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Reportagem Especial

Argentina e sua obsessão pelas Malvinas 40 anos após a guerra

Guerra das Malvinas completa quatro décadas neste sábado. Território de posse britânica no Atlântico Sul ainda segue no imaginário do argentino e é objeto de discussão sobre a derrocada da ditadura militar

Argentina e sua obsessão pelas Malvinas 40 anos após a guerra

Guerra das Malvinas completa quatro décadas neste sábado. Território de posse britânica no Atlântico Sul ainda segue no imaginário do argentino e é objeto de discussão sobre a derrocada da ditadura militar
Tipo Notícia

 

 

Tatuadas na pele, pintadas nos muros de Buenos Aires: as Ilhas Malvinas (Falklands) ainda são onipresentes na Argentina, 40 anos depois da tentativa fracassada de recuperar sua soberania, reivindicada desde os livros escolares até a própria Constituição. A reivindicação permanece desde a guerra de 1982, com o apoio majoritário da população argentina, que exibe por toda parte a silhueta dos territórios insulares do Atlântico Sul.

Tal reivindicação sobre as Malvinas, Geórgia do Sul e espaços marítimos e insulares está inscrita na Constituição e presente na sociedade e na cultura popular. "A recuperação desses territórios e o pleno exercício da soberania, respeitando o modo de vida de seus habitantes e de acordo com os princípios do direito internacional, constituem um objetivo permanente e inalienável do povo argentino", estabelece a Constituição.

Cada governo argentino aplicou esta política de Estado com variações, embora nenhum tenha conseguido abrir uma negociação pela soberania.

Nesta foto de arquivo tirada em 13 de abril de 1982, um soldado argentino é visto no caminho para ocupar a base capturada dos Royal Marines em Puerto Argentino/Port Stanley, poucos dias após a ditadura militar argentina tomar as Ilhas Malvinas, iniciando uma guerra entre Argentina e Reino Unido(Foto: DANIEL GARCIA / AFP)
Foto: DANIEL GARCIA / AFP Nesta foto de arquivo tirada em 13 de abril de 1982, um soldado argentino é visto no caminho para ocupar a base capturada dos Royal Marines em Puerto Argentino/Port Stanley, poucos dias após a ditadura militar argentina tomar as Ilhas Malvinas, iniciando uma guerra entre Argentina e Reino Unido

 

 

Malvinas "para sempre"

"A Argentina é um país complexo com muitas rachaduras, são poucas as questões que reúnem o coletivo, Malvinas é uma delas", diz Edgardo Esteban, ex-combatente e diretor do Museu das Malvinas. A reclamação está presente em escolas, museus, cédulas ou placas que indicam a distância até o arquipélago em qualquer ponto do país.

"Quem nos fala aqui de esquecimento/De renúncia, de perdão?/Nenhum solo é mais amado/Da pátria na extensão!", diz um dos versos do hino às Malvinas que é cantado nos atos escolares. "Malvinas vivem para sempre" anuncia um cartaz no monumento de Buenos Aires onde uma réplica do cemitério militar de Darwin nas ilhas lembra os 649 argentinos mortos na guerra perdida após 74 dias de batalha.

O veterano de guerra argentino das Malvinas Juan Antonio Alegre olha para o Cenotáfio, uma réplica do cemitério de Darwin, com 649 cruzes com os nomes dos soldados argentinos mortos, durante uma reunião de veteranos no Monumento à Guerra das Malvinas (Falklands) em Pilar, Buenos Aires província, Argentina, em 7 de março de 2022(Foto: JUAN MABROMATA / AFP)
Foto: JUAN MABROMATA / AFP O veterano de guerra argentino das Malvinas Juan Antonio Alegre olha para o Cenotáfio, uma réplica do cemitério de Darwin, com 649 cruzes com os nomes dos soldados argentinos mortos, durante uma reunião de veteranos no Monumento à Guerra das Malvinas (Falklands) em Pilar, Buenos Aires província, Argentina, em 7 de março de 2022

"A guerra foi uma loucura dos milicos, se não a tivessem feito, os ingleses já as teriam devolvido", acredita Hugo Moussito, 59, ao lavar o carro que traz a imagem das ilhas na placa com a legenda "Foram, são e serão argentinas".

