bus Rapid Transit (BRT).

"É claro que foi uma medida boa, mas não foi suficiente para compensar a queda de demanda por conta de todos esses fatores externos. É difícil tentar fazer uma previsão, mas, se Fortaleza não tivesse feito essas mudanças, talvez a demanda poderia ter caído mais do que caiu até hoje", analisa Kauê Braga.

Passageiros de máscara no terminal da Parangaba(Foto: Barbara Moira)
Foto: Barbara Moira Passageiros de máscara no terminal da Parangaba

A nota do Sindiônibus foi divulgada após o Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários do Estado do Ceará (Sintro) comunicar deflagração de greve a partir de 8 de junho. A categoria reivindicava melhores condições de trabalho e reajuste salarial. À época, o Sintro argumentou que não houve reajuste em 2020 e que "os empresários querem dar zero ajuste este ano em uma inflação de 7,59%".

A categoria foi retirada do grupo prioritário para a vacinação contra a Covid-19 por decisão da Comissão Intergestores Bipartite do Ceará (CIB-CE). A greve durou até 23 de junho, quando a categoria aceitou as propostas de conciliação, apresentadas em audiências mediadas pelo Ministério Público do Trabalho no Ceará (MPT-CE) e pelo Tribunal Regional do Trabalho (TRT-CE).

 


Outras saídas para o financiamento

Movimentação no terminal de ônibus do Papicu, Fortaleza(Foto: Aurelio Alves/ O POVOS)
Foto: Aurelio Alves/ O POVOS Movimentação no terminal de ônibus do Papicu, Fortaleza

A Covid-19 intensificou uma série de problemas que já eram discutidos sobre o transporte público. Questões relacionadas a conforto, pontualidade e lotação já eram apontadas entre as reclamações dos usuários. "A pandemia colocou mais uma camada de complexidade no transporte coletivo, mais uma camada de desafio", afirma Guillermo Petzhold, coordenador de Mobilidade Urbana do Programa Cidades do WRI Brasil.

Com baixa qualidade no serviço prestado, o transporte público torna-se a última opção dos usuários. E isso é "terrível" para a cidade, segundo a arquiteta Camila Bandeira, doutora em Engenharia de Transporte e professora da Universidade de Fortaleza (Unifor). "Não podemos pensar que vamos atender ao desejo de viagem das pessoas com os outros modos. Não é possível. Precisamos de um transporte público de qualidade", defende.

O professor Mauro Zilbovicius, do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), defende a adoção de um sistema de indicadores que apontem, por exemplo, lotação em horário de pico, tempo de espera pelo ônibus, tempo de viagem e limpeza. E, para mantê-los em níveis adequados para proporcionar conforto e qualidade ao usuário, é preciso investimento.

"Para custear isso, a tarifa não resolve. Nem Paris é assim, muito menos em São Paulo ou em Fortaleza. Os usuários de transporte coletivo não podem ser a única fonte de financiamento desse custo", afirma. Zilbovicius explica que, em Paris, o sistema de transporte público, formado por ônibus, trem e metrô, tem três fontes de financiamento.

 

"Pegar o 76 (Conjunto Ceará/Aldeota) às 6 horas da manhã é uma coisa que você jura que está em uma realidade paralela, porque é uma aglomeração absurda que você não consegue nem se mexer. E não importa se você esperar o próximo, porque sempre está lotado. É assustador" Aline Costa, professora e mestranda em Educação

 

"Desde 1960, 1/3 é (financiado) pela tarifa, 1/3 é o tesouro nacional da França e o outro terço são as atividades comerciais da cidade de Paris que pagam, porque reconhecem que o sistema traz clientes." Ao elencar iniciativas possíveis, o professor cita o caso de Vargem Grande Paulista, na Região Metropolitana de São Paulo, que adotou o programa Tarifa Zero. No lugar de pagarem vale transporte para os funcionários, empresas contribuem com um fundo municipal para financiar o serviço público.

