O agronegócio, que já mostra sua importância para economia nacional há décadas, está se adaptando às inovações tecnológicas. Como reflexo, tem atraído e qualificado um novo perfil de profissionais do campo: com maior nível de instrução, escolaridade e alinhado ao conhecimento científico.
O estudo Mercado de Trabalho do Agronegócio Brasileiro, elaborado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) aponta que no primeiro trimestre de 2023 a população ocupada no agronegócio foi de 28,1 milhões de pessoas. Um crescimento de 0,9% em relação ao mesmo período de 2022.
Este é o melhor resultado nacional já registrado para um 1º trimestre e o segundo melhor desempenho levando em conta todos os trimestres desde o início da análise realizada pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), em 2012.
Evolução da série histórica - população no agronegócio
No País, no primeiro trimestre deste ano, a população ocupada no agronegócio representou 27% do total do estoque de empregos. Quanto ao perfil da mão de obra, na comparação entre trimestres iguais, nota-se que o aumento foi puxado por empregados com carteira assinada; trabalhadores com maior nível de instrução; e aumento da participação feminina.
No Ceará, de acordo com os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o estoque de empregos com carteira assinada no mês de junho deste ano foi de 21.650 mil. O que significa um crescimento de 4,80% em relação ao igual período do ano passado.
Dados sobre emprego no setor agropecuário no Ceará
A inserção de novas tecnologias tem provocado mudanças no perfil das ocupações. Dentre as novas profissões que ganham espaço no segmento agro estão especialistas em agricultura de precisão, que utiliza dados e tecnologias para otimizar o uso de insumos; analista de dados agrícolas, que coleta, analisa e interpreta dados para melhorar a tomada de decisões nas operações; e engenheiro agrônomo digital, que aplica princípios de engenharia para desenvolver soluções tecnológicas aplicadas à agricultura, como sensores, drones e softwares.
Outros perfis completam a lista como especialista em agroenergia, atuando na produção de energias renováveis, como biomassa e biogás; e gestor de logística agroindustrial, profissional que coordena o fluxo de insumos, otimizando os processos de transporte e armazenamento.
A economista e assessora técnica da CNA, Isabel Mendes chama a atenção também que neste estudo o agrosserviços se destacou.
População no agronegócio/População Brasil - Participação (%)
“Tivemos uma superssafra nesse primeiro trimestre que puxou o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil e, por conta disso, temos esse encadeamento na parte de logística, armazenamento, transporte, serviços financeiros, serviços contábeis, jurídicos, entre outros”, diz.
Já em relação ao perfil profissional Isabel destaca justamente o aumento da formalização, pois em geral, pessoas registradas têm um rendimento maior. Outro ponto é a questão da escolaridade com o ensino médio e o superior, o que tem relação direta com a tecnologia e a inovação.
“Essa produtividade extraordinária existe justamente pela introdução das novas tecnologias. Ela demanda uma mão de obra mais qualificada. Isso acontece também dentro da porteira com máquinas, software que tem mão de obra específica”, salienta a economista.
No Ceará, essa alteração laboral também é notada, segundo o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec) e Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) do Ceará, Amílcar Silveira.
“Estamos tendo uma mudança muito forte aqui. Por exemplo, utilizávamos no passado, como tratoristas, cada dia está ficando mais obsoleto. Agora, estamos na onda dos drones que devem ser liberados aqui. Aí será uma nova profissão, operador de drone ou piloto de drone. A eficiência do drone é muito maior.”, prevê.
Reforça que a cada dia que passa mais tecnologias estão chegando, assim, como novas informações. “É preciso que o setor no Ceará ande antenado e, principalmente, atualizado com as novas tendências. Está tendo muita mudança e existe a falta da mão de obra qualificada também para isso, as pessoas estão se qualificando mais”, afirma.
Ele cita como exemplo que, no passado, uma vaca de leite produzia de oito a dez litros. Hoje, a média do gado de leite é vinte e cinco a trinta litros. “As áreas estão ficando menores e a tecnologia maior”, diz Silveira.
