Reportagem Especial

Quem são os brasileiros que não confiam nas notícias

Homens brancos, com mais de 55 anos, sulistas, bolsonaristas e usuários do WhatsApp como fonte de informação. Saiba por que a indiferença em relação ao jornalismo profissional é considerada mais preocupante do que a hostilidade

Quem são os brasileiros que não confiam nas notícias

Homens brancos, com mais de 55 anos, sulistas, bolsonaristas e usuários do WhatsApp como fonte de informação. Saiba por que a indiferença em relação ao jornalismo profissional é considerada mais preocupante do que a hostilidade
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Desde 2018 nós, brasileiros, assistimos estarrecidos ao aumento da participação das chamadas “fake news”, as informações falsas, na vida cotidiana. O mais recente episódio foi nesta semana, quando o presidente Jair Bolsonaro afirmou na terça-feira, 14, que a disseminação das mentiras travestidas de verdade não deve ser regulamentada no País, uma defesa da Medida Provisória (MP) 1.068/2021 editada pelo governo, em 6 de setembro, para criar obstáculos para os moderadores das redes sociais excluírem os conteúdos que julgarem falsos, por exemplo.

"Fake news faz parte da nossa vida. Quem nunca contou uma mentirinha para a namorada?", questionou o chefe do Planalto durante a solenidade de entrega do Prêmio Marechal Rondon de Comunicações. "Não precisamos regular isso aí, deixemos o povo à vontade", acrescentou.

Pesquisa do Instituto Reuters para Estudos do Jornalismo, da Universidade de Oxford, aponta a confiabilidade no consumo de informação(Foto: GETTY IMAGES)
Foto: GETTY IMAGES Pesquisa do Instituto Reuters para Estudos do Jornalismo, da Universidade de Oxford, aponta a confiabilidade no consumo de informação

Como o movimento de acreditar mais nas mentirinhas do que nas notícias feitas pelos veículos de comunicação tradicionais não é exclusividade brasileira e sim, um fenômeno mundial que tem se pronunciado nos últimos anos — mais intensamente ao sabor da pandemia do novo coronavírus — o Instituto Reuters para Estudos do Jornalismo, da Universidade de Oxford, decidiu fazer uma série de pesquisas e relatórios sobre a confiança das pessoas nas notícias, com dados detalhados sobre Brasil, Estados Unidos, Reino Unido e Índia. O estudo foi realizado por meio de entrevistas com dois mil respondentes em cada um dos países. No Brasil, a pesquisa de campo foi feita pelo Instituto Datafolha.

“Nossa pesquisa mostra que aqueles que menos confiam nas notícias são aqueles que menos sabem diferenciar um veículo de comunicação de outro e estão menos interessados em fazê-lo. Eles têm uma visão obscura sobre como a maioria dos jornalistas faz seu trabalho. Conquistar este público indiferente e desengajado é um desafio diferente do que é construir a confiança dos que são normalmente os mais ferrenhos críticos do jornalismo”, destacou Benjamin Toff, pesquisador sênior e autor principal do relatório “Superando a indiferença: o que as atitudes em relação às notícias nos diz sobre a construção da confiança” (sem tradução para o português), publicação do Projeto Confiança nas Notícias (Trust in News Project).


 

Para a doutoranda em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Fernanda Castro, que estuda a disseminação de informações falsas no âmbito da pandemia de Covid-19, a falta de confiança na mídia também é reflexo do descrédito da população nas instituições, incluindo a democracia. “A prática do jornalismo e a democracia estão intimamente ligados. A falta de confiança no regime democrático e as expectativas em relação a poderes ditatoriais refletem diretamente na forma como as pessoas enxergam o fazer jornalístico, que é, em sua essência, ‘a pedra no sapato’ dos autoritários e desonestos”, ressalta.


 


Entrevista >> Camila Mont’Alverne

“O jornalismo não é responsável sozinho por tentar lidar com esses desafios”

A pesquisadora Camila Mont’Alverne, formada pela UFC, participou da elaboração da pesquisa (Foto: Acervo pessoal)
Foto: Acervo pessoal A pesquisadora Camila Mont’Alverne, formada pela UFC, participou da elaboração da pesquisa

O POVO conversou com Camila Mont’Alverne, pesquisadora formada pela Universidade Federal do Ceará (UFC), que atualmente faz pós-doutorado no Reuters Institute for the Study of Journalism (RISJ), na Universidade de Oxford. Ela faz parte do o projeto Confiança nas Notícias e participou da elaboração do relatório discutido nesta reportagem. Além de jornalista, Camila é doutora em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde é pesquisadora vinculada ao Grupo de Pesquisa em Comunicação, Política e Tecnologia (Ponte).

