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Novo mapa da vida: chegar bem aos 100 anos será cada vez mais possível
Reportagem Especial

Novo mapa da vida: chegar bem aos 100 anos será cada vez mais possível

As descobertas científicas sobre o envelhecimento e a mudança na expectativa de vida levantam questionamentos que merecem soluções práticas e urgentes. Afinal, estamos preparados para viver tanto?

Novo mapa da vida: chegar bem aos 100 anos será cada vez mais possível

As descobertas científicas sobre o envelhecimento e a mudança na expectativa de vida levantam questionamentos que merecem soluções práticas e urgentes. Afinal, estamos preparados para viver tanto?
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Aos 102 anos e seis meses, seu Antônio Medeiros acorda pela manhã cedo e sai para comprar o pão que vai quebrar o jejum. Se a vontade bater, também passa na bodega e leva algumas frutas para depois do feijão com ovo do almoço. Todo mundo o conhece na vizinhança do Jacarecanga, bairro onde mora em Fortaleza. Natural de Santa Quitéria e pai de dez filhos, ele gostava de passar o Carnaval em Pacoti antes da pandemia.

Na última vez em que esteve no meio da folia, vestiu-se de super-homem e posou para várias fotos de pessoas que se admiravam com sua idade (estampada na fantasia) e vitalidade. Seu Antônio não fuma, não bebe e ostenta uma saúde de aço: pegou covid recentemente mas se recuperou bem, e segue sem tomar nenhum remédio além de algumas vitaminas. A velhice só tomou dele um pouco da audição e a firmeza das pernas — nada que uma bengala e o cuidado da família não dêem jeito.

Antônio Medeiros, 103 anos, e o filho Negreiro Magalhães nas ruas do bairro Jacarecanga, em Fortaleza (Foto: Acervo pessoal)
Foto: Acervo pessoal Antônio Medeiros, 103 anos, e o filho Negreiro Magalhães nas ruas do bairro Jacarecanga, em Fortaleza

“Ele grava vídeo para postar nos grupos de mensagem, é alegre. Se fantasiava de Papai Noel no Natal. Ele sempre teve muita alegria de viver, apesar de ter sido uma pessoa simples. Acho que ele nunca pensou em chegar aos 100 anos, porque ele trabalhava no roçado e a comida era só farinha com rapadura”, afirma o filho Negreiro Magalhães.

Se alegria e conversas na calçada fazem parte da receita de longevidade do seu Antônio, ter fé e um propósito diário são as indicações da dona Francisca Miguel de Menezes, 96 anos, natural de Fortaleza e residente do bairro Parquelândia. Depois de muitos anos se dividindo entre o trabalho pesado das fábricas têxteis e os cuidados com a família, ela ainda faz pequenas tarefas domésticas e vai à Igreja de Cristo no Parque Araxá.

“Enquanto eu estiver lúcida, considero a minha vida boa. Sentir uma dor ou outra é normal, não é? Viver é muito bom! Fui criada no mocotó de boi. Os mais novos de hoje, coitados, comem coisas que nem são chamadas de comida”, diz dona Francisca.

Francisca Miguel tem 96 anos, 'lucidez e vida boa'(Foto: Thais Mesquita)
Foto: Thais Mesquita Francisca Miguel tem 96 anos, 'lucidez e vida boa'

Segundo Ana Maria Justo, professora do Departamento de Psicologia na Universidade Federal de Santa Catarina e pesquisadora na área de envelhecimento e atenção ao idoso, pessoas com 100 anos ou mais e gozando de certa autonomia devem ser cada vez mais comuns nos lares brasileiros.

“Em 2030, o Brasil vai ocupar a quinta posição do mundo em número de idosos. Já em 2060 teremos mais pessoas acima de 60 anos do que crianças no país, em torno de um em cada quatro habitantes. Considerando esse envelhecimento populacional que estamos vivendo de modo bastante intenso, a Organização Pan-americana de Saúde (Opas) definiu esta como a década do envelhecimento saudável”, indica. Vale lembrar que em dezembro de 2021 a Opas, braço da Organização Mundial de Saúde (OMS), havia desistido de incluir a velhice na nova versão CID 11 (Classificação Internacional de Doenças), que entrou em vigor em janeiro deste ano.

 

 

Os centenários em números

 

Quando se fala em longevidade no Brasil, Santa Catarina ocupa o primeiro lugar no ranking, com média de 79,9 anos, de acordo com um relatório publicado no ano passado pelo Instituto de Longevidade Mongeral Aeron em parceria com a Fundação Getúlio Vargas. O número está acima da média brasileira, que é de 76,6 anos. “Os motivos para a liderança são determinantes: acesso aos serviços de saúde, assistência social e a determinadas condições econômicas que permitem essa maior longevidade”, complementa Ana Maria. Ainda de acordo com o estudo, Fortaleza estaria na 187ª posição entre os 876 municípios estudados em relação aos cuidados com a população acima de 75 anos, tomando como base indicadores como saúde, bem-estar, habitação e trabalho, dentre outros.