Segundo uma pesquisa, mais de 80% dos argentinos apoiam a reivindicação de soberania por via diplomática e 10% consideram necessário desistir. Para os demais a questão é indiferente.

 

 

História, economia e estratégia

Para o historiador Felipe Pigna, as razões argentinas para persistir "são evidentes: só de olhar para a geografia, história, natureza, é território argentino usurpado". Edgardo Esteban considera que a reclamação também tem motivos econômicos e estratégicos.

"A Inglaterra controla o mar ali e se alimenta da pesca, dos recursos naturais da Argentina, por isso mantemos nossa reivindicação, há royalties acumulados de pesca de mais de 180 bilhões de dólares", calcula.

Um caminhão com uma tela mostrando a silhueta das Ilhas Malvinas (Falklands) é visto em trânsito na rota RN9 entre San Miguel de Tucuman e Termas de Rio Hondo Argentina em 31 de março de 2022, antes do 40º aniversário da guerra das Malvinas em 2 de abril próximo .(Foto: JUAN MABROMATA / AFP)
Foto: JUAN MABROMATA / AFP Um caminhão com uma tela mostrando a silhueta das Ilhas Malvinas (Falklands) é visto em trânsito na rota RN9 entre San Miguel de Tucuman e Termas de Rio Hondo Argentina em 31 de março de 2022, antes do 40º aniversário da guerra das Malvinas em 2 de abril próximo .

As ilhas também representam uma ligação interoceânica e para a Antártica. "A Argentina foi o primeiro país a ter uma base científica na Antártica" em 1904, lembra Esteban, destacando uma política ativa que resultou em 13 bases, seis delas permanentes.

Neste contexto, as ilhas têm também um valor estratégico para o Reino Unido. "As Malvinas são o único lugar onde eles têm controle sobre a passagem do Atlântico para o Pacífico. Se algo acontecer com o Canal do Panamá, será a passagem obrigatória dos navios", diz.

"O Reino Unido já está pensando no que vai fazer com a Antártica e suas riquezas, fundamentalmente com a maior reserva de água potável do planeta", aponta. Por isso, para a Argentina "Malvinas é um passado, tem uma imensa história de pertencimento e reivindicação, mas também é um futuro ao qual não vamos renunciar", afirma Esteban.

"Desde a guerra existe um canal multilateral inalterável para as Nações Unidas e a OEA e outro para o Reino Unido com continuidades, rupturas e alguns passos em falso", explica o cientista político Agustín Romero, autor do livro "La Cuestión Malvinas: una hoja de ruta" sobre as ações políticas argentinas desde 1982.

Nesta foto de arquivo tirada em 13 de abril de 1982, soldados argentinos são vistos em seu caminho para ocupar a base capturada dos Royal Marines em Puerto Argentino/Port Stanley, poucos dias após a ditadura militar argentina tomar as Ilhas Malvinas, iniciando uma guerra entre Argentina e Reino Unido(Foto: Daniel Garcia/AFP)
Foto: Daniel Garcia/AFP Nesta foto de arquivo tirada em 13 de abril de 1982, soldados argentinos são vistos em seu caminho para ocupar a base capturada dos Royal Marines em Puerto Argentino/Port Stanley, poucos dias após a ditadura militar argentina tomar as Ilhas Malvinas, iniciando uma guerra entre Argentina e Reino Unido

O governo de Carlos Menem (1989-1999) retomou as relações diplomáticas e promoveu o "guarda-chuva da soberania" idealizado por seu antecessor Raúl Alfonsín (1983-1989) para abrir laços de cooperação protegendo a questão da soberania, com o objetivo de gerar um clima de confiança que favorece uma negociação definitiva.

"Algo que nunca foi alcançado devido à recusa do Reino Unido em negociar, apesar dos apelos da comunidade internacional para retomar o diálogo", destaca Romero.

Os governos de Néstor Kirchner (2003-2007) e Cristina Kirchner (2007-2015) "foram muito duros na reivindicação bilateral e mesmo assim a relação comercial foi a melhor dos últimos 30 anos. Porém, com Mauricio Macri (2015-2019), embora a reclamação tenha diminuído notavelmente em intensidade, o vínculo comercial se deteriorou", indicou.

