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O feminino contemporâneo é espaço de protagonismo
Reportagem Especial

O feminino contemporâneo é espaço de protagonismo

Na celebração do Dia Internacional da Mulher, O POVO lembra dos séculos de luta por igualdade e constrói cinco perfis de jovens que apontam para o futuro do feminino

O feminino contemporâneo é espaço de protagonismo

Na celebração do Dia Internacional da Mulher, O POVO lembra dos séculos de luta por igualdade e constrói cinco perfis de jovens que apontam para o futuro do feminino
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Apenas em 1977 a Organização das Nações Unidas (ONU) referendou o Dia Internacional da Mulher, dedicado às lutas das mulheres. Um dos principais acontecimentos que impulsionaram a data foi a tragédia da tecelagem Triangle Shirtwaist, em Nova York (EUA). A fábrica mantinha as portas cerradas para evitar a dispersão dos trabalhadores, o que causou a morte de mais de uma centena de mulheres, quando os três andares do prédio onde funcionava a tecelagem incendiaram na manhã do dia 25 de março de 1911.

Ao todo, morreram 123 mulheres e 23 homens. O incêndio deixou visíveis as péssimas condições de trabalho na fábrica. Com jornadas que variavam entre 14 e 16 horas diárias, as mulheres — grande maioria entre os 600 trabalhadores - eram submetidas a condições insalubres e recebiam em média U$ 10 por semana — equivalente a atuais U$ 314. Em 1909, a Triangle Shirtwaist já havia ganhado as manchetes dos jornais novaiorquinos quando pararam a produção para reivindicarem melhores condições de trabalho que incluíam menos tempo na fábrica e um salário maior.

"Apesar do cenário adverso em tantas áreas, o protagonismo feminino vem conquistando cada vez espaço e as novas gerações de mulheres se destacam por abrir diversas frentes de debates e de lutas"

Passados mais de 100 anos do incêndio da Triangle, as mulheres em praticamente todo o mundo ainda debatem a situação salarial, por exemplo. No Brasil, segundo dados do IBGE, as mulheres ganham 76% do salário dos homens, mesmo tendo em média mais tempo de estudos. Uma pesquisa internacional realizada pelo Fórum Econômico Mundial analisou as diferenças salariais entre 142 países e chegou à conclusão que só haveria uma equiparação de renda do trabalho entre homens e mulheres em 2095. O Brasil ocupou o 124º lugar no ranking das disparidades salariais.

Além do mercado de trabalho, as mulheres contemporâneas também precisam lidar com a violência crescente. Há uma semana, 2 de março, pesquisa Datafolha realizada a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelou que todas as formas de violência contra as mulheres cresceram em 2022, desde xingamentos, passando por ameaças de morte, esfaqueamentos e tiros. Os dados revelam que 50.692 mulheres brasileiras sofreram algum tipo de violência no Brasil no ano passado.

Apesar do cenário adverso em tantas áreas, o protagonismo feminino vem conquistando cada vez espaço e as novas gerações de mulheres se destacam por abrir diversas frentes de debates e de lutas viabilizando conquistas permeadas por várias camadas de processos históricos e culturais. Por isso, estão aí as lutas das mulheres negras, das mulheres trans, das mulheres indígenas. O contemporâneo feminino é um lugar de contínua construção e protagonismo permanente. Um recorte desse contemporâneo você lerá a seguir na reportagem do O POVO que celebra o Dia Internacional da Mulher. Boa leitura!

 

 

Larittrix: ao desbravar o universo, ela abre espaço para meninas na Ciência

Por Gabriela Almeida

Ela tem constelação no nome e voz firme de quem sabe que desbrava um espaço onde, décadas atrás, não lhe seria permitido estar. Maria Larissa Pereira, a "Larittrix", com 17 anos acumula medalhas e é reconhecida nacionalmente no campo da astronomia. Natural de Pires Ferreira, a 297km de Fortaleza, a jovem atua em uma área onde homens ainda predominam — um desafio que a impulsiona para a missão de abrir caminho para outras meninas.

Foi no sertão, quando criança, que Larissa começou a se apaixonar pelo céu. Tomada pela curiosidade, a cearense mirava as estrelas e pedia para que a avó explicasse sobre as "Três Marias". Impulsionada pela matriarca e pela própria inquietação, a pequena foi crescendo e descobrindo que saber de "apenas uma constelação" não a satisfazia. O coração pedia mais.