Um problema, segundo o presidente da Faec, é quequase metade das pessoas não termina o curso superior. “Por isso é muito importante que pelo Senar a gente qualifique nossos trabalhadores para que possam ser mais eficientes com as novas tecnologias”, destaca, pontuando que a formalidade e a formação de produtores vai ser cada dia maior.
O superintendente do Senar no Estado,Sérgio Oliveira, confirma e detalha que são enormes as mudanças no mercado de trabalho no agronegócio brasileiro, e consequentemente no Ceará, visto que aumentou a formalização empregatícia.
“Há uma crescente demanda em áreas tecnológicas, como agricultura de precisão, análise de dados e automação, em busca de mais eficiência, produtividade e sustentabilidade na produção”, observa.
Em geral, para atender essa nova onda de inovação no agro as capacitações ocorrem por meio de cursos técnicos, graduações e pós-graduações em universidades e instituições especializadas.
“O próprio Senar oferece cursos técnicos em agronegócio, fruticultura e zootecnia, além da faculdade CNA que tem formado mão de obra para o setor. Programas de treinamento, workshops e eventos também visam oportunidades de aprendizado contínuo, como, por exemplo, o Pecnordeste, que este ano levou conhecimento tecnológico em diversas cadeias produtivas”, explica o superintendente.
Como ainda existe falta de mão de obra especializada em tecnologia para o agronegócio, Oliveira cita algumas estratégias para suprir essa demanda como os programas de capacitação, onde empresas do setor, instituições de ensino e organizações governamentais oferecem programas de capacitação e treinamento em tecnologias agrícolas.
O agronegócio nacional deve contar também nesse sentido com o apoio de créditos do Banco do Nordeste (BNB) para alavancar o setor, assim como a aplicação de novos conhecimentos no campo para aumentar a produtividade.
Em evento em São Paulo durante essa semana, o presidente Paulo Câmara destacou que a atuação do BNB no agronegócio é forte e crescente, com contribuição direta na geração de emprego e renda, bem como na melhoria da vida das famílias do campo.
“Fazemos quase 50% do crédito rural e agroindustrial de longo prazo da região e estamos focados no Plano safra 2023-2024”, afirma.
Nesse sentido, Câmara fala da programação do Banco do Nordeste para contratar R$ 20 bilhões no âmbito do Plano Safra 2023/2024. A meta é aplicar R$ 8,5 bilhões entre agricultura familiar; e R$ 11,5 bilhões em agricultura empresarial.
O total representa um aumento de 33% sobre os valores disponibilizados pelo Plano Safra 2022/2023 para o BNB. Fora isso, o programa traz inovações para estimular as práticas sustentáveis.
O maior destaque é a redução de até um ponto percentual nas taxas de juros do crédito se o produtor tiver o Cadastro Ambiental Rural (CAR) analisado e se adotar medidas com produção orgânica.
Os tickets médios das operações do Pronaf passam de R$ 6 mil para R $10 mil (homens) e R$ 12 mil (mulheres), o que possibilitará mais investimentos nas unidades rurais de pequeno porte.
Já Silvia Massruhá, presidente da Embrapa, ressalta que o foco prioritário da instituição é ajudar a democratizar o acesso às novas tecnologias, especialmente para os pequenos e médios produtores.
“Nesse aspecto, o Nordeste está incluído diretamente em nossa estratégia, pois 88% dos produtores rurais locais são de pequeno porte, e a Região também nos oferece uma série de ações de sucesso, a exemplo das áreas do Matopiba, Sealba e Vale do São Francisco, que já contribuem diretamente na melhoria do Agronegócio no Brasil”, pontou o executivo.
A paixão e o fascínio por terras e tudo que o solo fértil pode proporcionar instigou desde cedo Talita Adeodato, 38, gerente agrícola da Fazenda Amway Nutrilite do Brasil.
