Reportagem Especial

Descubra qual Clube de Leitura se encaixa no seu perfil

Clubes de leitura explodem durante o confinamento da Covid-19, se estabelecem em formatos híbridos nos pós-pandemia e impulsionam novos leitores. Descubra aqui um clube que se encaixa no seu perfil de leitor.

Descubra qual Clube de Leitura se encaixa no seu perfil

Clubes de leitura explodem durante o confinamento da Covid-19, se estabelecem em formatos híbridos nos pós-pandemia e impulsionam novos leitores. Descubra aqui um clube que se encaixa no seu perfil de leitor.
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Era a primeira vez desde março de 2020 que o Clube de Leitura da Sublime, que se reunia mensalmente na Confeitaria Sublime, se reencontrava. A tarde de sábado, 23 de outubro de 2021, foi um marco que entrou para a história do clube. A pandemia que isolou o mundo em casa, e reduziu ao máximo a permanência de pessoas em espaço fechado, levou para plataformas de encontros virtuais todos os clubes de leitura em funcionamento e ainda foi responsável pelo surgimento de não se sabe quantos pelo país afora. Mas se sabe que pandemia e leitura se tornaram a dupla da vez. Tanto que o próprio Clube da Sublime vai manter os encontros nos dois formatos. Presencial e online.

“Foi muito emocionante. Senti como se a gente tivesse juntando os pedaços de alguma coisa e formando uma outra figura até mais bonita. Era visível como as pessoas estavam emocionadas e contentes por estarem no encontro”, narra Nara Barreto, psicóloga, que divide a mediação do Clube da Sublime com Charlene Ximenes.

Nara Barreto, psicóloga, faz a mediação do Clube de Leitura da Sublime que realizou dia 23 de outubro o primeiro encontro presencial desde março 2020 (Foto: (Thais Mesquita/OPOVO))
Foto: (Thais Mesquita/OPOVO) Nara Barreto, psicóloga, faz a mediação do Clube de Leitura da Sublime que realizou dia 23 de outubro o primeiro encontro presencial desde março 2020

Airton Jr, chef da Confeitaria Sublime e idealizador do clube há cerca de cinco anos conta que os encontros virtuais deram tão certo durante a pandemia que faz o clube crescer com a participação de integrantes de outros estados, pessoas que conheciam o clube de ouvir falar, mas que se transformaram frequentadoras no online. Mesmo com a arrefecimento da Covid-19, devido à vacinação, há cuidados com os quais Airton não abre mão e limitou a participação presencial no clube a 20 pessoas, com inscrições prévias pelo Instagram da confeitaria, 10 dias antes de cada encontro.

A psicóloga Nara Barreto que está no Clube da Sublime desde o início do projeto com Larissa Alverne - então mediadora do clube – viveu o boom dos encontros virtuais em torno dos livros durante a pandemia. Além do Sublime, ela resolveu tocar outros encontros com temáticas e livros diversos reunindo clubes já iniciados e outros que começaram no confinamento. Assim, ela encontrava gente no “Se eu Clarice”, no “Chop com Palavras”, no Colcha de Leituras, no “Erotique”. Para 2022, ela já tem planos de pôr em marcha o Clube de Leitura Evoé com textos que unam psicologia e literatura.

Airton Júnior, chef da confeitaria Sublime e idealizador do Clube de Leitura da Sublime, que se manteve online durante a pandemia (Foto: Bárbara Moira)
Foto: Bárbara Moira Airton Júnior, chef da confeitaria Sublime e idealizador do Clube de Leitura da Sublime, que se manteve online durante a pandemia

“Houve um aumento da procura por esses espaços de leitura e de troca”, afirma a psicóloga, que já manejava a literatura no consultório com os pacientes, ao comentar sobre a explosão da leitura e dos clubes desde o início da pandemia. “A literatura promove um efeito catártico. Os clubes de leitura são um espaço de escuta, de validação da fala, da dor e dos pensamentos. Num momento de luto, solidão, saudades, os clubes se tornaram um lugar muito importante e mesmo com a nossa forte cultura da presença, a participação online tem sido constante”.

Por mês, Nara encontrava-se com cerca de 100 pessoas distribuídas em diversos clubes de leitura, com um público majoritário formado por mulheres de vários lugares do Brasil. “Estar com essas pessoas teve um efeito fortalecedor e foi essencial para minha saúde mental. Ficamos eu e meu companheiro num apartamento de 60 metros quadrados, então, estar com elas, trocar sentimentos, rir e chorar ajudou a me manter nos trilhos”, confessa a psicóloga.

