Reportagem Especial

Crianças transformam brincadeiras em arte, ciência, esporte e estilo de vida

No especial do Dia das Crianças 2021, O POVO conta as histórias de crianças - ou quase - que podem até ter a cabeça nas nuvens, mas, por isso mesmo, sabem muito bem o que querem e são capazes de inspirar até os adultos

Crianças transformam brincadeiras em arte, ciência, esporte e estilo de vida

No especial do Dia das Crianças 2021, O POVO conta as histórias de crianças - ou quase - que podem até ter a cabeça nas nuvens, mas, por isso mesmo, sabem muito bem o que querem e são capazes de inspirar até os adultos
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Entre caçar asteroides e colocar os pés no centro do palco do teatro, há um sem-fim de possibilidades preenchido com matéria de sonho de menina e menino.

Feito começar uma brincadeira e nela esticar-se de tarde até a noite, esquecendo do tempo e do espaço. Cada pulo de criança carrega essa qualidade de demorar-se na imaginação, de prolongar as casas das horas e dos minutos, inventando um jeito próprio de estar no mundo.

Às vezes, porém, do brincar no presente passa-se logo ao futuro, como se, tão apaixonadas que estão pelo que fazem, as crianças ensaiassem uma viagem sideral. De modo que a pergunta “e se?”, dita no meio das fantasias a pretexto de mil invencionices, encontra resposta já agora.

É o caso da Nicole Oliveira, 8, que fez do espanto com o céu ainda miúda um passo a passo que foi seguindo até chegar a essa conta fabulosa: mirando o espaço, a menina catou quase duas dezenas de asteroides. Enxergou-os um a um, como quem encontra formiga nas plantas do jardim ou peça de Lego na bagunça dos brinquedos.

É marca superlativa mesmo para adulto, imagine-se para quem teve de conciliar o aprendizado das letras, maratona de desenho animado e o desbravamento do infinito e além.

Mas é a viagem que o Dia das Criança celebra. A viagem e seus tripulantes-mirins, todos devidamente equipados com estoques de fabulação e aquela coragem imensa de arriscar firmada no juízo que só os muito pequenos têm.

É assim que o Klaus, 8, vai talhando o próprio caminho, entre a música e a terra, a natureza e esse gosto cultivado de atravessar o rio e chegar ao outro lado do Pantanal, aonde quer estar para descobrir o que só ele pode.

Também Any Maia, 13, faz sua procura. Atriz e modelo e bailarina e aprendiz de ginasta e tanta coisa que ainda nem sabe, numa idade em que se cruzam a criancice e a pré-adolescência, ensaia voo na televisão, mas sem descuidar do afeto aos animais.

É como se, cada um a sua maneira, estivessem ensinando aos mais crescidos, os adultos, que o mundo é vasto, as estrelas, uma poesia, e a natureza, um bem maior do que qualquer outro, sem o qual tudo o mais fica desajustado.

 

 

A galáctica história de Nicole

por Catalina Leite

Quando Nicole Oliveira começou a dar os primeiros passos, ela ergueu os braços para o céu, tentando pegar o estrelas.(Foto: JARBAS OLIVEIRA / AFP)
Foto: JARBAS OLIVEIRA / AFP Quando Nicole Oliveira começou a dar os primeiros passos, ela ergueu os braços para o céu, tentando pegar o estrelas.

― O que me deixa mais triste é quando as pessoas falam que a Terra é plana.

Risos na chamada em vídeo. “Meu Deus, Nicole, a tia tá gravando isso…”, gargalha a mãe, Zilma Janaka, fora de quadro. Pergunto: “E se te dissessem isso na tua cara, o que tu dirias?”

― Ah! Vai estudar, né? ― rimos todas. Nicole Oliveira, de apenas 8 anos, é a astrônoma amadora mais jovem do mundo. Já identificou 23 asteroides e, desde maio de 2021, tem um clube online para crianças, que oferta palestras, aulas e oficinas sobre ciência.

Até o começo de outubro, o clube Nicolinha & Kids somava 72 crianças cadastradas e ativas. “Tem muita criança querendo começar a fazer divulgação científica”, comemora Nicolinha. “A gente dá apoio para elas também, para que [a divulgação científica] não acabe só na Nicolinha”, explica Zilma.

Nicole Oliveira, 8 anos, é a astrônoma mais jovem do Brasil.(Foto: FCO FONTENELE)
Foto: FCO FONTENELE Nicole Oliveira, 8 anos, é a astrônoma mais jovem do Brasil.