Talita é filha de técnico agrícola e ex-produtor rural e sempre o acompanhava nos trabalhos. Além disso, a instalação da multinacional na sua região, Serra da Ibiapaba, voltada a produção de vitamina C Orgânica para fins de exportação foi o suficiente para unir a inspiração do pai, com a oportunidades de atuar e contribuir com a região.
“O que era um sonho de carreira tornou-se realidade, fui de estagiária, auxiliar de operações, pesquisadora e, hoje, estou como gerente agrícola, de uma renomada empresa. Avalio, que o meu progresso em cada etapa da carreira, foram as inúmeras oportunidades e desafios, aliado ao desejo contínuo de aprender”, declara.
A gerente que cada passo na sua carreira teve como aliado a inserção da tecnologia no campo. “Presenciei e pude atuar em processos de evolução da mecanização e agricultura de precisão. Como a validação de processos de mecanização da colheita da acerola, na qual somos pioneiros no Brasil, os trabalhos renderam publicações e definição do ponto ótimo de colheita da fruta em campo, com maior teor de vitamina C e rendimento”, celebra.
Como mestre em Biotecnologia, ela relata que fez uso da ciência para validar os melhores materiais genéticos de acerola e para o alcance do resultado teve à disposição equipamentos laboratoriais modernos.
“Com o uso da biotecnologia acessei informações a partir do DNA, marcadores moleculares, e fiz a avaliação de parâmetros agronômicos, que resultou em patente de um genótipo de acerola submetida nos USA, além de, recentemente, dados dos meus estudos contribuíram para o registro de uma nova cultivar de acerola no Brasil”, detalha a gerente que tem três patentes no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
Além de propagar as descobertas científicas, a profissional já definiu seus próximos passos que estão em execução. “Sob a perspectiva da agricultura regenerativa, entender como a inovação pode impulsionar cada vez mais práticas sustentáveis no campo, reduzir impacto ambiental, otimizar recursos e aumentar a produtividade”, afirma.
Outra questão que enche Talita de satisfação é que o protagonismo feminino no agro é uma realidade. “Tenho orgulho de fazer parte da ascensão de mulheres em cargos de destaque no agronegócio em nosso País. Orgulho ainda maior de viver essa realidade tão presente na Nutrilite, onde a inovação e protagonismo feminino andam de mãos dadas”, comemora.
Hoje, 50% dos seus cargos de alta gestão são compostos por mulheres, as três fazendas do grupo são dirigidas por mulheres, além da principal Head de Inovação e Ciência ter seu grupo de cientistas de pesquisa global o maior percentual feminino.
Talita conta que ao longo dos seus 17 anos de experiência no agro, presenciou as operações de campo tornarem-se mais dinâmicas e com maior necessidade de capacitação do time frente às inovações.
E cita, como exemplo, que como tecnóloga em recursos hídricos fez uso de ferramentas mais simples e cálculos para definição de irrigação e, hoje, tem a sua disposição o Manejo Inteligente de Irrigação e Relatórios de gestão com Dashboard.
Por telemetria de dados, uso de sensores, informações via satélite em tempo real a ferramenta gera relatórios gerenciais com as variáveis mais relevantes para tomada de decisão.
“Vi operação agrícola, com dificuldades na gestão dos custos, por falhas em registros de campo, se transformarem em processos 100% rastreáveis, com uso da digitalização. Possibilitando, assim, informações geradas para tomada de decisão a cada 24 horas, o que permite uma operação com dashboards de gestão e acompanhamento de indicadores de desempenho de cada talhão cultivado”, especifica a gerente.
A empresa possui 342 colaboradores diretos, sendo que 35% residem na zona rural e 30% possuem nível superior completo. A empresa possui um programa, Amar, que estimula a pela busca de conhecimento, por meio de bolsas de graduação, pós-graduação, inglês, benchmarking e cursos específicos em diferentes áreas.
“As iniciativas de capacitação contínua são essenciais para os avanços tecnológicos em campo, como a agricultura de precisão, dependemos de colaboradores treinados para que os equipamentos sejam usados de maneira correta, refletindo, diretamente, na produtividade do campo”, finaliza.
