“► E como diz a minha musa Bette Davis: apertem os cintos, porque vem aí muita turbulência! E parte Trem Bala, parte Trem Bala, Paaaarte, Trem Bala!"
Era assim, de jeito único, espontâneo e irreverente, que o ícone do jornalismo esportivo cearense, Alan Neto, entrava diariamente na casa de milhares de apaixonados pelo Trem Bala — o programa e o apresentador, que adotou o codinome.
Há um ano, no dia 3 de abril de 2024, o jornalista e radialista partiu, como ele próprio costumava dizer, para o Trem da Eternidade. E que viagem deixou para trás. O legado de Alan para o jornalismo cearense foi imensurável. Afinal, foram 60 anos de uma carreira irretocável, recheada de irreverência, polêmicas e um talento inquestionável para prender o público.
Seu dom era tão grande que apenas o rádio, sua paixão primeira, não foi suficiente para conter a genialidade. Ele queria mais. E o público também. Do rádio para o jornal impresso foi um pulo. Lá, Alan consolidou uma plateia fiel, que aguardava ansiosamente pela coluna diária. Como não esperar pelas famosas "bombas de mil megatons" que ele trazia? Eram sua assinatura, sua marca registrada.
Durante todo esse tempo, os textos de Alan Neto estiveram sempre entre os mais lidos do O POVO. Muitas vezes a coluna mais vista, mais comentada e, por que não, mais criticada? Porque Alan era assim: polêmico, mordaz, inconfundível. Mas a verdade, para ele, sempre esteve acima de qualquer suspeita.
A grande questão era que Alan não se contentava — e odiava férias. A culpa? Do passageiros, que sempre queriam mais. E ele entregava. Na Rádio O POVO, começou com o "Superlativo Programa do Alan". Febre nos anos 1990 e até início dos anos 2000. Quem achou que ele pararia? Nem a pau, nem a bala. E assim surgiu o "Trem Bala".
Primeiro, no rádio, do jeito tradicional. Mas o sucesso foi tão estrondoso que o programa atravessou fronteiras e foi para a televisão. Foram 12 anos no ar. E quando parecia que Alan já havia feito de tudo, ele se reinventou mais uma vez.
À beira de completar seis décadas de carreira, mergulhou de cabeça no YouTube. A plataforma de vídeo mais acessada do mundo virou sua nova casa. No O POVO, por exatos oito meses, ele fez o que sempre soube: sucesso.
Entre Cadeiras Elétricas, declarações capciosas (que palavra!), debates acalorados e risadas inesquecíveis, o Trem Bala continuou cruzando inúmeras estações da vida dos cearenses até seu dia final. Alan Neto pode ter partido, mas a irreverência, o talento e a verdade continuam vivos em cada lembrança de quem embarcou nesse vagão.
Não importava o local, o veículo de comunicação ou o momento. Alan podia estar cercado por diferentes pessoas, mas uma presença era inegociável em qualquer desafio: o irmão e também jornalista Sérgio Ponte. Âncora do programa “As Frias do Sérgio”, na Rádio O POVO CBN, e voz marcante das jornadas esportivas, o Bi Bola de Ouro sempre esteve ao lado de Alan, fosse no trabalho ou na vida.
Figura constante no Trem Bala, ocupava sempre o mesmo lugar, como se aquele espaço fosse um elo eterno com o irmão. De certa forma, herdou o jeito irreverente de Alan, de quem recorda com profunda saudade.
“O tempo passa... E como passa rápido, tal qual o Trem Bala, imortalizado durante na televisão cearense. Hoje, o Trem Bala, que não para, não para, não para — o slogan adotado pelo Alan em seus programas — segue a mil por hora”, relembra Sérgio, com a voz embargada pela emoção.
O luto ainda é latente. A ausência de Alan, mesmo após um ano, continua imensurável. “Já se passaram 12 meses e eu nem percebi. Continuo órfão. Órfão de pai, de amigo, de irmão. Repito o que disse antes e levarei até o túmulo: Alan foi tudo para mim, profissionalmente e pessoalmente. Praticamente fui criado por ele na infância. Como jornalista, fui feito por ele. Tento, embora saiba que nunca chegarei nem perto, seguir seus bons exemplos”, desabafa o irmão mais novo, carregado de saudade.
Ele também revive momentos marcantes ao lado do irmão e reforça que, independentemente do tempo, a falta de Alan permanece viva, pulsante e insubstituível. “Ele ficará eternamente no meu coração e na minha memória. Engraçado... O tempo passa, e a cada dia que passa, minha saudade só aumenta. Como sinto falta de tudo nele: dos ensinamentos, da orientação, da maneira de se expressar e de como um entrevistador deve se portar”, apontou o Bi Bola de Ouro.
Longe das câmeras e dos microfones, Alan tinha três grandes amores que iluminavam sua vida: sua esposa, Ivanilde Rodrigues (a musa Bette Davis), sua filha, Alana Rodrigues (a Loirinha Gotinha D’Água), e sua neta, Júlia (Xerim). Para comandar o Trem Bala todos os dias, era neste trio que ele encontrava seu combustível.