A trajetória da Nicole, por outro lado, começa quando ela tinha dois anos de idade. Foi quando ela começou a admirar o céu noturno e pedir à mãe uma estrela. “Agora eu sei que não é possível”, brinca. Depois, em 2020, enquanto assistia a uma transmissão ao vivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), ela descobriu que poderia caçar asteroides.

Como um foguete, Nicole correu para se inscrever. No entanto, nenhum coleguinha da escola aceitou compor a equipe com ela; uma obrigatoriedade no projeto Caça Asteroides MCTI. Então, os pais decidiram participar com a filha, mesmo que no final das contas todo o processo de busca por asteroides tenha sido feito unicamente por Nicole.

“Eu me senti muito sozinha”, conta a astrônoma. Mas persistiu mesmo assim e agora pode compartilhar sua paixão com 3,51 mil inscritos no YouTube e 22 mil seguidores no Instagram. Nicolinha também é acompanhada pelas amigas virtuais Sabrina Cordeiro, 12, e Sara Gabriele, 13, nas lives Falando de Astronomia Kids. Ambas são astrônomas amadoras e divulgadoras científicas.

Nicole tem um canal do YouTube com mais de 3 mil inscritos.(Foto: FCO FONTENELE)
Foto: FCO FONTENELE Nicole tem um canal do YouTube com mais de 3 mil inscritos.

 

Os haters não perdoam nem as crianças

Embaixadora do Planetário Rubens de Azevedo, em Fortaleza (CE), e sócia do Centro de Estudos Astronômicos de Alagoas (Ceaal), Nicolinha não está imune aos haters da internet. “Eu sofri bastante com os ataques de quando ela foi para Brasília. Ela recebeu muitas mensagens ruins nos posts dela quando ela entrevistou o ministro [Marcos Pontes]”, relembra Zilma.

Desde que Nicolinha começou com os canais, a mãe recebeu o trabalho hercúleo de cuidar de todas as redes sociais e, por consequência, apagar todos os comentários maldosos. Zilma chegou a pedir para Nicole desistir e deixar o trabalho de divulgação com os adultos ― afinal, valia mesmo a pena tanto ódio? Mas Nicolinha bateu o pé e disse: “Eu amo isso. Nunca vou desistir!”

O posicionamento foi forte e certeiro. Até porque a menina já tinha enfrentado preconceitos antes, da própria família. Muitos chegaram a comentar que “isso não é coisa de menina”, que “essa não é a maneira de menina se vestir” e que “ela é muito pequena para trabalhar com isso”. “Esses comentários que não são legais, eu não ligo”, reforça Nicolinha. “Eu vou seguir a minha carreira do jeito que eu sou”, sorri.

 

 

 

Any Maia: a arte do presente

Por Bruna Forte

Atriz Any Maia, 13, habita o fabuloso mundo entre a infância e a adolescência (Foto: Barbara Moira)
Foto: Barbara Moira Atriz Any Maia, 13, habita o fabuloso mundo entre a infância e a adolescência

Os pés de Any Maia, inquietos desbravadores, tocaram o palco pela primeira vez quando a menina tinha somente dois anos de idade. "Quando subi no palco, senti algo que não sei explicar... Meus olhos brilharam, eu me encantei. Desde então, não parei mais", relembra a atriz cearense. Aos 13, a intérprete da princesa Isabel na novela global "Nos Tempos do Imperador" (2021) segue apaixonada pela arte de atuar: Any não "vai ser quando crescer", Any já é. Com mais de uma década de carreira, 23 personagens e diversas premiações, a artista habita o fabuloso mundo entre a infância e a adolescência.

"Entrei no teatro pela minha irmã Alyce. Ela fazia teatro na escola e eu ficava assistindo apaixonada, encantada. Um dia, faltou uma atriz e me chamaram para fazer a mesma peça que a minha irmã e foi incrível porque eu sonhava em estar lá. Interpretei uma macaquinha no Tarzan. Minha primeira personagem foi a Branca de Neve pequena no teatro da escola", relembra Any. Na dramaturgia, integrou em 2018 o elenco do musical "A Noviça Rebelde" — e carrega Brigitta como uma das suas mais relevantes interpretações pela identificação. "Ficamos em cartaz durante meses no Rio, foi maravilhoso! Mas todas as personagens foram muito especiais, não consigo escolher uma", ri.