Um veterano de guerra argentino das Malvinas exibe seu braço tatuado representando as ilhas Malvinas (Falklands) lendo "Proibido esquecer", durante uma reunião de veteranos no Monumento à Guerra das Malvinas (Falklands) em Pilar, província de Buenos Aires, Argentina, em 7 de março de 2022, antes do 40º aniversário do início da guerra, que acontecerá em 2 de abril(Foto: JUAN MABROMATA / AFP)
Foto: JUAN MABROMATA / AFP Um veterano de guerra argentino das Malvinas exibe seu braço tatuado representando as ilhas Malvinas (Falklands) lendo "Proibido esquecer", durante uma reunião de veteranos no Monumento à Guerra das Malvinas (Falklands) em Pilar, província de Buenos Aires, Argentina, em 7 de março de 2022, antes do 40º aniversário do início da guerra, que acontecerá em 2 de abril

 

 

Ditadura argentina cavou sua própria cova com a Guerra das Malvinas há 40 anos

O ditador argentino, Leopoldo Galtieri, cavou a sua própria cova há 40 anos quando lançou a aventura militar das Malvinas e perdeu a guerra contra o Reino Unido em derrota que resultou na queda do regime e no retorno da democracia. Em 2 de abril de 1982, tropas da ditadura recuperaram à força as ilhas que a Argentina reivindicava como parte de seu território.

Foram 74 dias de batalhas em terra, mar e ar. Depois se renderam diante de uma colossal força-tarefa enviada por Londres. Três dias antes, em 30 de março, uma massiva mobilização de rua da central dos trabalhadores e dos partidos políticos que pediam "Eleições já" foi reprimida fortemente com centenas de feridos e detidos, além de um morto na cidade de Mendoza.

Foto divulgada pela Telam do ditador argentino Leopoldo Galtieri acenando para pessoas reunidas na Praça de Maio, da Casa Rosada, em Buenos Aires, em 2 de abril de 1982, após as forças argentinas invadirem as Ilhas Malvinas(Foto: CARLOS VENTURA / TELAM / AFP)
Foto: CARLOS VENTURA / TELAM / AFP Foto divulgada pela Telam do ditador argentino Leopoldo Galtieri acenando para pessoas reunidas na Praça de Maio, da Casa Rosada, em Buenos Aires, em 2 de abril de 1982, após as forças argentinas invadirem as Ilhas Malvinas

Os combates nessas ilhas do Atlântico Sul deixaram 649 argentinos e 255 britânicos mortos. O mundo assistiu com medo à guerra entre dois países do Ocidente. É o mais importante dos conflitos de soberania reconhecido pelo Comitê de Descolonização das Nações Unidas.

"Galtieri tinha pretensões políticas de entrar para a história. Sua ditadura entrava em uma forte crise econômica, em meio de violações massivas dos direitos humanos. Foi puro oportunismo sem traços de patriotismo", explica o historiador Felipe Pigna, bem-sucedido autor de livros e programas didáticos de TV.

Inicialmente, a manobra rendeu frutos: Galtieri apareceu na sacada da Casa Rosada (palácio presidencial), uma tradição de governantes democráticos, diante de uma Plaza de Mayo tomada de pessoas que respaldavam a recuperação das Malvinas.

Foto divulgada pela Telam de pessoas reunidas na Plaza de Mayo, em Buenos Aires, em 2 de abril de 1982, para aclamar o ditador argentino Leopoldo Galtieri após as forças argentinas invadirem as Ilhas Malvinas(Foto: TELAM / AFP)
Foto: TELAM / AFP Foto divulgada pela Telam de pessoas reunidas na Plaza de Mayo, em Buenos Aires, em 2 de abril de 1982, para aclamar o ditador argentino Leopoldo Galtieri após as forças argentinas invadirem as Ilhas Malvinas

"Foi um tiro no escuro da ditadura cívico-militar que buscava se perpetuar no poder. Acontece que as Malvinas fazem parte da identidade e do sentimento de pertencimento dos argentinos", afirma Edgardo Esteban, diretor do Museu Malvinas, escritor e jornalista, premiado pelo roteiro do filme 'Iluminados por el fuego", seu testemunho como ex-combatente.