 

 

As "zonas azuis" do envelhecimento

“Saindo do Brasil e analisando a situação dos países desenvolvidos, vemos que graças aos avanços da ciência, ultrapassar os 100 anos será possível. Aí pergunto: o mundo está preparado para os centenários? Não. É preciso fazer mudanças na educação e no trabalho para que sejam compatíveis com pessoas 100+”, aponta. “O envelhecimento não demanda apenas políticas públicas e também não se restringe aos cuidados que cada um precisa ter com a saúde. Para governos, é um desafio porque essa população precisará de serviços de apoio por longos períodos durante a velhice. Para eu e você, viver mais significa também lidar com problemas financeiros relacionados à velhice, que vão desde a diminuição da capacidade de lidar com as contas do dia a dia até a dificuldade de bancar os cuidados especiais necessários”, acrescenta.

 

 

Para saber mais sobre o envelhecimento

 

 

>> Entrevista

“As instituições de longa permanência vão ser uma necessidade para a população 100+”

As carências de políticas públicas para os idosos e o cenário exposto no relatório que analisou as condições de 876 cidades brasileiras são os temas dessa conversa com o  gerente institucional do Instituto de Longevidade MAG, Antônio Leitão. Leia os principais trechos. 

Antônio Leitão é gerente institucional do Instituto de Longevidade MAG, entidade que elabora Índice de Desenvolvimento Urbano para a Longevidade (IDL) em parceria com a FGV/EAESP(Foto: Luciana Whitaker e Chico Ferreira - Divulgação)
Foto: Luciana Whitaker e Chico Ferreira - Divulgação Antônio Leitão é gerente institucional do Instituto de Longevidade MAG, entidade que elabora Índice de Desenvolvimento Urbano para a Longevidade (IDL) em parceria com a FGV/EAESP

O POVO - Estamos envelhecendo, mas não temos políticas públicas suficientes específicas para a terceira idade. Quais seriam as ações prioritárias para esse grupo que cresce a cada ano?

Antônio Leitão - É mesmo um grupo em crescimento, e a quantidade de pessoas na casa dos 80 anos tem uma velocidade de crescimento maior do que as de 60, por exemplo. O Índice de Desenvolvimento Urbano para a Longevidade (IDL), promovido pelo Instituto de Longevidade MAG, analisa várias áreas nos municípios que são associadas às necessidades dos idosos, como saúde, acessibilidade e transporte, por exemplo.

Dentre as ações prioritárias para os idosos, eu destacaria a moradia, porque as pessoas vão precisando de auxílio para as atividades cotidianas em casa, e além disso, a renda passa a não ser suficiente para manter o lar. Aí estou falando especificamente as ILPIs, que são as instituições de longa permanência para idosos, antigamente chamadas de asilos.

E o Brasil tem proporcionalmente pouquíssimas ILPIs para a quantidade de idosos. Com o aumento dos grupos de pessoas acima de 100 anos de idade, essa vai ser uma necessidade muito grande. Outro serviço muito importante, mas que talvez seja até mais precário do que as ILPIs, são os centros-dia, chamadas pejorativamente de “creches para idosos”. São aqueles lugares que prestam acompanhamento aos idosos que vão apenas passar uma parte do dia no local. Os centros-dia não fazem parte de uma política pública mas estão presentes na área de assistência social de alguns poucos municípios.

 

"Pesquisas mostraram que muitos idosos perderam o medo da tecnologia e aumentaram o uso de recursos digitais na pandemia. Por outro lado, eles também estão entre o segmento etário que mais compartilham as fake news. Daí a importância da educação digital para não só dar o acesso, mas para entender a importância da origem da informação"

 

O POVO - E o que poderia ser feito em relação a trabalho para os idosos de 60 anos ou mais, em relação à possibilidade deles chegarem aos 100 anos? Porque uma aposentadoria com um salário-mínimo, por exemplo, provavelmente vai ser insuficiente para cobrir os gastos mensais de uma pessoa centenária.

Antônio Leitão - O Instituto apresentou uma proposta de projeto de lei que, infelizmente, não chegou a tramitar, e que propõe um regime de trabalho para pessoas idosas aposentadas semelhante ao do jovem aprendiz, com horário reduzido e flexível e menos encargos trabalhistas para o empregador. E o empregado não precisaria contribuir para a previdência porque ele já está aposentado. Não seria uma proposta de alteração da CLT.

Outro aspecto seria a educação digital. Várias pesquisas mostraram que muitos idosos perderam o medo da tecnologia e aumentaram o uso de recursos digitais na pandemia. Por outro lado, eles também estão entre o segmento etário que mais compartilham as fake news, por exemplo. Daí a importância da educação digital para não só dar o acesso, mas para entender a importância da origem da informação.

O POVO - E o que foi feito e poderia ser considerado positivo até agora, em termos de políticas públicas?

Antônio Leitão - Vou falar daquelas que não foram feitas especificamente para os idosos, mas os beneficia diretamente. É o caso da estratégia de saúde da família do SUS. Aqui no Rio de Janeiro, há um caso muito conhecido de uma universidade estadual que tem um centro de convivência profissional que reúne alunos de diversas áreas para dar cursos e fazer acompanhamento dos idosos residentes no entorno. É uma ação que começa a se replicar pelo Brasil.

Outra ação foi a formação da Frente Nacional das ILPIs durante a pandemia, já que os idosos institucionalizados eram a maior parte dos casos de óbitos de Covid-19, assim como a atuação dos conselhos de idosos. E também não se pode deixar de fora a Estratégia Brasil Amigo da Pessoa Idosa (Ebapi) [criada em 2018 e que tem como público alvo os municípios brasileiros para execução de ações voltadas à população idosa].

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