O POVO - Qual foi a sua trajetória até você chegar a trabalhar nesse projeto?

Camila Mont’Alverne - Eu sempre pesquisei a área de comunicação política, mais especificamente sobre jornalismo político e internet e política. Fiz a minha graduação e mestrado em Comunicação na Universidade Federal do Ceará (UFC) e desde a iniciação científica já tinha interesse por esses temas. Para ter uma formação mais completa, fiz o doutorado em Ciência Política na UFPR, o que me permitiu combinar a experiência do campo da Comunicação com a Ciência Política, que também é muito importante para compreender a comunicação nos regimes democráticos. A oportunidade de trabalhar no projeto do RISJ, uma instituição de referência para os estudos de jornalismo no mundo, surgiu poucos meses depois que eu terminei o doutorado, no ano passado.

O POVO - Você tem o jornalismo político como uma das suas áreas de interesse. Quais as características (positivas e negativas) você destacaria na relação entre imprensa e política brasileira?

Camila Mont’Alverne - Talvez a principal limitação em relação à oferta de informação seja a concentração do mercado para as grandes empresas. Isso não necessariamente gera menor pluralidade, mas em alguns tópicos é difícil encontrar perspectivas discordantes. Uma diferença em relação a outros países, especialmente o Reino Unido, é uma certa resistência do jornalismo brasileiro em debater sobre si mesmo e mostrar-se mais transparente aos leitores. Provavelmente isto tem mais a ver com o fato de que os jornalistas acham que os procedimentos que utilizam são óbvios e não por uma tentativa de esconder algo, mas boa parte das pessoas realmente não sabe o que se passa e está tentada a acreditar na explicação conspiracionista que está disponível aos montes.

Em um cenário no qual muita gente consome informação pelas mídias sociais e não constrói relacionamento com as fontes (de informação) que usa, explicações sobre “os reais motivos” do jornalismo agir como age se tornam ainda mais atraentes. A cobertura brasileira, pelo menos de boa parte das empresas jornalísticas tradicionais, tem uma vantagem de procurar comportar-se como fiscal dos agentes políticos, que é uma das funções importantes do jornalismo do ponto de vista democrático. A qualidade e consistência com a qual isso é feito varia, mas em geral existe como um norteador da atividade e as pessoas reconhecem a importância, mesmo que em teoria. Prova disso é que nosso relatório mostra que há um enorme apoio à ideia de que uma das funções do jornalismo é fiscalizar os políticos independentemente do partido (86% dos brasileiros concordam com isso).

A pesquisa sobre o consumo de notícias foi realizado no Brasil, Estados Unidos, Índia e Reino Unido(Foto: GETTY IMAGES)
Foto: GETTY IMAGES A pesquisa sobre o consumo de notícias foi realizado no Brasil, Estados Unidos, Índia e Reino Unido

O POVO - Você acha que é essencial que os veículos se posicionem "à direita ou à esquerda", como acontece em outros países e como alguns entrevistados sugeriram nas pesquisas para o relatório?

Camila Mont’Alverne - Não acho que seja essencial nem que seja necessariamente saudável. Acredito que as publicações deveriam se posicionar em seus editoriais de forma mais semelhante ao que os jornais americanos (ou o Estadão, no caso brasileiro) fazem para ajudar o leitor a navegar as inclinações do que está lendo. Ao mesmo tempo, isso não é garantia de que a cobertura noticiosa estará isenta de posicionamentos. Ademais, há uma dificuldade extra no caso brasileiro, considerando que nossos dados mostram que somente 38% das pessoas sabem a diferença entre editorial (o espaço no qual o jornal apresenta sua opinião) e notícia.

Então, tomar posições mais abertamente vem com diversos riscos, sendo o primeiro deles a confusão sobre o que é informação e o que é opinião. Ainda assim, acho que também existe espaço para publicações que tenham seus posicionamentos ideológicos abertos. No entanto, não é uma fórmula que funciona para todos nem para todo suporte (no Reino Unido, por exemplo, embora os jornais sejam abertamente identificados com certas inclinações ideológicas, rádio e televisão precisam, por lei, observar o princípio da imparcialidade).