Foi na atual empresa que a engenheira agrônoma, Lilian Lourenço, 34, conseguiu incentivo para aprimorar sua carreira com foco na inovação. Agora, como mestre em Microbiologia Agrícola, trabalha no Sítio Barreiras como microbiologista e atua no controle biológico de pragas e doenças.
A empresa na qual trabalha, desde 2020, possui uma parceria com a Universidade Federal de Viçosa (UFV) estimulando a pesquisa com trabalhos em microbiologia voltados para agricultura, em específico, a bananicultura, além de aperfeiçoar os colaboradores.
“O Sítio Barreiras vem inovando a agricultura no Cariri com o uso de insumos biológicos, e cumpre sua missão de produzir bananas de forma mais sustentável, produtiva e ambientalmente equilibrada”, comenta Lilian.
Hoje, além de cumprir as tarefas do cargo de microbiologista, coordena a produção e multiplicação de bioinsumos ou insumos biológicos do laboratório e do complexo biológico da fazenda.
“A microbiologia é uma área que exige constante atualização e os temas bioinsumos e controle biológico a cada dia ganham mais destaque na área agrícola e isso necessita de frequente aperfeiçoamento”, comenta Lilian.
A profissional complementa que, atualmente, o número de eventos voltados para essas áreas cresceu. “Através da participação em cursos, palestras, simpósios e congressos consigo me aprimorar na biotecnologia agregando mais conteúdo para minha carreira e para desenvolver um melhor trabalho na empresa”, relata.
No dia a dia laboral no BioSítio ela e a equipe são responsáveis pelo crescimento e a conservação in vitro de fungos e bactérias, além dos testes de interação entre os microrganismos e o isolamento de novos microrganismos. Também atuam diretamente na produção massal de fungos e bactérias em substrato, como por exemplo o arroz, e o controle de qualidade de todo material produzido.
“No complexo biológico realizamos a multiplicação on farm de fungos e bactérias que são aplicados no bananal”, detalha. Ela deseja que novos conteúdos sejam desenvolvidos para sempre agregar mais informações. E não descarta, se necessário, um doutorado.
Muitas pessoas conseguem trilhar uma carreira dentro do mercado agro. É o caso do engenheiro agrônomo Telfs Magnus, 39, que responde como gerente geral de produção da Agrícola Famosa, e está na empresa há 16 anos.
“Entrei como estagiário, depois passei a ser auxiliar de produção, em seguida assumi o cargo de gerente de produção de algumas fazendas. Depois passou para coordenador de produção e, agora, estou como gerente geral de produção”, detalha.
Filho de agricultor, ele conta que resolveu seguir os passos do pai e cursar engenharia agrônoma, pois sentia, desde pequeno, muita afinidade com o campo e como a agronomia poderia se dedicar à produção de alimentos.
Para agregar as novas tecnologias na sua carreira, ele trabalha visando pesquisa, inovações técnicas e qualificação profissional. “Sempre com a mente aberta e voltada para inovar e trazer benefícios e sustentáveis ao agronegócio”, afirma.
No dia a dia laboral, comenta que trabalha em busca de diversos tipos de inovações. Como, por exemplo, a inovação genética que busca novas variedades com resistências a pragas e doenças; a inovação de máquinas, equipamentos e implementos cada vez mais eficientes e sustentáveis ao negócio.
E, ainda, as inovações técnicas que trabalham os bio adubos, bio inseticidas, biológicos, extratos naturais. De forma geral, diz que a empresa está aberta às tecnologias que possam facilitar a vida do trabalhador e torná-la cada vez mais o agronegócio sustentável.
Segundo Magnus, é preciso se qualificar sempre. “Em um mercado tão dinâmico estar qualificado é fundamental. Devemos sempre buscar novos conhecimentos e estarmos abertos a receber as inovações e novas tecnologias”, finaliza.