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Tensões geopolíticas: ex-Fortaleza Kervin e família vivem Venezuela, Israel e futebol ao mesmo tempo
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Reportagem Especial

Tensões geopolíticas: ex-Fortaleza Kervin e família vivem Venezuela, Israel e futebol ao mesmo tempo

A trajetória do jovem vendido pelo Fortaleza ao Maccabi Tel Aviv revela as barreiras geopolíticas que separam a família venezuelana de acompanhá-lo. O pai de Kervin, Mário, é funcionário da maior estatal de petróleo do país latino, na mira do governo Trump

Tensões geopolíticas: ex-Fortaleza Kervin e família vivem Venezuela, Israel e futebol ao mesmo tempo

A trajetória do jovem vendido pelo Fortaleza ao Maccabi Tel Aviv revela as barreiras geopolíticas que separam a família venezuelana de acompanhá-lo. O pai de Kervin, Mário, é funcionário da maior estatal de petróleo do país latino, na mira do governo Trump
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No futebol, o meio de campo é o setor onde se exige a maior capacidade de leitura dos espaços. Para o meia venezuelano Kervin Andrade, de 20 anos, ex-jogador do Fortaleza, essa articulação deixou de ser apenas esportiva para se tornar uma questão de navegação entre duas das principais complexidades geopolíticas da atualidade.

Enquanto veste a camisa 10 do Maccabi Tel Aviv, em Israel, atravessado pelos conflitos históricos que envolvem a região, a família permanece na Venezuela. O pai, Mário Andrade, atua na principal indústria estatal de petróleo do país, observando de perto as transformações políticas e econômicas de sua terra natal após a invasão dos Estados Unidos.

Pelo profissional do Fortaleza, Kervin fez 41 jogos, com oito gols e seis assistências(Foto: Davi Rocha/Especial para O Povo)
Foto: Davi Rocha/Especial para O Povo Pelo profissional do Fortaleza, Kervin fez 41 jogos, com oito gols e seis assistências

À reportagem, o atleta e seu pai revelam grande saudade do tempo em que o Kervin defendeu o escrete vermelho-azul-e-branco, contam bastidores da negociação que levou o jovem para fora do continente e falam, principalmente, sobre a aflição de viver entre dois cenários de políticas quentes, com a esperança de um reencontro em melhor momento.

 

 

Distâncias geopolíticas

Sozinho em Israel, Kervin enfrenta o desafio da adaptação à nova língua e cultura em um lugar que vive sob um cenário prolongado de conflitos militares,. Ele considera que está indo bem e conseguindo se manter em segurança, especialmente pela logística aplicada ao futebol.

Para a família, a distância é ampliada pelas barreiras consulares: em meio às tensões entre Venezuela e Estados Unidos, a obtenção de vistos para visitar o filho tornou-se um processo ainda mais rigoroso e incerto.

Historicamente, Venezuela e Israel possuem relações diplomáticas rompidas desde 2009, o que significa que não existem embaixadas ou consulados diretos para facilitar o trânsito de cidadãos entre os dois territórios. Agora, com o país latino sob intervenção direta dos Estados Unidos, o rigor sobre o passaporte venezuelano foi potencializado.

Na infância, Kervin já era fã do futebol brasileiro, especialmente de Neymar, mas carrega Messi como maior ídolo, ainda que goste de Cristiano Ronaldo(Foto: Acervo pessoal/Mario Andrade)
Foto: Acervo pessoal/Mario Andrade Na infância, Kervin já era fã do futebol brasileiro, especialmente de Neymar, mas carrega Messi como maior ídolo, ainda que goste de Cristiano Ronaldo

Para Mário Andrade e a família, a tentativa de obter um visto para Israel exige o que os analistas chamam de “diplomacia de ponte”: eles precisam se deslocar para centros como o Brasil para processar documentos em representações estrangeiras, num “processo consular”, ou precisam de um visto com autorização prévia do Ministério do Interior de Israel.

No entanto, o próprio trabalho de Mário na Petróleos de Venezuela S.A (PDVSA), agora sob mira das petroleiras norte-americanas, coloca a família em uma zona de escrutínio adicional. O resultado é uma barreira burocrática que impede uma viagem para acompanhar Kervin.