Os muros de Pires Ferreira, no entanto, não comportavam toda a curiosidade de Larittrix. Demorou alguns anos para que Larissa conseguisse ter acesso à internet, pesquisando assim sobre outras constelações e mergulhando de vez em todo esse universo.

Apaixonada por astronomia, a cearense Maria Larissa Pereira Paiva, ou Larittrix - como gosta de ser chamada - participou em junho deste ano do projeto Caça aos Asteroides da NASA. Foi nesse projeto que a jovem, de 16 anos, encontrou um asteroide nunca antes detectado. Residente de Pires Ferreira, município localizado na microrregião de Ipu, Larissa é uma jovem que desde a infância teve curiosidade a respeito do espaço sideral. Quando criança, ela costumava admirar o céu de Pires Ferreira.(Foto: ARQUIVO PESSOAL)
Foto: ARQUIVO PESSOAL Apaixonada por astronomia, a cearense Maria Larissa Pereira Paiva, ou Larittrix - como gosta de ser chamada - participou em junho deste ano do projeto Caça aos Asteroides da NASA. Foi nesse projeto que a jovem, de 16 anos, encontrou um asteroide nunca antes detectado. Residente de Pires Ferreira, município localizado na microrregião de Ipu, Larissa é uma jovem que desde a infância teve curiosidade a respeito do espaço sideral. Quando criança, ela costumava admirar o céu de Pires Ferreira.

"Depois soube que existiam vários números envolvidos, não eram só simples estrelas. Eu me transformei em uma adolescente animada e inteligente, sempre disposta a estudar um pouco mais de Ciência e apaixonada por Astronomia e por Divulgação Científica", conta a jovem.

Filha de professor da rede pública e de dona de casa, a cearense chegou a vender picolé para arrecadar dinheiro e comprar um notebook para estudar. Desde então, Larissa se tornou multimedalhista em olimpíadas científicas, já encontrou um asteroide nunca antes detectado, por meio de um projeto da Nasa— de onde tem mais de 50 certificados de cursos —, e virou classificadora de galáxias para o Observatório do Japão. 

A curta caminhada lhe rendeu o apelido de "Larittrix", junção de Larissa e Bellatrix — estrela da Constelação de Órion, favorita da astrônoma precoce. 

"Eu já sofri uma certa discriminação por ser do interior/zona rural, por ser adolescente/jovem, mas principalmente por ser mulher. Já tive que provar que realmente entendia um assunto várias vezes, quando para meus colegas homens bastava dizer 'eu sei disso'. Para a gente (mulheres), infelizmente, ainda é um desafio permanecer na Ciência", desabafa.

Maria Larissa se destaca no campo da Astronomia (Foto: Arquivo pessoal)
Foto: Arquivo pessoal Maria Larissa se destaca no campo da Astronomia

Feminista em construção, Larissa tira sua força da dificuldade e honra as mulheres que lhe abriram caminho. Ela criou, por exemplo, o projeto "Sem Parar nas Galáxias", que cria oportunidades para meninas de baixa renda se tornarem cientistas cidadãs e fazerem pesquisas internacionais em Astronomia.

"(Eu) Me sinto honrada e com poder de fazer a diferença, mostrar que 'ei! olha pra mim! se eu consegui, vocês também conseguem! Nós somos capazes, meninas''', dispara.

Assim como o município de Pires Ferreira foi pequeno para ela um dia, agora é no Brasil que lhe falta espaço. Larissa se prepara para fazer uma graduação nos Estados Unidos. A partida para novas fronteiras não deve, contudo, fazer com que ela deixe de apoiar e incentivar outras garotas na área.

Impulsionada por uma mulher na infância e tendo como inspiração várias outras, a jovem sabe da importância de ser uma referência e garante que vai seguir lutando para abrir caminhos para as meninas na Ciência. Sobre enfrentar os novos desafios, ela revela uma fórmula: "É o amor que me mantém".