É importante também dizer que a maioria das pessoas diz preferir consumir notícias imparciais, ainda que o que elas entendem pelo termo varie. Um ponto adicional é o risco de as empresas jornalísticas se concentrarem em atender apenas aqueles que já são politicamente interessados e seu público mais próximo, o que pode contribuir para uma lacuna de informações voltadas a pessoas que não são “viciadas em notícia” e, em muitos casos, têm dificuldades de acompanhar o noticiário porque pouco veem a conexão com seu cotidiano.

O POVO - O relatório afirma que no Brasil, o percentual de confiança nas notícias do Google é maior do que o de qualquer outra empresa de comunicação no país. Qual o impacto em relação à enxurrada de informações falsas produzidas diariamente?

Camila Mont’Alverne - É importante ressaltar que esses resultados também mostram que as pessoas não têm o mesmo grau de confiança em outras plataformas, como Facebook e WhatsApp. Então, em alguma medida, o público sabe distinguir uma plataforma da outra, ainda que não necessariamente saiba a diferença entre as informações que encontra nelas. Este talvez seja um dos prejuízos mais significativos das plataformas: a confusão que elas facilitam a respeito da procedência da informação que as pessoas acessam. Torna-se mais difícil saber qual a fonte da informação e, até mesmo, criar um relacionamento com as organizações jornalísticas que seriam credíveis. Diante desse ambiente confuso, as pessoas adotam a postura de serem céticas em relação a tudo, até mesmo ao que seja produzido seguindo os critérios jornalísticos.

Além disso, o Google parece ser um caso particular no Brasil. Entrevistas qualitativas que fizemos em uma etapa prévia do projeto mostram que frequentemente ele é visto como uma fonte "isenta" pelos brasileiros porque seria responsável apenas por fazer uma curadoria do conteúdo disponível e é a ferramenta à qual as pessoas recorrem quando têm dúvidas sobre a veracidade de uma informação. Há também o contexto social, no qual as plataformas que normalmente estão na mira pela disseminação de desinformação não são o Google, mas muito mais Facebook e WhatsApp, o que provavelmente faz as pessoas ficarem mais atentas a elas.

O estudo do Instituto Reuters ouviu duas mil pessoas e cada um dos quatro países. No Brasil, a pesquisa de campo foi feita pelo Instituto Datafolha(Foto: GETTY IMAGES)
Foto: GETTY IMAGES O estudo do Instituto Reuters ouviu duas mil pessoas e cada um dos quatro países. No Brasil, a pesquisa de campo foi feita pelo Instituto Datafolha

O POVO - Há várias informações preocupantes no relatório, mas qual é a que te deixa mais apreensiva, já que você conhece nossa realidade local?

Camila Mont’Alverne - O argumento central, de que a grande diferença entre os grupos não é necessariamente de hostilidade, mas de indiferença, é uma das mais preocupantes. Isso tem relação com as várias desigualdades existentes, nas quais alguns segmentos simplesmente não enxergam valor em consumir informações jornalísticas porque se tratam de questões nas quais simplesmente não estão interessados e não veem a conexão delas com a própria vida. É importante que se diga que isso também acontece por uma dificuldade do jornalismo em dialogar com audiências que não sejam as habituais, mas que também está relacionado com um contexto de enorme competição pela atenção das pessoas. É um problema para o jornalismo como negócio e para a democracia, que requer pensar em estratégias para se aproximar desses grupos e demonstrar o valor que a informação produzida a partir dos princípios jornalísticos oferece quando comparada ao que está disponível e nem sempre passou pelo mesmo processo.

O POVO - Para finalizar: tomando como base o trabalho feito pela imprensa nas eleições presidenciais passadas, como você supõe que será o embate de 2022?

Camila Mont’Alverne - A cobertura do jornalismo tradicional na eleição passada foi tão boa quanto poderia ser. Houve o imponderável de um candidato sofrer um atentado e mudar toda a característica da campanha, o que também pegou o jornalismo desprevenido. Houve investigação e divulgação dos assuntos desconfortáveis para os principais candidatos e, ainda que se possa discordar da avaliação feita por algumas publicações em seus editoriais, a cobertura informativa não parece ter sido afetada, até porque eleições são momentos em que as redações estão com cuidado redobrado para evitar acusações de favorecimento.

Sobre 2022, será uma eleição complicada de se disputar e cobrir, já que parte dos apoiadores do presidente Bolsonaro (e o próprio) já demonstraram seu desprezo pelo jornalismo independente e alguns segmentos da esquerda não são muito mais amigáveis. Ainda assim, o jornalismo vem aprendendo a lidar com o comportamento do presidente e tem começado – talvez tardiamente – a chamar os ataques à democracia pelo que realmente são. Um ponto a se estar atento é à convocação de movimentos para atacar o regime democrático que têm um componente comunicacional fundamental, já que são pensados para demonstrar, por meio de imagens e vídeos, apoio ao presidente.