Rebeca Pinheiro de Oliveira faz parte do Clube de Leitura do Pacote e do Clube de Leitura de Edimburgo, no Reino Unido. Os dois funcionam virtualmente(Foto: Barbara Moira )
Foto: Barbara Moira Rebeca Pinheiro de Oliveira faz parte do Clube de Leitura do Pacote e do Clube de Leitura de Edimburgo, no Reino Unido. Os dois funcionam virtualmente

A primeira vez que Rebeca Pinheiro participou do Clube de Leitura do Pacote de Textos, o mundo era outro. Esteve numa cafeteria, em 2019, discutindo o livro “Em cada momento ainda estamos vivos”, do autor sueco Tom Maimquist. Lembra-se com carinho do prazer de estar “num lugar aberto para as opiniões, livros, sentimentos, reflexões e dúvidas”. 

Quando a pandemia pegou a todos de surpresa, “os encontros virtuais do clube de leitura foram providenciais”, afirma a pedagoga, com formação também em Direito. “Era um momento em que eu saía da realidade da casa e do trabalho e me conectava com as pessoas. Era uma forma de manter a sanidade mental. A literatura mexe muito com a gente”, conta Rebeca. Além de ler autores nacionais e estrangeiros em português, Rebeca decidiu ler também em inglês para aprimorar a língua. Atualmente, ela é a única brasileira nos encontros do Clube de Leitura de Edimburgo, no Reino Unido, junto com ingleses e gente da Espanha e da Itália.

 Rafael Caneca, escritor e idealizar do Clube de Assinaturas Pacote de Texto (Foto: (Thais Mesquita/OPOVO))
Foto: (Thais Mesquita/OPOVO) Rafael Caneca, escritor e idealizar do Clube de Assinaturas Pacote de Texto

O escritor e idealizador do Clube de Assinaturas Pacote de Texto, Rafael Caneca, decidiu criar o Clube do Pacote no formato online e permanente em janeiro de 2021. Realizava encontros esporádicos na pré-pandemia, mas durante o confinamento, a demanda veio dos próprios assinantes que viu crescer de forma nunca vista. De cerca de 40 novas assinaturas por mês, ele chegou a ter 150 novos assinantes e administrar a carência de alguns títulos com as editoras para dar conta da alta na demanda.

O clube Pacote de Texto seguiu a tendência do setor dos clubes de assinaturas que cresceram 60% em 2020 em relação a 2019 e destes, a os clubes de livros respondem por 27%, segundo dados da Betalab. De acordo com a Snel, de janeiro a setembro de 2021, a venda de livros teve um crescimento de 38,9% em relação a 2020 e os 36,1 milhões de livros vendidos já é maior do que o volume de 2019, na pré-pandemia. 

“Eu acredito muito no poder da literatura. Nesse momento, muita gente redescobriu o hábito da leitura como possibilidade de pensar seu lugar no mundo”, reflete Rafael Caneca que já planeja voltar aos encontros presenciais do clube no ano que vem, mas manter as transmissões online com a participação de leitores de outros estados.

A professora Adriana Furtuoso teve  sua primeira experiência com o Clube de Leitura da TAG Fortaleza durante o confinamento. Estava concluindo um mestrado em Letras, com atividades numa escola em Trairi, onde é professora, e ainda havia o trabalho doméstico e a filha pequena. “Foi um tempo muito difícil, com muita gente morrendo, a nova rotina. Então a literatura foi importante para minha saúde mental por ser um momento de fruição”.

Leitoras durante o primeiro encontro presencial do Clube da Sublime, em 23 de março de 2021. O clube me mantinha virtual desde o início da pandemia (Foto: (Thais Mesquita/OPOVO))
Foto: (Thais Mesquita/OPOVO) Leitoras durante o primeiro encontro presencial do Clube da Sublime, em 23 de março de 2021. O clube me mantinha virtual desde o início da pandemia

A participação do clube foi possível devido aos encontros online: “Eu acompanhava as postagens no aplicativo do Clube e tinha muito interesse. Justamente por ter se tornado virtual, foi possível pra mim”, comemora Adriana, que além do clube mensal do livro da curadoria da TAG, ela também entrou para o clube das leituras clássicas. Além de dois clubes, ela criou na escola onde trabalha uma Tertúlia Literária e Pedagógica para incentivar a leitura de um livro por mês. Ficou tão empolgada que chegou a fazer um encontro com os pais dos alunos e os escritores do município, além dos professores.

“Foi surpreendente a adesão”, lembra a mestre em Literatura e professora. “Alguns professores achavam que ia ser um momento chato, que o texto literário era algo chato, mas viram como a discussão de um livro de literatura pode ser apaixonante”.