Instalar comércios ou explorar publicidade nos pontos de ônibus são opções elencadas por Guillermo Petzhold. Outra alternativa para arrecadação é fazer com que usuários de transporte particular paguem pelas "externalidades" que causam para a sociedade — como poluição, sobrecarga em hospitais em decorrência de sinistros de trânsito e uso do espaço público.

"Um exemplo bem simples é cobrar pelo estacionamento. O pedágio urbano, para entrar no centro da cidade, é outra forma de arrecadar recurso com o usuário do veículo particular", afirma Kauê Braga, doutorando em engenharia de transportes pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e assistente de pesquisa no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

 


Deslocar-se de ônibus na pandemia

Terminal do Papicu no começo de julho, em horário de pico: transporte coletivo nunca deixou de ser ponto de aglomeração(Foto: Aurelio Alves/ O POVOS)
Foto: Aurelio Alves/ O POVOS Terminal do Papicu no começo de julho, em horário de pico: transporte coletivo nunca deixou de ser ponto de aglomeração

Por volta das 6 horas da manhã, a professora e mestranda em Educação Aline Costa, 29, costuma embarcar no primeiro dos dois ônibus que utiliza para ir ao trabalho. Ela mora na periferia de Fortaleza e demora em torno de 1h30min para chegar à escola onde leciona. Como não tem veículo particular e o transporte por aplicativo é financeiramente inviável para o dia a dia, não tem outra opção de deslocamento.

Ela voltou a trabalhar presencialmente, em agosto de 2020, e passou a sair mais cedo de casa na tentativa de embarcar um ônibus mais vazio. Além disso, utiliza duas ou três máscaras de proteção e carrega álcool 70%, gel e líquido, para higienizar as mãos e a mochila. Dentro dos ônibus, porém, afirma não perceber diferença em relação ao período anterior à pandemia. "A mesma lotação, os mesmos problemas", relata.

"Pegar o 76 (Conjunto Ceará/Aldeota) às 6 horas da manhã é uma coisa que você jura que está em uma realidade paralela, porque é uma aglomeração absurda que você não consegue nem se mexer. E não importa se você esperar o próximo, porque sempre está lotado. É assustador, porque nada é feito, e nós, trabalhadores, não temos opção", lamenta Aline.

Na ida ao trabalho, ela tem evitado o trajeto que passa por terminal de ônibus. "As filas no terminal ainda são bem complicadas e grandes. Como não há fiscalização nem organização, tenho muito receio de ir. Opto por fazer integração e só passar a catraca quando já está perto de descer, para evitar ficar na parte mais cheia do ônibus", conta.

 

"A máscara de pano não oferece proteção tão elevada quando a N95. É cara para um trabalhador e não dura tanto tempo, então acho que os governos deveriam dar. O usuário regular do transporte público deveria receber a máscara N95<br>" Lindomar Pena, pesquisador da Fiocruz Pernambuco

 

Por meio da Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor), a Prefeitura de Fortaleza afirma que "tem reunido esforços para garantir o cumprimento das medidas sanitárias e reduzir a disseminação da Covid-19". A entidade aponta que desde o início da pandemia foram disponibilizados pias com água e sabão e dispositivos com álcool em gel nos sete terminais de ônibus. A nota também aponta a distribuição de máscaras, a sinalização de distanciamento social nas filas e a realização de limpeza dos veículos. Em 2021, foram mais de 67 mil higienizações nos transportes da Capital, informa a Etufor.

"Outra medida importante adotada foi a organização dos horários escalonados de abertura dos estabelecimentos na retomada das atividades, a fim de reduzir a concentração dos usuários no transporte em horários específicos. A oferta de ônibus tem sido adequada de acordo com a demanda a cada fase de liberação das atividades. A frota nos terminais é reforçada durante todo o dia, com a inclusão de veículos extra nas linhas que precisam de reforço, com mais viagens e menor intervalo", acrescenta a empresa.