Ao mesmo tempo, alguns fatos são noticiáveis independentemente de que gostemos ou não deles e precisam ser reportados. É um equilíbrio fino. Políticos que estão sempre em campanha, como Bolsonaro, desafiam a lógica de como o jornalismo opera, mas acredito que há aprendizados. É importante também lembrar que o jornalismo não é responsável sozinho por tentar lidar com esses desafios. Outras instituições, como a Justiça Eleitoral, demoraram demais a agir contra o problema da desinformação e, na campanha de 2018, não adotaram as estratégias que poderiam ser mais efetivas. 

 

 

Como as notícias chegam até o leitor?

A gente explica como funciona a redação do O POVO

O relatório do Instituto Reuters / Universidade de Oxford apontou como principal questão sobre a confiabilidade nas notícias o fato de que aqueles que menos confiam nelas são também os que menos sabem como a maioria dos jornalistas faz seu trabalho. Por isso, fizemos um breve resumo do nosso dia-a-dia na redação do O POVO, que tem procedimentos semelhantes às das demais redações profissionais no restante do país. O jornal impresso é o único do Ceará a circular de domingo a domingo. Tem 93 anos e é o principal veículo do Grupo de Comunicação O POVO, que conta também com rádio, TV, portal de notícias online, redes sociais e plataforma multistreamig de conteúdo.

 


Fontes: Manual de Redação e Estilo do Senado Federal / Casa dos Focas

 

 

Ponto de vista >>

O pior cego é quem não quer ver

Por Flávia Pliveira (*)

Em relação ao público brasileiro, o levantamento do Instituto Reuters traça o perfil de quem não confia nas notícias(Foto: GETTY IMAGES)
Foto: GETTY IMAGES Em relação ao público brasileiro, o levantamento do Instituto Reuters traça o perfil de quem não confia nas notícias

O relatório mostra que as pessoas mais desconfiadas sobre como é feito o trabalho jornalístico são também as mais indiferentes em relação a ele. O que isto quer dizer? Que essas pessoas não acreditam nas notícias produzidas por jornalistas, mas não têm interesse em saber como elas são feitas.

Essa informação do relatório me fez lembrar de uma anedota: dois homens em um bar discutiam sobre o que haveria logo depois da colina. Um dizia ter um areal e outro, um rio. Como ambos estavam convictos, alguém sugeriu que fossem ver com os próprios olhos. Chegando lá, o que havia era um areal. O homem pegou um punhado e jogou no outro, dizendo “viu? areal!”, ao passo que o outro deu um pulo e gritou: “não me molha!”

Infelizmente, a falta de credibilidade no trabalho profissional da imprensa e a preferência por fontes que corroborem convicções próprias é um assunto sem um átimo sequer de graça. É um fenômeno mundial que ficou mais evidente durante a pandemia do novo coronavírus. Logo após as primeiras notícias sobre a Covid-19, surgiram inúmeras mensagens minimizando a doença e dizendo que o alarmismo era uma orquestração de governos e da mídia. Com o aumento vertiginoso de óbitos, passou-se a apontar remédios miraculosos para prevenção e cura, e essas mentiras causaram a morte de muitas pessoas que deixaram de usar máscaras e fazer distanciamento social.

O POVO faz parte do Projeto Comprova desde a criação deste, em 2018, no auge da campanha para a corrida presidencial, evento que coincidiu com a explosão das mentiras espalhadas como verdade. O Comprova é uma coalizão de 28 veículos de comunicação nacionais e agências de notícias comunitárias (saiba mais aqui). Desde o início da pandemia, dezenas de jornalistas – não só do Comprova, mas de diversas outras agências de checagem - têm se dedicado a apurar peças de desinformação que viralizaram, sendo estas das mais engenhosa às mais absurdas. O passo a passo desse trabalho é exposto ao público com prints de e-mails, mensagens, links de documentos e até áudios de entrevistas, de forma que o leitor possa entender como a apuração foi feita. No entanto, mesmo com esse bêabá, é muito comum ver ataques ao trabalho jornalístico e a defesa do conteúdo original, ainda que comprovadamente este seja uma mentira.

É a representação da piada, tal qual: um punhado de areia pode virar água aos olhos de quem prefere ver água e não areia.

(*) Flávia Oliveira é jornalista do O POVO e participou do Projeto Comprova em 2020-2021

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