Atriz mirim Any Maia(Foto: Barbara Moira)
Foto: Barbara Moira Atriz mirim Any Maia

Any já contracenou com nomes como Larissa Manoela, Marcelo Serrado, Gabriel Braga Nunes, Selton Mello, Mariana Ximenes, Letícia Sabatella, Bel Kutner e Lu Grimaldi. "Foi uma experiência maravilhosa, adorei trabalhar com esses grandes atores, eles davam dicas perfeitas e são super gente boa", garante. A interpretação da princesa Isabel marca a estreia da cearense na televisão: "A princesa foi importante para mim e para o Brasil, então eu gostei muito de atuar. Colei no meu quarto várias coisas sobre ela, pesquisei tudo, tô lendo um livro sobre a vida dela!", compartilha. Vencedora dos troféus de melhor atriz Mirim do Ceará em 2016, 2017 e 2018, Any passou sete meses no Rio de Janeiro para gravar a novela.

Estudante, atriz, modelo, bailarina e aprendiz de ginástica rítmica, Any concilia o amor pelas artes cênicas com outra paixão: os animais. A pequena é embaixadora da ONG Abrace, que promove adoções responsáveis entre bichinhos e seus novos companheiros humanos. "Eu não sei explicar como as pessoas conseguem abandonar os animais. A ONG ajuda muitos animais carentes, eu me sinto muito feliz em apoiar", ressalta. Os amigos de quatro patas enchem a casa de Any: a atriz tem sete cachorros e um gato.

"Hoje, meu grande sonho é morar fora, fazer trabalhos, filmes, séries. Sou doida para trabalhar em outros países — não importa onde, eu vou pra todo lugar", adianta. Para Any, com toda dedicação e respeito pela arte, sonho é também realidade.

  

 


Aos 7 anos, Klaus é vegano e sonha em conhecer o Pantanal

Por Euziane Bastos (*)

Klaus Sant'Anna, 7, ambientalista, vegano e com uma relação muito forte com a natureza desde os primeiros anos de vida.(Foto: BÁRBARA MOIRA/ O POVO)
Foto: BÁRBARA MOIRA/ O POVO Klaus Sant'Anna, 7, ambientalista, vegano e com uma relação muito forte com a natureza desde os primeiros anos de vida.

Areia nos pés e cabelos ao vento...assim cresceu Klaus Sant´Ana Veras, que agora tem 7 anos. Apesar dos poucos anos de vida, o garoto já possui uma personalidade e tanto. É uma criança amável, porém decidida; o sol em gêmeos não deixa a desejar.

Tão forte quanto seu nome é a sua energia, Klaus não titubeia em suas respostas. É fã dos Beatles e de heavy metal, é vegano e possui uma conexão muito forte com a natureza. Seu maior sonho foge aos padrões infantis da atualidade midiatizada: quer conhecer o Pantanal.

Quando questionado sobre o porquê de tal sonho, ele diz “quero ver um jacaré de perto”. A mãe de Klaus, Sol Sant’Ana, conta que possui um boneco que ela utiliza para conversar com seu filho sobre meio ambiente, e assim o garotinho aprende cada dia mais sobre o espaço que nos cerca.

Klaus Sant'Anna, 7, ambientalista.(Foto: BÁRBARA MOIRA/ O POVO)
Foto: BÁRBARA MOIRA/ O POVO Klaus Sant'Anna, 7, ambientalista.

Ele costuma acompanhar seus pais em suas jornadas, seja visitando a praia e limpando o lixo que polui as águas, seja participando de sessões de yoga —das quais a mãe é instrutora.

Sol compartilha vídeos de Klaus em suas redes sociais (@heavymother), momentos espontâneos em que ele não está sendo nada mais do que ele mesmo. Em um deles, Klaus está ao lado de um pé de maniçoba, árvore típica do Nordeste, que ele mesmo havia plantado. “Eu me sinto feliz'', diz ao constatar que a plantinha ainda estava viva.

Meses depois, a planta acabou morrendo; Klaus ficou triste, mas não desanimou. “Vou plantar outra”, decidiu.

“Com o avanço da idade, ele começou a apresentar saltos de desenvolvimento. Uma jornada de autoconhecimento íntimo e desafiador”, diz a mãe. Agora, Klaus não precisa mais de ajuda para pentear os seus longos cabelos e também não precisa que fiquem mandando ele ir tomar banho. “É bom tomar banho quando a gente tá com vontade, e não quando as pessoas mandam”, afirma.