No Dia dos Pais de 2013, Alan deixou de lado o esporte por um instante e abriu seu coração em uma edição especial do O POVO. Para quem o acompanhava na TV e no rádio, aquelas declarações não eram novidade. Alan sempre fazia questão de mencionar suas meninas, tornando-as quase tão conhecidas quanto ele. Júlia, aliás, deixou sua marca na história do avô e do futebol cearense ao eternizar a icônica frase "I love you, Ferrão" — uma homenagem ao Ferroviário, o time do coração.
O amor de Alan pela família não era por acaso. Com Bette Davis, compartilhou 58 anos de casamento, repletos de cumplicidade e afeto. "Sou muito grata a Deus por ter colocado o Alan Neto na minha vida, no meu caminho. Foram cinco anos de namoro e 58 anos de casamento. Uma vida inteira”, relembra Ivanilde.
“Sinto saudade, sim, de tudo o que vivemos, dos passeios pelo shopping da cidade, onde sempre éramos interrompidos por seus admiradores, que queriam tirar fotos, gravar vídeos… E ele, como sempre, girava o dedo e gritava: ‘Olha o dedo do Trem Bala!’ Isso se repetia todas as vezes em que éramos abordados, em qualquer lugar", completa.
A eterna companheira revive cada detalhe, como se Alan ainda estivesse ali, ao seu lado. "Sinto falta das nossas conversas. Sinto falta do seu olhar carinhoso, do seu amor, da sua gentileza, da sua elegância. Alan era um homem extremamente gentil e educado, tratava todos com carinho, respeito e consideração", elogia.
Por fim, tomada pela emoção, ela resume em palavras a dor da ausência, mas também a grandeza do legado deixado por Alan. "Ele se foi, mas deixou sua marca. Em cada profissional que passou por suas mãos, em cada passageiro que embarcou naquele trem: o Trem Bala. Agora, Alan, você está no trem da eternidade. Você virou uma estrela. Quanto a mim, meu amor, só posso dizer: você é a saudade que eu gosto de ter."
Assim como a mãe, Alana compartilha do mesmo sentimento. "Ser sua filha é o maior presente que Deus me deu. Conviver com ele, aprender, ouvi-lo, ter seu afeto, seus cuidados, compartilhar experiências e vê-lo transbordar amor e calmaria sempre me bastou. Sua ausência física é real, mas a tristeza deu lugar a uma saudade gostosa. Porque saudade boa é aquela que traz uma lembrança feliz, acompanhada de um sorriso leve e um suspiro profundo, de tão marcante que foi sua presença e existência", enfatizou a "Loirinha".
"E é assim que tenho levado os dias. Quando a coisa aperta, tenho a sorte de poder acessar algum dos vários programas que estão registrados e que me permitem ouvir sua voz, seus jargões, ver seus movimentos e trazê-lo para bem pertinho de mim", disse a filha única de Alan.
Ao longo de sua trajetória, a forma única de Alan se comunicar e fazer jornalismo o levou a conquistar vários companheiros, alguns deles inseparáveis. Entre eles, alguém que nunca era visto, mas sempre citado a cada intervalo do Trem Bala: "Passe adiante, Régis Medeiros".
Régis, popularmente conhecido como Cabo Manduca — apelido dado, claro, por Alan —, é técnico da Rádio O POVO CBN e, por muito tempo, foi produtor do Trem Bala, na AM 1010. Ele fez questão de ressaltar que sua relação com Alan ia muito além do profissional.
"Falar desse amigo, irmão e companheiro de tantas batalhas que enfrentamos juntos é falar de saudade. Faz muita falta. Devo muito ao grande Alan. Com ele, aprendi a fazer um programa dinâmico e polêmico no rádio", afirmou.
Outro escudeiro fiel de Alan era o radialista Miguel Júnior, setorista do Fortaleza na Rádio O POVO CBN, que trabalhou com o eterno jornalista por mais de duas décadas e costumava enviar dados para contribuir com a coluna do jornal. "Alan Neto era uma pessoa formidável. Além de companheiro, um amigo. Trabalhamos juntos por cerca de 26 anos na mesma emissora, a Rádio O POVO CBN, que era a 1010, a companheira."
Âncora e comentarista da Rádio O POVO CBN e colunista do O POVO, Fernando Graziani começou sua trajetória no Superlativo Programa do Alan, em 2001.
"A ausência de Alan, além da perda humana, já que ele era uma pessoa especial, deixou uma lacuna impossível de ser preenchida do ponto de vista profissional", destaca Graziani, que ganhou o apelido de "Iceman" do Trem Bala nos tempos de rádio.
"Sua perspicácia e carisma, além da forma única como se comunicava no rádio, na TV e nos textos, fazem muita falta. Alan exercia o jornalismo com inteligência e bom humor, sempre dando espaço e protagonismo também para quem trabalhava ao seu lado. Um legado eterno."
Caderno especial (4/4/2025) em homenagem a Alan Neto