Pigna recorda que "havia sido preparado um plano secreto de ocupação para uma das duas datas pátrias, o 25 de maio (Revolução de 1810) ou o 9 de julho (Independência em 1816). Porém, diante dos protestos sociais, o aumento do dólar e as corridas aos bancos, os planos foram apressados.

 

 

Fantasia ditatorial

A ONU admite a disputa de soberania desde 1965 e chama as duas partes para negociá-la. O Reino Unido sempre se negou. "A Argentina quer recuperá-las por meio da diplomacia e da paz. As Malvinas são parte da nossa vida", diz Esteban.

"A ditadura criou a fantasia de que teria o apoio dos Estados Unidos. O plano era ocupar, negociar e se retirar. Porém, ao ver a Plaza de Mayo repleta de pessoas diante da sacada, Galtieri decidiu ficar", explicou Pigna. Quase 15 mil soldados argentinos foram enviados ao arquipélago no Atlântico Sul.

Ditadura argentina possibilitou Margaret Thatcher superar uma crise interna que estava prestes a tirá-la do cargo(Foto: DANIEL JANIN)
Foto: DANIEL JANIN Ditadura argentina possibilitou Margaret Thatcher superar uma crise interna que estava prestes a tirá-la do cargo

A então primeira-ministra britânica, Margareth Thatcher, estava enfraquecida internamente, mas encontrou um motivo para melhorar sua imagem. Envia à guerra milhares de tropas, dois porta-aviões e centenas de barcos, bombardeiros e helicópteros. "Possuía uma enorme superioridade militar", constata Pigna.

"Londres consegue o apoio da Otan, de Washington e da ditadura de Augusto Pinochet no Chile", analisa o historiador. A Argentina se rende em 14 de junho e o regime, em crise terminal, convoca eleições.

 

 

Soldados torturados

Na noite da rendição, milhares de argentinos marcharam à Plaza de Mayo para reclamar contra os responsáveis pela derrota. Foram reprimidos com balas de borracha e gases lacrimogênios.

Mas a fossa estava cavada e os ditadores a ponto de cair. Nomearam um general de transição, Reynaldo Bignone, que convocou eleições e o sistema democrático regressa em outubro de 1983.

"Se subestimou o inimigo por causa dos vínculos com os Estados Unidos e dos elogios de (Ronald) Reagan a Galtieri. A auto-crítica e os erros militares estão contidos no Informe Rattenbach, colocado como público há 10 anos", indicou Esteban.

Esta foto de arquivo tirada em 17 de outubro de 2019 mostra um retrato do ditador argentino Leopoldo Galtieri (que liderou o ataque às Malvinas) emoldurada em uma tampa de sanitário, pendurada no banheiro do Victory Pub em Stanley, Ilhas Malvinas(Foto: PABLO PORCIUNCULA BRUNE / AFP)
Foto: PABLO PORCIUNCULA BRUNE / AFP Esta foto de arquivo tirada em 17 de outubro de 2019 mostra um retrato do ditador argentino Leopoldo Galtieri (que liderou o ataque às Malvinas) emoldurada em uma tampa de sanitário, pendurada no banheiro do Victory Pub em Stanley, Ilhas Malvinas

O historiador e o ex-combatente destacam o contraste entre a atitude heroica dos inexperientes e jovens soldados ("esse meninos que colocaram o corpo", disse Pigna) e as brutais conduções das ordens militares, denunciados, até mesmo, por aplicar-lhes torturas no campo de batalha.

Apesar dos militares argentinos terem sido condenados pelos crimes da ditadura, as torturas sofridas pelos recrutas, como privá-los de alimentos ou enterrá-los na neve até o peito, ainda não foram julgadas. Quem os denunciaram estão, 40 anos depois, à espera da Corte Suprema determinar se constituem crimes de lesa humanidade, portanto não sendo passível de prescrição.

Nesta foto de arquivo tirada em 13 de abril de 1982, soldados argentinos almoçam na antiga base da Marinha Real parcialmente destruída(Foto: Daniel Garcia/AFP)
Foto: Daniel Garcia/AFP Nesta foto de arquivo tirada em 13 de abril de 1982, soldados argentinos almoçam na antiga base da Marinha Real parcialmente destruída

 

 

Ex-combatentes nas Malvinas impulsionam julgamento contra militares argentinos por torturas

Soldados enterrados na neve, outros amarrados a estacas pelas extremidades: "as metodologias da ditadura foram transferidas para as Malvinas", acusa o ex-combatente Ernesto Alonso, promotor de um julgamento contra soldados argentinos por torturarem camaradas durante a guerra com o Reino Unido.