Em fevereiro deste ano, Klaus se tornou um estudante do 1º ano do ensino fundamental. Por conta da rotina escolar e do novo ambiente, a descoberta do mundo exterior vem trazendo um comportamento mais reservado, mas nada que destoe da sua essência transbordante.

O ditado “os filhos são os reflexos dos pais” ainda vale, mas Klaus segue criando o seu próprio reflexo.

(*) Especial para O POVO

 


 
 

 

Miguel Frota, o esportista que esbanja felicidade na quadra, no campo e na areia

Por Mateus Moura

 

 Miguel Rocha joga Futsal, futebol de campo e beach tenis(Foto: Aurelio Alves)
Foto: Aurelio Alves Miguel Rocha joga Futsal, futebol de campo e beach tenis

Com um 1,20m, Miguel Frota ainda é pequeno para o tamanho de seus sonhos. Aos oito anos, ele já vislumbra um futuro brilhante. "Quero ser um grande jogador de futebol", resume o menino, que se sente triste quando alguém se machuca, é fã do craque português Cristiano Ronaldo e tem como lema ser sempre feliz.

Tímido com as palavras, Miguel se sente à vontade mesmo quando entra em quadra, seja no campo ou na caixa de areia. No dia a dia, o sorridente garoto pratica três modalidades diferentes de esporte: futsal, futebol society e beach tennis. Segundo a mãe, Mariana Frota, Miguel demonstra aptidão com a bola desde que deu os primeiros passos.

Miguel tem aptidão com a bola desde os primeiros passos(Foto: Aurelio Alves)
Foto: Aurelio Alves Miguel tem aptidão com a bola desde os primeiros passos

"O Miguel sempre mostrou muito interesse no futebol, o pai também sempre estimulou. Desde quando aprendeu a andar, ele teve interesse em chutar bola. Sempre foi fã de esportes. Em casa, nós gostamos muito de esporte e com o Miguel não poderia ser diferente. Ele entrou na escolinha com quatro anos de idade e aos seis entrou para a seleção de futsal do Eusébio. Ele começou a praticar o beach tennis com sete anos, é uma nova paixão", contou.

No beach tennis, modalidade da moda nas praias cearenses, o atleta preferido de Miguel é o seu xará, Miguel Peres, jogador profissional da modalidade. Já no futebol, o garoto gosta do atacante português Cristiano Ronaldo, que atua no Manchester United, da Inglaterra. “Eles são destaques no esporte que praticam”, explicou, em tom de admiração.

 Miguel pode até ser econômico com as palavras, mas se comunica como gente grande com a bola (Foto: Aurelio Alves)
Foto: Aurelio Alves Miguel pode até ser econômico com as palavras, mas se comunica como gente grande com a bola

Mesmo durante os momentos mais críticos da pandemia de Covid-19, onde foi necessário o isolamento completo, Miguel não deixou de brincar com a bola, ainda que sozinho. Acabou na necessidade descobrindo um novo universo: o videogame. É por isso que ele sequer titubeou ao ser questionado sobre o que desejava de ganhar no Dia das Crianças: “Playstation 5”, disse, deixando o pai, Raphael Rocha, em uma saia justa, já que o console custa em média R$ 5 mil.

“No começo da pandemia foi bem difícil. O Miguel é uma criança muito ativa. Mas sempre que dava ele pegava uma bola e jogava dentro de casa, sozinho. Ele passou a jogar mais videogame na pandemia, principalmente no começo, quando todo mundo estava trancado. De uma forma geral, ele se deu bem porque é muito família. A gente se aproximou ainda mais e conseguiu fazer coisas que não conseguíamos a muito tempo por conta da correria do dia a dia”, relembrou Mariana.

Nesta terça-feira de Dia das Crianças, a certeza é de leveza no reencontro com os primos para o tradicional banho de piscina, realizado anualmente na data pelos familiares. Para Miguel, é mais uma chance de exercer o lema é ser sempre feliz.

 


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  • Edição O POVO+ Regina Ribeiro
  • Edição de arte Cristiane Frota
  • Recursos digitais Catalina Leite
  • Textos Henrique Araújo, Catalina Leite, Bruna Forte, Euziane Bastos / Especial para O POVO e Mateus Moura
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