 

 

Larissa DeLucca: do Ceará para ONU transformando outras mulheres

Por Lennon Costa 

Um trabalho realizado no Ceará buscando capacitar mulheres em vulnerabilidade social a empreender tem atravessado fronteiras e fez com que a idealizadora, a cearense Larissa DeLucca, 31, fosse reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU).

A empresária é a primeira nordestina a participar da cúpula CSW-67, principal órgão intergovernamental dedicado à promoção da igualdade de gênero e ao empoderamento das mulheres, que está acontecendo de 6 a 17 de março, em Nova York, nos Estados Unidos.

Larissa é filha de servidores públicos e iniciou a carreira também no setor, ainda com 18 anos, quando era estudante de direito, mas não se viu satisfeita na área e pediu exoneração do cargo: "Eu tinha uma curiosidade que me fazia sempre querer conhecer outras coisas. Eu queria viajar, eu não queria estar presa a um determinado trabalho aos 18 anos de idade", disse.

Larissa DeLucca criou plataforma para auxiliar mulheres em vulnerabilidade social a empreender e foi reconhecida pela ONU(Foto: Arquivo pessoal)
Foto: Arquivo pessoal Larissa DeLucca criou plataforma para auxiliar mulheres em vulnerabilidade social a empreender e foi reconhecida pela ONU

Diagnosticada com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), ela relatou que sempre teve mais dificuldade de fixar o aprendizado, mas que sempre teve certeza de que se focasse em algo e praticasse aquilo, ela seria boa: "o meu foco e a minha superação eram maiores do que qualquer dificuldade", relatou.

Larissa fundou então, ainda aos 18 anos, a Negócios Acelerados, empresa focada em auxiliar outras corporações no processo de marketing e vendas. Ainda no início de carreira e sem formação na área, foi aprendendo com a prática e as experiências morando em São Paulo e na Rússia ajudaram no desenvolvimento profissional dela.

A fundação

A empresária conta que foi mãe aos 22 anos e precisou passar um tempo afastada do trabalho, e aí foi o momento mais difícil da carreira, pois precisou viver as dificuldades que a mulher mãe empreendedora passa, e que essa foi a maior motivação para a criação da Fundação Mulheres Aceleradas.

"As dores que eu vivi são as dores de muitas mulheres que a fundação ajuda. Eu consegui enxergar várias mulheres que estão correndo atrás, porque precisam sobreviver, criar seus filhos, dar boas condições de vida. Infelizmente o empreendedorismo feminino é muito mais marcado por necessidade do que por oportunidade", analisou.

A fundação é um projeto 100% gratuito e formado por voluntárias que capacitam outras mulheres — com foco nas que estão em vulnerabilidade social — a empreender, desde as que já possuem negócios, até as que ainda querem começar.

Larissa conta que a fundação foi pensada para o público cearense, mas ganhou o mundo em 2022 através de uma plataforma digital, estando hoje presente em todos os países de língua portuguesa.

Reconhecimento da ONU

E foi justamente essa internacionalização, chegando em diversos países da África, que fez o trabalho dela ser indicado e reconhecido pela ONU, fazendo ela ser a primeira nordestina a ser chamada para a cúpula CSW-67, que está ocorrendo em Nova York/EUA de 6 a 17 de março.

"Eu fiquei muito feliz e realizada pelo convite, mas se fosse qualquer outra mulher eu também estaria. Ainda existe uma competitividade estimulada entre as mulheres que eu não acho saudável. Temos que vibrar pelo todo, porque agora temos uma voz nordestina lá", exaltou.

Planos para o futuro

Hoje, o desejo da Larissa é expandir o Mulheres Aceleradas pelo interior do Ceará e, posteriormente, traduzir o conteúdo digital para outras línguas, possibilitando que ele consiga chegar em mais lugares do mundo.

 

 

Aline Prudêncio: "Não deixei o ambiente de onde eu moro ultrapassar o meu sonho"

Afonso Ribeiro

As histórias de superação que envolvem esportistas se proliferam Brasil afora. A peculiaridade da trajetória de cada atleta — em geral de origem humildade — indica quantas e quais barreiras precisaram ser vencidas para chegar à carreira profissional. Desviar do mundo da violência e das drogas costuma ser a principal conquista. Eis o caso da cearense Aline Prudêncio de Freitas.