Desde fevereiro deste ano, 200 ônibus extras foram implementados nos horários de maior pico nas linhas de maior demanda, com investimento de R$ 19,4 milhões provenientes dos tesouros municipal e estadual. "A medida, oriunda da parceria entre a Prefeitura de Fortaleza e o Governo do Estado do Ceará, fortalece as ações de combate às aglomerações em virtude da Covid-19", aponta.

Para Aline Costa, na prática, o incremento na frota não teve efeitos. "Não vi nenhuma diferença no sufoco diário com esse suposto aumento da frota. Eu brinco com minhas amigas que é a lenda dos 200 ônibus, pois ninguém nunca viu, só escuta falar. Falo brincando, mas é sério. Muito sério, infelizmente." Ela reclama, ainda, de falta de fiscalização das normas sanitárias. "Sempre vejo alguém com a máscara no queixo ou tirando depois de subir. No terminal do Antônio Bezerra, até a fila dos idosos é um caos."

Lotação em terminal de ônibus: aglomeração na pandemia(Foto: BARBARA MOIRA)
Foto: BARBARA MOIRA Lotação em terminal de ônibus: aglomeração na pandemia

 


Terminais de ônibus são os locais com mais superfícies contaminadas pelo novo coronavírus

Estudo realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Pernambuco buscou identificar a presença do Sars-CoV-2, coronavírus causador da Covid-19, em diferentes locais de Recife. Para isso, foram coletadas 400 amostras de superfícies manuseadas por muitas pessoas — como maçanetas, torneiras, catracas, corrimão de escadas, mesas, cadeiras, porta-guardanapos e leitores de biometria— em 19 ambientes, divididos em seis categorias. Como resultado, a pesquisa mostra que terminais de ônibus e arredores de unidades de saúde destacaram-se. O artigo encontra-se em preprint na plataforma Medrxiv.

Os locais de coleta, escolhidos por terem grande fluxo e alta concentração de pessoas, foram organizados em seis categorias: terminais de passageiros, unidades de saúde, parques públicos, mercados públicos, áreas de praia e centro de distribuição de alimentos. Após a coleta, as amostras foram testadas por meio de RT-PCR. Das 400, 97 (24%) testaram positivo para a presença do novo coronavírus.

"Foram 19 sítios, e nós encontramos a presença do vírus em 18, com pelo menos uma amostra positiva, mostrando que a o vírus está disseminado pela cidade", afirma o coordenador do estudo e pesquisador da Fiocruz Pernambuco, Lindomar Pena. Os terminais de ônibus foram os responsáveis por 48,7% das amostras positivas, e as superfícies com maior índice de contaminação foram terminais de autoatendimento e corrimões. Em segundo lugar ficaram as áreas próximas a unidades de saúde, com 26,8%.


Os vírus detectados não estavam ativos, e o nível da contaminação por meio de superfícies ainda não está definido. Porém, o pesquisador aponta que a presença do vírus é sinal da circulação de pessoas infectadas no local. "A contaminação ambiental aumenta o risco de transmissão", acrescenta, citando estudos com outros vírus.

O pesquisador destaca a importância de a população não "baixar a guarda" quanto às medidas de prevenção da Covid-19: evitar tocar superfícies e levar a mão ao rosto, não tirar a máscara quando estiver dentro de banheiros públicos, ter consigo álcool gel e utilizar máscara N95 — principalmente enquanto estiver nos locais com maior possibilidade de contaminação.

"A máscara de pano não oferece proteção tão elevada quando a N95. É cara para um trabalhador e não dura tanto tempo, então acho que os governos deveriam dar. O usuário regular do transporte público deveria receber a máscara N95", afirma Pena. "Se o governo for pensar apenas na economia, ainda é muito mais barato do que tratar aquele paciente depois quando ele chegar ao hospital. Prevenir sempre é mais barato do que tratar."

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