"Infelizmente, a situação que ocorreu nas Malvinas em muitos casos foi estar entre dois inimigos", diz Alonso, 40 anos depois, em entrevista no centro de ex-combatentes CECIM em La Plata, sua cidade natal.

Com os depoimentos de dezenas de soldados, o CECIM abriu, em 2007, um processo contra soldados argentinos por tortura de suas próprias tropas durante a guerra.

Veterano da Guerra das Malvinas de 1982 Ernesto Alonso posa após entrevista em La Plata, Buenos Aires, Argentina, em 15 de março de 2022, antes do 40º aniversário da guerra em 2 de abril(Foto: JUAN MABROMATA / AFP)
Foto: JUAN MABROMATA / AFP Veterano da Guerra das Malvinas de 1982 Ernesto Alonso posa após entrevista em La Plata, Buenos Aires, Argentina, em 15 de março de 2022, antes do 40º aniversário da guerra em 2 de abril

"Foi sistemático. Não encontramos antecedentes do que vivemos nas Malvinas, para onde se transferiu o terrorismo de Estado. Lá, a vida de uma ovelha valia mais do que a de um soldado. Havia situações de fome. Houve soldados que morreram de fome", lembra o veterano.

"Testemunhei a morte de um soldado que recebeu a punição de dormir fora de sua posição e, uma manhã, encontramos o soldado entre as pedras, coberto por um poncho, quase congelado de convulsões. Ele não resistiu ao frio", relata.

 

 

Em busca de justiça

Um capacete do exército é visto em uma cruz de madeira durante uma reunião de veteranos de guerra no Monumento à Guerra das Malvinas (Falklands) em Pilar, província de Buenos Aires, Argentina, em 7 de março de 2022, antes do 40º aniversário do início da guerra guerra, que acontecerá no dia 2 de abril(Foto: JUAN MABROMATA / AFP)
Foto: JUAN MABROMATA / AFP Um capacete do exército é visto em uma cruz de madeira durante uma reunião de veteranos de guerra no Monumento à Guerra das Malvinas (Falklands) em Pilar, província de Buenos Aires, Argentina, em 7 de março de 2022, antes do 40º aniversário do início da guerra guerra, que acontecerá no dia 2 de abril

O processo tem cerca de 180 fatos denunciados e uma centena de soldados acusados, mas apenas quatro processados. O julgamento oral ainda não começou, à espera da decisão do Supremo Tribunal de Justiça sobre se considera essas torturas como crimes contra a humanidade. Se o caso na Argentina não prosperar, os ex-combatentes continuarão buscando justiça nos tribunais internacionais, garante Alonso.

Os depoimentos coletados mostram a brutalidade das torturas. "Eles nos colocavam de costas, faziam a gente abrir os braços em forma de um 'T' em relação ao corpo, e as pernas separadas amarradas com corda, com a neve e o frio. Todo corpo congelava", conta um ex-combatente.

Outro acrescenta: "Mandaram que eu fosse enterrado com outros três soldados em uma cova até o pescoço, sem casaco, sem capacete, por mais de dez horas sob temperaturas extremas e sem comida". Nas Malvinas, a temperatura cai para -6° C, com tempestades de ventos gelados, garoa, granizo, neve e geada noturna.

Alguns ex-soldados relataram terem sido forçados a comer excremento, a ficar sem capacete, ou proteção, sob as bombas britânicas, ou recebido choques elétricos.

A promotoria acrescentou ao expediente novas denúncias que analisam "a imersão em águas geladas como método de tortura e casos de abuso sexual em contexto de antissemitismo cometidos contra 24 vítimas", com 19 novos réus, com base em nova análise de crimes desclassificados documentos dos arquivos das forças armadas, segundo um comunicado desta quinta-feira.