Aline Pru Pru, como também é conhecida, é da Sapiranga, um dos tantos bairros de Fortaleza afetado Afonso Ribeiro s pela violência. Em meio a este ambiente, foi lá onde ela se criou e se formou como cidadã e atleta. Aos 15 anos, às voltas com as teimosias e as convicções da adolescência, conheceu o projeto social Força Falcão de Atletismo por meio dos primos Roni e Rayane.

Aline Prudêncio, a Aline Pru Pru, atleta cearense(Foto: Arquivo pessoal)
Foto: Arquivo pessoal Aline Prudêncio, a Aline Pru Pru, atleta cearense

"Para mim foi fundamental, porque eu era uma menina que não queria saber de estudar. Muito rebelde, respondia muito meus pais; não queria ouvir ninguém por conta da rebeldia", recorda.

Pru Pru tomou gosto pelas corridas e também amadureceu. Sob a batuta do treinador Oswaldo Falcão, idealizador do projeto que existe há mais de 20 anos, passou a se preparar para as mais diversas categorias de provas. A realidade do bairro, porém, impunha-se por vezes: Aline já precisou se abaixar durante um treino para desviar de bala perdida em tiroteio de facções nas proximidades.

No entanto, a cearense de 31 anos não considera este o principal empecilho. "A minha maior dificuldade foi acreditar em mim", admite. O gosto pelas corridas tinha a música como concorrente. Em especial, os shows de Wesley Safadão, de quem Aline não esconde ser fã e não costumava perder uma apresentação do cantor em território cearense. Até 2017, quando recebeu um ultimato de Oswaldo.

"Ele chegou até a mim e falou: 'Você vai ter que escolher: a corrida ou a festa; ou o Wesley ou a mim. Quer se tornar a melhor atleta do Estado?'. Eu quis acreditar naquelas palavras e, dali em diante, começou realmente a evolução da Aline Prudêncio nas corridas", reconhece.

Ao longo da carreira, já foram mais de 450 títulos conquistados e sonhos realizados — a casa própria é o próximo objetivo. Aline destaca o apoio dos pais, Arlindo e Antônia, nesta trajetória e a importância da "segunda família", como se refere ao projeto Falcão. O sucesso de Pru Pru serve de exemplo para as futuras atletas, inclusive na própria família.

"Hoje, sim, eu me considero referência para o meu bairro,. Vejo muitas meninas se inspirando, acreditando e querendo ser iguais a mim. Uma delas é minha sobrinha (Kaylanne), que sempre fala: 'Quero ser igual à titia'. Eu fico muito feliz por hoje ser um exemplo de superação, de evolução. E que eu não deixei o ambiente de onde moro ultrapassar o meu sonho", destaca.


 

Jaianna Canindé: Luta indígena tem na linha de frente rostos femininos

Por Júlia Duarte

Aos 13 anos, Jaianna Kanindé decidiu voltar pra casa. Em Fortaleza, ela se sentia longe das raízes, uma falta que era até espiritual. Ela comunicou aos pais que desejava retornar para a aldeia da Gameleira, no município de Canindé, a 118 quilômetros da Capital.

Hoje, aos 27, ela é uma líder dentro e fora da comunidade. Atua no movimento de juventude Kanindé, além de ser uma das representantes dos povos do Ceará na Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo.

A mudança, ainda no começo da adolescência, a despertou para lutar por políticas públicas que criem um ambiente econômico e educacional na aldeia. O objetivo é incentivar os indígenas a permanecer, mas também garantir que aqueles que escolham deixar o território tenham os mesmos direitos de acesso a trabalho, educação e cultura.

Jaianna Kanindé(Foto: Arquivo pessoal)
Foto: Arquivo pessoal Jaianna Kanindé

Entrar na luta indígena, para ela, foi quase como uma obrigação. Quando começou, eram poucos os rostos jovens e femininos em um contexto rural e bem longe das políticas públicas. "O interesse partiu da necessidade de ver que a minha aldeia era pequena e que ela não tinha muita visibilidade. As políticas públicas eram bem escassas aqui dentro. Eu via as lideranças mais velhas já desgastadas do movimento, cansadas... Eu me senti na obrigação de honrar tudo que eles já tinham feito e tentar dar continuidade ao legado."