Rebeca Pinheiro, clubista, dá dicas de como escolher o clube ideal para cada tipo de leitor(Foto: Barbara Moira )
Foto: Barbara Moira Rebeca Pinheiro, clubista, dá dicas de como escolher o clube ideal para cada tipo de leitor

Essa paixão tardia ou o retorno a uma antiga paixão tem sido observada pelo idealizador do Clube da Sublime, Airton Júnior. Ele conta que pessoas que não participavam do clube ou mesmo não tinham a leitura entre as práticas prediletas, ou a havia deixado de lado passaram a procurar o clube de leitura. “Ficaram encantadas e hoje têm a leitura de literatura como um hobby. A leitura e o clube se tornaram um momento de desacelerar do cotidiano tão corrido”, afirma.

Rebeca Pinheiro, por sua vez, dá três dicas para quem quer se tornar um clubista. “O principal é encontrar um clube que se encaixa com seu perfil de leitor”. Se gosta de ler romance policial, pode estranhar se entrar para um clube que lê os livros de Clarice Lispector, por exemplo.

A segunda dica de Rebeca é escolher um horário do dia para ler, pela manhã ou à noite ou até no trajeto de casa para o trabalho, se for o caso. Em terceiro lugar, ela aconselha que se tenha o livro sempre à mão e aproveitar todos os momentos para ler. “Até na fila da vacina”.

 

 

 

Clubes de leitura

Navegue pelos botões abaixo e encontre um clube de leitura que se encaixe no seu perfil de leitor. Ao clicar nos botões, os textos aparecerão no meio da tela do recurso, então talvez seja preciso deslizar a tela para baixo. 

 

 


 

 

Em torno de textos ou da palavra oral, grupos de leitores ou ouvintes desafiam modernidades

 

Os clubes de leitura nasceram em vários lugares quase ao mesmo tempo. Nos países europeus e Estados Unidos, os clubes surgidos a partir de meados do século 18 discutiam os mais diversos temas e reuniam distintos pensadores, mas estavam unidos por uma característica comum: eram frequentados exclusivamente por homens. O ambiente começou a mudar com os saraus dos salões franceses que tinham mulheres como anfitriãs, até chegar ao século 21, quando garotas de todas as idades dominam os clubes no Brasil e em muitos outros países.

 Winona Evelyn no Festival Slam Laje  em janeiro de 2020(Foto: 11 19:35:44)
Foto: 11 19:35:44 Winona Evelyn no Festival Slam Laje em janeiro de 2020

No País, os clubes de leitura ganharam maior impulso a partir da fusão de editoras brasileiras com grandes grupos do mercado de livros internacionais já nos anos 2000. O Slam é outra manifestação de grupos que se reúnem em torno da palavra literária. Atuam principalmente nas periferias dos grandes centros urbanos e realizam batalhas de poesia autoral.

Na África Ocidental, os griots – contadores de histórias tradicionais africanas - são responsáveis até hoje pela conexão entre os povos africanos com seu passado ancestral.

 

  

Eu, leitora e clubista 

 

Regina Ribeiro, jornalista(Foto: Mara Rosalia )
Foto: Mara Rosalia Regina Ribeiro, jornalista

Compartilhar com alguém uma leitura, talvez seja uma das conversas mais prazerosas que se pode ter. O mais interessante dessa prática é o quanto a leitura aproxima as pessoas. De repente, um desconhecido se torna um companheiro que viveu com você experiências semelhantes. A pessoa esteve comigo na travessia de uma cena e sentiu o mesmo que eu ou alguma coisa bem diversa.

Por vezes emprestei livros para alguns amigos e incentivei a leitura, só para ter alguém com quem conversar sobre as obras. E recebi alguns ler e compartilhar impressões. Por isso, gosto de participar de clubes de leitura, embora seja um pouco indisciplinada com os clubes, porque às vezes meus interesses mudam e os livros indicados não me interessam.

Atualmente faço parte de dois clubes. Um que reúne assinantes de Fortaleza e outro com a temática que envolve Literatura e Psicanálise com pessoas de várias partes do Brasil. Nos dois, a experiência é a mesma. Independente da formação, da profissão, do tempo, todos nós estamos diante de um livro lido e vamos conversar sobre ele. E essa conversa é feita de forma muito simples.

Em setembro último, participei de uma jornada de leitura de literatura italiana, num projeto da USP. Fiquei pensando por que não tinha lido ainda tantos livros interessantes e por que só lia basicamente Umberto Eco e Elena Ferrante? Mesmo sem ter lido tantos outros autores, a experiência da leitura me alcançou de forma inesquecível.

Um clube de leitura é mais ou mesmo como uma confraria. A gente se irmana em torno dos personagens, dos sentimentos, da linguagem literária, da prática leitora. Quase uma espécie de útero. Quando acaba o encontro do clube, a gente nasce, respira a realidade e traz consigo toda a vivência daquele espaço em comum. Com certeza, a vida fica melhor, menos tormentosa. (Regina Ribeiro)

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