Alonso tinha 19 anos e cumpria o serviço militar obrigatório quando, em 2 de abril de 1982, o ditador Leopoldo Galtieri enviou tropas para invadir as Ilhas Malvinas. Ocupadas pelo Reino Unido desde 1833, sua soberania era reivindicada pelos argentinos.

Veterano da Guerra das Malvinas de 1982 Ernesto Alonso posa após entrevista em La Plata, Buenos Aires, Argentina, em 15 de março de 2022, antes do 40º aniversário da guerra em 2 de abril(Foto: JUAN MABROMATA / AFP)
Foto: JUAN MABROMATA / AFP Veterano da Guerra das Malvinas de 1982 Ernesto Alonso posa após entrevista em La Plata, Buenos Aires, Argentina, em 15 de março de 2022, antes do 40º aniversário da guerra em 2 de abril

Dez dias depois, o jovem desembarcava no arquipélago, a 2 mil quilômetros de sua casa, junto com o 7º Regimento de Infantaria de La Plata. Sua companhia passou 64 dias no Monte Longdon, palco de uma das batalhas mais sangrentas ocorrida alguns dias antes da rendição argentina, em 14 de junho do mesmo ano.

Foi ali que 33 dos 649 argentinos mortos durante o conflito perderam a vida. No retorno, não houve reconhecimento, nem assistência psicológica para os sobreviventes. Pelo contrário, "fomos recebidos pelo pior aparato repressivo da ditadura (1976-1983) e nos impuseram silêncio. Isso causou um estrago terrível", avalia.

Mais de 600 ex-combatentes tiraram a própria vida após a guerra, quase o mesmo número daqueles que morreram nos 74 dias de conflito deflagrado pela invasão argentina. Desde 2005, Alonso voltou às ilhas cinco vezes. Foi um dos promotores do processo de identificação das 100 sepulturas anônimas de soldados argentinos no cemitério de Darwin, nas Malvinas.

Ele diz se orgulhar daqueles garotos de 20 e poucos anos que, com muito pouco treinamento militar, armas inadequadas e roupas precárias, lutaram contra as profissionais Forças Armadas britânicas.

Alonso não quer, porém, "ficar ancorado" no conflito armado. "As Malvinas são muito mais do que uma guerra", ressalta, ao reivindicar a soberania argentina.

"As Malvinas estão no DNA identitário de todos os argentinos e, com certeza, a ditadura soube tocar esse DNA. Por isso, todas as contradições da sociedade da época", reflete ele, ao comentar o apoio popular que Galtieri recebeu para a recuperação das ilhas, apesar do crescimento, em 1982, da rejeição à ditadura e a sua política econômica.

Nesta foto de arquivo tirada em 20 de março de 2022, um torcedor do River Plate veste uma camiseta com a silhueta das Ilhas Malvinas antes da partida da Liga Argentina de Futebol Profissional contra o Boca Juniors no estádio Monumental em Buenos Aires(Foto: JUAN MABROMATA / AFP)
Foto: JUAN MABROMATA / AFP Nesta foto de arquivo tirada em 20 de março de 2022, um torcedor do River Plate veste uma camiseta com a silhueta das Ilhas Malvinas antes da partida da Liga Argentina de Futebol Profissional contra o Boca Juniors no estádio Monumental em Buenos Aires

Embora critique "a aventura bélica" do ditador, Alonso também lamenta que a Argentina continue "cerceada, em sua territorialidade, por uma presença colonial" que se fortaleceu em 1985 com a instalação de uma base militar britânica nas Malvinas.

Segundo ele, essa área militar "abriga mais de 3 mil tropas que ameaçam não só a paz da Argentina, mas da região".

Nesta foto de arquivo tirada em 18 de abril de 2013, um homem vestindo uma camiseta com o mapa das Ilhas Malvinas lendo "Para aqueles que não estão aqui", bate uma panela durante um protesto contra o governo da presidente argentina Cristina Fernández de Kirchner em Buenos Aires(Foto: JUAN MABROMATA / AFP)
Foto: JUAN MABROMATA / AFP Nesta foto de arquivo tirada em 18 de abril de 2013, um homem vestindo uma camiseta com o mapa das Ilhas Malvinas lendo "Para aqueles que não estão aqui", bate uma panela durante um protesto contra o governo da presidente argentina Cristina Fernández de Kirchner em Buenos Aires

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