Nesses 14 anos de atuação, Jaianna foi vislumbrando outros rostos femininos. Ela acredita que há uma diferença quando mulheres levantam as próprias pautas e encorajam outras jovens a buscarem direitos. "Não tem nada mais verdadeiro e mais encorajador do que uma mulher falando daquilo que ela sofre. A violência em casa, a pressão psicológica, a questão do feminicídio, todos os assuntos que hoje são pauta. Quando as mulheres entram em campo para falar sobre isso, traz uma força maior."

Este ano, ela acredita, é um "marco histórico na luta dos povos indígenas", com a criação de um ministério, em âmbito federal, e de uma secretaria estadual focada nos povos indígenas. Ela destaca ainda que o marco é também pela condução das pastas, lideradas por mulheres indígenas que são membros ativos da mobilização: Sônia Guajajara (Psol), da Terra Indígena Arariboia, e Juliana Alves (PcdoB), também conhecida como Cacika Irê, do Povo Jenipapo-Kanindé.

"Antes eram indicações políticas e, muitas vezes, com interesses econômicos. Agora esses órgãos serão conduzidos pelos nossos parentes que conhecem a realidade do nosso território", celebra.

 

 

Gabriela Oliveira: Impulsionar novas narrativas por meio do audiovisual

Por Lara Montezuma

Por trás do filme "Férias Trocadas", longa-metragem da Paris Entretenimento com lançamento previsto para o segundo semestre de 2023, está um dos recentes desafios da assistente de câmera Gabriela Oliveira, de 30 anos. O projeto foi o primeiro trabalho internacional da profissional, com todas as gravações realizadas na Colômbia. Este é mais um avanço simbólico na carreira que começou a ser desenhada, mesmo de maneira involuntária, ainda na infância.

A operadora e assistente de câmera Gabriela Oliveira integra equipes de longas-metragens, séries, documentários e publicidades(Foto: Arquivo pessoal)
Foto: Arquivo pessoal A operadora e assistente de câmera Gabriela Oliveira integra equipes de longas-metragens, séries, documentários e publicidades

Gabriela cresceu cercada por equipamentos de filmagem. Parte das primeiras lembranças remetem a conversas sobre os ensinamentos e vivências do avô, o cineasta Eusélio Oliveira, e idas aos sets para acompanhar o pai, o diretor de fotografia Eusélio Oliveira Gadelha, mais conhecido como Xuxu. As referências familiares causaram certa hesitação na hora de decidir a profissão que iria guiar o futuro, mas ela percebeu que deveria "andar com as próprias pernas" no audiovisual.

As experiências na universidade aprofundaram o interesse pela construção das imagens cinematográficas. Atualmente, em iniciativas maiores, Gabriela atua na produção técnica como parte da equipe de câmera. No filme "Bem-Vinda a Quixeramobim" (2022), Gabriela foi 2ª assistente de câmera, responsável pela organização, limpeza e montagem diária do equipamento. Já na série "O Cangaceiro do Futuro" (2022), da Netflix, ela participou como 1ª assistente de câmera, função responsável pelo foco da imagem.

Ela pontua que ainda é um pequeno número de mulheres que se aventura nas equipes técnicas dentro do audiovisual e espera que outras não passem pelos mesmos episódios de preconceito. "São funções que vejo poucas mulheres exercendo, principalmente no Nordeste, e é exatamente isso que me faz ter mais vontade de continuar trilhando esse caminho. As oportunidades são poucas, mas devemos nos lançar e, principalmente, quebrar esse ciclo reproduzido durante anos de que mulheres são mais fracas ou não aguentam o dia-a-dia nos sets", defende.

Entre as produções de Gabriela, consta "Saravá, Meu Avô", homenagem a Eusélio Oliveira, que estreou na 32ª edição do Cine Ceará. Outros títulos são as séries "Se Avexe Não" (2022) e "Meninas do Benfica" (2022), assim como os filmes "Última Cidade" (2022) e "Cine Holliúdy 2: A Chibata Sideral" (2018), realizados entre São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará. A jovem afirma que o cinema cearense é uma "grande potência" e que há cada vez mais investimento em gravações locais. "Temos profissionais capacitados para trabalhar em projetos grandes, excelentes cursos e escolas de audiovisual para capacitar uma nova geração de profissionais", acredita.

 

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