“Espero que as coisas estejam mais calmas em maio, mais estáveis, para todos nos vermos tranquilos e felizes. Estou ansioso para que chegue logo. Enquanto isso, preciso continuar meu trabalho no Maccabi. Agora, já são 7 da noite por aqui. Já Treinei, descansei, e me alimentei. Fique tranquilo”, diz o filho em mensagem corriqueira para o pai, indicando que viajará à Venezuela nas férias, já que os pais não podem ir até Israel.

 

 

Passagem no Fortaleza e viagem para Israel

A trajetória de Kervin no Brasil foi marcada por uma ascensão meteórica que ilustra como os clubes do “Sul Global” operam na retenção e venda de talentos. Em março de 2024, o Fortaleza, reconhecendo o potencial do meia, até então cedido por empréstimo, exerceu a opção de compra junto ao Deportivo La Guaira, da Venezuela.

O clube cearense investiu 250 mil dólares (pouco mais de R$ 1 milhão na cotação à época) para adquirir 50% dos seus direitos econômicos, firmando um contrato sólido até o fim de 2028. Era um movimento de afirmação: o Tricolor do Pici apostava em Kervin como uma peça central para o futuro esportivo e financeiro da instituição.

Kervin Andrade comemorando gol contra o Boca Juniors(Foto: Felipe Cruz/FEC)
Foto: Felipe Cruz/FEC Kervin Andrade comemorando gol contra o Boca Juniors

Kervin queria repetir o sucesso da temporada anterior. No entanto, a lógica do futebol impôs um ritmo diferente. Pouco menos de um ano e meio depois, a realidade financeira e os desafios desportivos do clube, que já lutava contra o rebaixamento no Brasileirão , transformaram o jovem venezuelano, que havia caído consideravelmente de rendimento e perdido minutagem, de “peça de reposição” em um “ativo estratégico de urgência”, assim como nomes da base.

A proposta do Maccabi Tel Aviv surgiu como uma solução de liquidez imediata para o Fortaleza. Na transação, o clube cearense adiquiriu uma maior fatia dos direitos e vendeu sua parte por 1,8 milhão de dólares, cerca de R$ 9 milhões, na cotação da época. Todavia, manteve 40% dos direitos econômicos sobre uma futura venda de Kervin. Para o clube, foi um negócio de preservação de patrimônio; para o atleta, ele revela, foi uma surpresa.

Existiam propostas da Colômbia, dos Estados Unidos e de outros clubes do próprio Brasil. Até mesmo sondagens da Itália e outros países da Europa aconteceram, mas sem serem oficializadas no papel timbrado.

No Fortaleza, a camisa de Kervin mudou para o nome “Tuti”, seu apelido de infância, por imitar o personagem Chucky, mas sem que a dicção de criança o ajudasse. Corria falando o nome do personagem pela casa(Foto: Leonardo Moreira/Fortaleza EC)
Foto: Leonardo Moreira/Fortaleza EC No Fortaleza, a camisa de Kervin mudou para o nome “Tuti”, seu apelido de infância, por imitar o personagem Chucky, mas sem que a dicção de criança o ajudasse. Corria falando o nome do personagem pela casa

Até aí, havia concordância entre Kervin, staff e Fortaleza de que o jogador não teria minutagem após a parada para a Copa do Mundo de Clubes, posto que a alta concorrência na posição, em meio à crise, ficaria ainda mais alta com a chegada de contratações.

Contudo, o interesse do clube israelense gerou um contato direto com a diretoria do Leão do Pici à época, e o aceite da proposta ocorreu pelas vantagens e urgências ao Fortaleza. Kervin demorou a aceitar, pois não queria acreditar que não conseguiria recuperar-se no Tricolor.

Estava adaptado, feliz, e vivia com a mãe, Yexibel Navarro, que viajou para o Brasil e passou a lhe fazer companhia em um apartamento da capital. O pai, que não podia se mudar por conta do trabalho, estava com uma viagem planejada para visitar o filho quando soube da concretização da venda.

Ainda assim, a vontade de estar em campo era grande e o fator de poder atuar em uma Europa League acalentou a negação do então camisa 77 do time cearense.

 

 

No Maccabi, Kervin foi anunciado com a camisa 10 em vídeo especial

 
 
 
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“Ele me conta que foi apenas informado que haviam aceitado a oferta e que tinha que pegar suas malas e ir para lá. Mas ele não queria sair do Brasil, ele queria ficar lá. De fato, ele considera o Fortaleza a sua segunda casa até hoje. Foi onde ele teve a oportunidade de estar na seleção da Venezuela e de estrear como profissional na primeira divisão em um país como o Brasil”, relata o pai.

Desse modo, o atleta finalizou a primeira passagem pelo Tricolor com 50 partidas disputadas, oito gols marcados e seis assistências distribuídas. Para além dos números, o jovem ergueu o troféu de campeão da Copa do Nordeste 2024.

Kervin ainda quer voltar ao futebol brasileiro um dia. “Se for no Fortaleza, melhor ainda”.

 

 

Mas o futebol segue normal em Israel?

Os jogos do Campeonato Israelense (Ligat Ha’Al) continuam ocorrendo em território nacional, mas sob um regime de segurança rigoroso e de constante monitoramento do Comando da Frente Interna de Israel.

A logística dos jogos é diretamente afetada pela localização dos estádios e pela intensidade dos conflitos em determinadas regiões. Devido às tensões mais acentuadas no Norte, na fronteira com o Líbano, a maioria das partidas têm se concentrado na região central de Israel e em cidades do sul que possuem protocolos de abrigo mais estabelecidos.

O Bloomfield Stadium, justamente onde o Maccabi Tel Aviv, time de Kervin Andrade, manda seus jogos, é um dos que está localizado em posição mais segura — ou que tem os protocolos de segurança melhores estabelecidos para emergências.

O Netanya Stadium é frequentemente usado como campo neutro ou por clubes que não podem jogar em suas sedes originais. O Teddy Stadium, em Jerusalém, também é uma área considerada bem montada para uma urgência. 

O atleta tem ganhado uma minutagem maior no Maccabi, mesmo em adaptação(Foto: REPRODUÇÃO/MACCABI TEL AVIV)
Foto: REPRODUÇÃO/MACCABI TEL AVIV O atleta tem ganhado uma minutagem maior no Maccabi, mesmo em adaptação

Diferentemente do ambiente festivo que Kervin encontrava na Arena Castelão, o cenário em Israel é, obviamente, de cautela. Muitas partidas ocorrem com portões fechados, sem torcida, para facilitar a evacuação rápida em caso de sirenes. Quando o público é permitido, há um limite restrito de pessoas baseado na capacidade dos abrigos antiaéreos de cada estádio.

Na Europa League, os portões costumam ser fechados para o clube de Kervin, com jogos realizados em campos neutros na Europa, normalmente na Hungria, Sérvia ou Polônia.

Segundo o pai, o início de Kervin no esporte foi aos 4 anos, quando ele já exibia o "seu talento natural" para o futebol. A jornada de jogador começou em um torneio infantil Sub-5, representando o Libertad Socialista F.C, no Colégio Loyola, de Puerto Ordaz(Foto: Acervo pessoal/Mario Andrade)
Foto: Acervo pessoal/Mario Andrade Segundo o pai, o início de Kervin no esporte foi aos 4 anos, quando ele já exibia o "seu talento natural" para o futebol. A jornada de jogador começou em um torneio infantil Sub-5, representando o Libertad Socialista F.C, no Colégio Loyola, de Puerto Ordaz

Em novembro, o Maccabi Tel Aviv decidiu não negociar ingressos para o jogo contra o Aston Villa, na Inglaterra, mesmo com permissão, com medo da segurança do local. O veto ao comparecimento de seus torcedores aconteceu após pressão do governo do Reino Unido para que a polícia da cidade de Birmingham liberasse a presença de torcedores israelenses.

As ligas e federações afirmam manter uma postura institucional de neutralidade quanto aos conflitos, em busca de mascarar o impacto no esporte, mas as evidências de que eles atingem o futebol surgem, mesmo com todas as punições declaradas para as manifestações políticas.

Em março do ano passado, por exemplo, o atacante conhecido como o “Pelé palestino”, Suleiman al-Obeid, foi morto por forças israelenses enquanto aguardava ajuda humanitária. A Uefa prestou homenagem ao jogador, mas a resposta de Mohamed Salah, craque do Liverpool, sintetizou o silêncio da entidade sobre as circunstâncias da morte: “Você pode nos dizer como ele morreu, onde e por quê?”.

Kervin não se posiciona politicamente sobre onde vive ou onde nasceu, mas diz que o ambiente em Israel é mais frio nos relacionamentos. Ainda assim, o jovem já fez duas boas amizades: o zagueiro brasileiro Heitor e o ponta Hélio Varela, de Cabo Verde. A rotina de Kervin tem sido bem regrada: treina no clube e depois com um personal individual, tem aulas de inglês, fica na concentração com o elenco e até passeia pela rua.

Para ele, a dificuldade é estar sozinho. Ainda assim, tem sido um impulso para aprender a se virar. Seu foco em casa tem sido aprender a cozinhar: “O YouTube tem ajudado com as receitas”, brinca.

 

 

Outro olho na Venezuela

“A distância me dá pavor e receio, mas peço para ele (Kervin) se manter seguro e seguir o que se pede. Aqui e lá só estamos vendo fatalidades, e inevitavelmente morrem pessoas inocentes. Nos falamos todos os dias, independente do fuso horário”, conta Mário Andrade.

O filho tenta a vida que o próprio pai sonhou no futebol, mas em Israel, enquanto ele é um espectador presente da invasão estadunidense em Caracas. Engenheiro eletrônico na PDVSA, Mário habita o centro nervoso desse transe.

Com a captura do ex-presidente Nicolás Maduro e o avanço da ofensiva econômica e militar norte-americana, a petroleira deixou de ser apenas uma empresa para se tornar o grande espólio da transição, com diferentes análises especializadas sobre o futuro, indicando se o preço do petróleo vai subir ou cair.

Kervin (de branco) tem quatro irmãos. Todos passaram por alguma divisão das categorias de base, mas apenas kervin segue no profissional. Seu pai foi treinador de todos(Foto: Acervo pessoal/Mario Andrade)
Foto: Acervo pessoal/Mario Andrade Kervin (de branco) tem quatro irmãos. Todos passaram por alguma divisão das categorias de base, mas apenas kervin segue no profissional. Seu pai foi treinador de todos

Enquanto parte do mercado celebra a abertura para gigantes como Chevron e Exxon e ao mesmo tempo teme outras restrições, o trabalhador venezuelano observa o movimento das transnacionais também com uma mistura de ceticismo e fé, que deixam de ser como água e óleo no copo.

“Nos prometeram melhorias nos salários, nos benefícios e na saúde, mas até agora tudo está no campo das hipóteses”, afirma Mário. O engenheiro representa uma classe que assiste à chegada de um investimento prometido de US$ 100 bilhões, como relatam os rumores da imprensa internacional, confirmardos nos bastidores.

A “meritocracia”, que ele conta estar mais falada por lá, é recebida com a cautela, pois sabem que em processos de transição impostos por potências externas, os direitos laborais costumam ser as primeiras baixas. Ainda assim, diz que está confiante, que vê um futuro bom, por “pelo menos existir a possibilidade das coisas melhorarem”.

 

 

Afetos e sonho europeu

A distância está clara que não é apenas geográfica, contém sirenes e fusos horários. Em Israel, Kervin segue protocolos de segurança e mantém o foco na Europa League, competição que serve de vitrine para o seu maior objetivo profissional: “Jogar a Premier League inglesa ou a La Liga espanhola”.

O jovem venezuelano nasceu em 13 de abril de 2005, na cidade de San Félix, em Bolívar, o maior estado da Venezuela. Na imagem, Kervin está à direita e Mário à esquerda(Foto: Arquivo pessoal/Mário Andrade)
Foto: Arquivo pessoal/Mário Andrade O jovem venezuelano nasceu em 13 de abril de 2005, na cidade de San Félix, em Bolívar, o maior estado da Venezuela. Na imagem, Kervin está à direita e Mário à esquerda

Geopoliticamente, o jovem está em um ponto sensível. Kervin, no entanto, mantém a neutralidade e o foco no trabalho, usando sua inteligência para se adaptar a uma cultura radicalmente diferente da sua. Diz que está bem, conseguindo se manter seguro, ainda que com muita saudade.

Com toda a distância, o plano da família Andrade é um reencontro em maio, como citado anteriormente, se não houver novos desmarques. Será na Venezuela, durante as férias do atleta. O desejo de Kervin é encontrar um país mais calmo e estável, onde possa celebrar sua trajetória com os seus entes queridos.

O que une as duas pontas dessa história é a busca por um horizonte de estabilidade pelos residentes latinos. Kervin joga para chegar à elite do futebol mundial e, talvez, levar a família para morar mais perto.

Mário trabalha para manter a estrutura do país de pé, na esperança de que, em maio, as férias tragam não apenas o filho de volta, mas uma paz que parece cada vez mais cara no mercado global.

Com Helder Sena, especial para O POVO

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